O Mundo vai acabar!

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O fantasma do fim do mundo assombra a humanidade desde tempos imemoriais, paranóia estimulada por profetas, videntes e astrólogos dos quatro cantos do planeta. A história registra com abundância profecias sobre o fim do mundo e o efeito muitas vezes trágico provocado por elas. E mesmo com o fiasco de todas estas profecias, as pessoas continuam a levá-las a sério e a dar crédito aos loucos que se intitulam profetas.

Uma coisa é certa: o mundo vai acabar um dia; pode ser amanhã, na semana que vem, daqui a um ano, uma década, um século ou milênios…

A crença de que o mundo iria acabar no ano 2000, gerada pela interpretação errônea do texto do Apocalipse e pelas profecias estapafúrdias de Nostradamus, tirou o sono de muita gente no século passado. Depois do fracasso delas, seria lógico supor que as pessoas deixassem de acreditar, definitivamente, em profetas e videntes de qualquer tipo. Mas ao invés disso, a crença retorna agora revigorada por supostas profecias baseadas em um dos calendários maias.

Profecias Maias

O estudioso guatemalteca Enrique Alvarado, que reside na Áustria, desmente toda esta enxurrada sensacionalista sobre o fim do mundo. Desde 1992, quando se tornou sacerdote maia (Ajquij), Alvarado estuda os calendários maias, em especial o Calendário Ritual ou Tzolkin. Segundo ele, não há um calendário maia, mas vários que formam um sistema, pois estão interligados; além disso, nenhum destes calendários termina em 2012 ou outra data. Por definição, um calendário é um instrumento para medir o tempo e não uma contagem regressiva; portanto, não tem um final, a menos que se considere como tal o momento no qual se deixa de usá-lo, o que não aconteceu aos que foram elaborados pelos povos maias, pois ainda são usados diariamente na América Central.

É evidente que a maioria dos livros, artigos e sites que exploram este tema tenta fazer conexões com profecias conhecidas e assuntos sem nenhuma relação com o calendário maia.
Para tentar justificar o injustificável, os esotéricos rechearam essas profecias  com argumentos retirados de assuntos completamente estranhos a elas. Vale tudo para vender o peixe: astrologia de almanaque, hexagramas chineses, runas nórdicas, conceitos tirados de filmes de ficção científica (portal dimensional, quarta dimensão, alienígenas), bobagens inventadas pelo pessoal new age (canalizações, mensagens de mestres ascensionados), Nostradamus, Bíblia, física quântica interpretada por gente que mal sabe soletrar o próprio nome… São tantas bobagens que acho estranho não citarem a previsão feita num dos episódios da série Arquivo X, onde 22 de dezembro de 2012 é o dia da invasão dos extraterrestres!

Na verdade não há nenhuma profecia “detalhada” na cultura maia sobre o que acontecerá em 2012. Os poucos textos desta civilização que foram traduzidos são criptográficos e imprecisos. Afirma-se que os seus calendários terminam em 2012, mas embora sua mitologia fale em mudanças de eras (como quase todos os povos da antiguidade), não há nada que permita deduzir-se que tenham profetizado o fim do mundo nesta data. Para dar respaldo a essa fantasia, os autores que escreveram livros a respeito misturaram outras profecias (que fracassaram), como as de Nostradamus, de Edgard Cayce, de Jeanne Dixon e do Apocalipse entre outras. A maioria de seus argumentos nada têm a ver com o calendário maia, mas impressionam os incautos que não percebem a inconsistência deles. Da mesma forma, os argumentos pseudo-científicos que utilizam são arbitrários e tentam fazer conexões que não resistem a uma análise mais acurada.

É evidente que o mundo está sofrendo transformações climáticas que tendem a aumentar, com consequências catastróficas no futuro. Estamos colhendo o resultado de décadas de depredação do meio ambiente, desmatamento, poluição, efeito estufa, explosão demográfica, etc. Que estamos caminhando para o caos, que mudanças radicais e catastróficas podem acontecer é uma previsão fácil de acertar, de tão óbvia; mas apontar datas para futuros desastres é um mero jogo de adivinhação que serve apenas para vender livros e semear inquietação nas mentes mais sugestionáveis.

Balaio de gatos

Profecias catastróficas sempre fizeram parte do repertório de videntes, astrólogos e profetas; mas que eu saiba, nenhum deles previu as duas maiores conflagrações mundias ocorridas no século vinte: a primeira e a segunda guerra.

Terremotos, inundações, cataclismas que destruíram civilizações no passado estão no inconsciente coletivo da humanidade. Na própria Bíblia, na mitologia grega e sumeriana estes eventos são sempre registrados como supostos castigos divinos.

Os esotéricos tentam dourar a pílula, dizendo que segundo o calendário maia haverá em 2012 um alinhamento do Sol em relação ao centro da Via Láctea, que provocará a emissão de uma energia radiante, que alcançará a a Terra através do Sol, iniciando um “ciclo de evolução para a humanidade”.

Tudo isso é uma bela peça de ficção; mas teriam os maias uma astronomia tão sofisticada a ponto de saber o que é galáxia, energia radiante ou buraco negro? O próprio conceito de “evolução” é coisa moderna, que surgiu na cultura ocidental a partir de Darwin; portanto, o que os maias têm a ver com isso?
De fato, eles elaboraram um calendário muito preciso, mas isso não significa necessariamente que tivessem meios de prever o que acontecerá no futuro. Diga-se de passagem que os maias mostraram mais discernimento em relação aos conquistadores espanhóis do que os astecas; enquanto estes acolheram seus futuros algozes como deuses, os maias os rechaçaram de início e não entregaram o ouro sem uma feroz resistência…

Talvez já tivessem sido prevenidos sobre a cordialidade espanhola; da centena de homens do início da expedição comandada por Francisco Hernandez de Córdoba, no primeiro contato com os maias cinqüenta foram mortos e os que não tiveram suas gargantas cortadas com espadas de madeira encravadas de sílex foram capturados para servirem a futuros sacrifícios. Apesar da sua civilização notável, da sua arquitetura, da astronomia sofisticada, da escrita, esse povo tinha costumes cruéis, como sacrifícios humanos, que horrorizaram os próprios espanhóis. Por isso, não deixa de ser risível que os esotéricos atribuam a noção de “evolução cíclica da humanidade” a um povo que acreditava em deuses cruéis e impiedosos, e praticava sacrifícios rituais até de crianças… Suas crenças só poderiam inspirar visões futuras de destruição e morte.

Aliás, a religião quase sempre é um reflexo da cultura e da realidade de um povo; o Apocalipse bíblico foi escrito por um profeta sedento de sangue, mergulhado no ressentimento, alimentado pelo ódio à vida, ao mundo e aos romanos. No fundo, suas visões eram a expressão do seu desejo de aniquilação coletiva imediata.

Os adeptos destas supostas profecias tentam colocá-las em concordância com outras teorias relativas ao Fim dos Tempos e com a crença de que a humanidade deve passar por um processo de regeneração coletiva, de separação do joio do trigo.

No fundo, é a mesma ideia compartilhada pelos espíritas adeptos da teoria dos exilados do planeta Capela, dos crentes da passagem do “planeta X” ou Hercólobus e, também, dos teosofistas que acreditam nos mitos das civilizações arcaicas da Lemúria e Atlântida. Mas nas supostas profecias maias não há referência a este planeta intruso e, portanto, essa conexão fica por conta da imaginação dos seus intérpretes.

Os cientistas também previram uma intensa atividade solar entre 2011 e 2012, embora neguem que isso possa acarretar catástrofes. Tempestades solares intensas acontecem periodicamente e há quem acredite que a atividade solar em 2012 possa provocar uma mudança significativa na inclinação do eixo da Terra e produzir, em conseqüência, atividades geológicas de proporções catastróficas. Não é a primeira vez que cientistas se metem a prever catástrofes e fracassam, da mesma forma que videntes e profetas do passado.

A única conclusão a tirar disso tudo é que, caso 2012 passe em branco, podem estar certos de uma coisa: novas profecias serão anunciadas e o povão, esquecido de todas as que fracassaram, também acreditará nelas…

Predições astrológicas e psicose coletiva

À guisa de ilustração, citaremos algumas situações anedóticas provocadas por predições de astrólogos, referentes ao fim do mundo:

Em 1179 o célebre astrólogo João de Toledo previu que a conjunção de sete planetas no signo de Libra em setembro de 1186 desencadearia um cataclisma universal. A divulgação de sua profecia aterrorizou o Oriente e o Ocidente civilizados com a ameaça de tempestades terríveis e tremores de terra. Toledo conclamou a todos a se esconder em cavernas e montanhas, pois o mundo seria destruído e apenas alguns seriam poupados.

Nada ocorreu e depois Toledo justificou-se alegando que a conjunção, na verdade, relacionava-se à invasão dos hunos, um “pequeno erro interpretativo” que provocou pânico, desespero, suicídios e saques.

Outro astrólogo cristão, chamado Corumfiza, predisse que os árabes seriam totalmente destruídos por tempestades, ventos fortes e um grande fedor. Milhões de pessoas prepararam-se para o pior e em todos os países da Europa construíram-se abrigos subterrâneos. Na Pérsia e na Mesopotâmia as cavernas foram preparadas para abrigar refugiados; em Bizâncio o imperador mandou retirar as janelas do seu palácio e cobri-las com vigas. Na Inglaterra – em Winchester –, uma freira caiu em transe, recitou versos latinos assustadores profetizando eventos terríveis por causa da conjunção e morreu logo em seguida; neste clima de histeria, o arcebispo de Canterbury ordenou um jejum de três dias. Mas na data determinada, o dia amanheceu com um tempo esplêndido e nem a mais leve brisa incomodou os mortais. Um dos monges da cidade, ao qual não faltava senso de humor, deixou registrado: “Sofremos só o temporal que Sua Eminência desencadeou do púlpito”. Digno de registro, houve apenas um pequeno terremoto na Inglaterra em 1185 e algumas inundações em 1187, ano que também marcou a queda de Jerusalém.

O episódio caiu no esquecimento e logo outras catástrofes foram anunciadas, com intervalos de algumas décadas, nos anos de 1229, 1236, 1339, 1371,1395, 1422,1432, 1451, 1460, 1487.

Em janeiro de 1523, um grupo de astrólogos londrinos chegou à conclusão que o fim do mundo aconteceria por um dilúvio no ano seguinte, em primeiro de fevereiro de 1524, devido a uma conjunção planetária no signo de Peixes. Por causa disso, um mês antes, duas mil pessoas abandonaram Londres, buscando terras mais altas e um clérigo armazenou comida e água numa fortaleza construída por ele. Como nem uma gota de chuva caiu, um dia depois os astrólogos se justificaram alegando um “pequeno erro de cálculo” e disseram que o fim do mundo seria em 1624, e não em 1524. Mas esta retratação não serviu de consolo para os londrinos, cuja cidade foi toda saqueada por ladrões durante o “dia da evacuação”.

O astrólogo alemão Joahnnes Stöffler também conseguiu semear pânico e terror no seu país ao predizer um dilúvio de proporções universais que engoliria a humanidade em 20 de fevereiro de 1524. Astrônomos espanhóis confirmaram a previsão e uma enxurrada de panfletos anunciando o fim do mundo espalhou o medo pela Europa. Em todos os lugares não se falava em outra coisa, senão do iminente dilúvio universal. Também profetizou-se contratempos para a Igreja e flagelos cruéis aos judeus. Como a conjunção ocorreria em Peixes, signo do cristianismo, era certo que toda a cristandade, principalmente nas regiões do norte e do sudoeste, seria vítima de trombas d’água, chuvas de pedras, estrelas cadentes, dragões chamejantes e um cometa pavoroso. Em Tolosa, os moradores construíram uma arca gigantesca. Na orla marítima, as pessoas aguardaram o pior distribuídos em barcos e houve quem vendesse todos os bens ou corresse a ultimar o testamento. Na Alemanha, na data prevista para o cataclismo, todas as famílias da corte refugiram-se numa ridícula colina perto de Berlim, rodeados pelos súditos chorosos. Mas não caiu uma única gota d’água naquele dia, a não ser as lágrimas das pessoas apavoradas. O ano foi frio e chuvoso, mas em nenhum lugar houve enchentes. Após o fracasso de sua predição, Stöffler transferiu o dia do juízo final para 1528…

O curioso de tudo isso é que, algumas décadas depois, as pessoas comentaram este evento como se tivesse ocorrido de fato uma inundação catastrófica e que a humanidade havia escapado dela sem maiores prejuízos! Melanchton, amigo de Lutero, chegou a dizer que a previsão de 1524 havia se cumprido durante a sua vida, atestando assim o poder dos astros…

Já em 1528, por ocasião da passagem de um cometa, o médico Ambroise Paré registrou que algumas pessoas morreram de medo e outras caíram doentes só de contemplá-lo. Acreditou-se que o fim do mundo estava próximo e muita gente legou seus bens ao mosteiros. Os padres revelaram mais bom senso e aguardaram a vontade dos céus aceitando de bom grado os bens terrenos.

Diante de tantos disparates, só nos resta rir de todas estas bobagens e lamentar que os homens continuem, obstinadamente, a alimentar a pretensão de adivinhar o futuro. De uma coisa temos certeza: o mundo vai acabar um dia e talvez algum maluco consiga acertar os números da loteria do fim do mundo. Mas que glória existirá nisso?

 
Se quiser conhecer um pouco mais sobre este assunto, leia o Breviário de Profecias do Fim do Mundo, de Bira Câmara (Edição de bolso / 2010, ilustrada, 130 páginas). Um inventário de profecias do fim do mundo, desde a antiguidade até os dias atuais, com um capítulo sobre a Profecia Maia para 2012.

 

 

Poetas da Lua e das Estrelas – II

Poeta detalhe

Desde que inseri a matéria “Poetas da Lua e das Estrelas” passei a colecionar poemas sobre o assunto pensando numa nova postagem. Constatei, então, que o tema lua e estrelas é praticamente rotineiro na produção poética romântica, parnasiana e simbolista, e continuou presente até mesmo entre os modernistas. Em pouco tempo consegui reunir um considerável volume de poemas, cuja publicação só seria possível numa coletânea impressa que pretendo publicar brevemente. Por uma feliz sincronicidade, caiu em minhas mãos uma antologia de poetas franceses intitulada… Les Poétes de la Lune! O livro me mostrou que a Lua é tema recorrente na produção poética universal através dos tempos.

A quantidade de acessos ao post “Poetas da Lua e das Estrelas” foi para mim uma agradável surpresa, provando, ao contrário do que muita gente pensa, que a poesia ainda hoje tem muitos leitores e cultores. A rainha da noite sempre exerceu um grande fascínio sobre a imaginação humana, inspirando mitos e crendices populares em todas as culturas do planeta desde a antiguidade. Não é de se espantar, pois, que a sua presença na literatura seja tão marcante.

Na mitologia grega ela tem múltiplas personificações: Hécate, Selene, Febe; entre os romanos era Lucina, que presidia os partos, bem como Diana — a caçadora — e Juno; os egípcios a conheciam como Ísis, enquanto os fenícios a chamavam Astarte e os persas Milita. Depois do Sol, a Lua era a maior divindade do paganismo e tudo indica que até hoje ela mantém esta aura mística, pelo menos entre os poetas que sempre a cultuaram através dos tempos com um fervor quase religioso.

Curiosamente, na poesia, o Sol é relegado quase a segundo plano, aparecendo quase sempre como mero interlocutor da Lua. A quantidade de poemas que têm a Lua ou o luar no título é muito maior do que aqueles que têm o Sol. Uma destas raras produções, de autoria do poeta piauiense Da Costa e Silva, é o “Hino ao Sol”. Esta desproporção é mais do que justificada, devido a tradicional associação da Lua com os poetas e enamorados.

A astrologia, cujo simbolismo tem raízes mitológicas, relaciona a Lua à figura materna, ao lar, à família, à água e ao mar, bem como à imaginação; entre os poetas ela personifica o princípio feminino com suas flutuações de humor e instabilidade, muito bem exemplificado nestes versos de José Maria Velho da Silva:

Fez como a Lua formosa,
Que de formosa seduz;
Quando quer, também faceira
De repente esconde a luz.

Também, como astro noturno por excelência, a Lua está sempre presente nas divagações poéticas, seja como musa, companheira ou confidente. A melancolia, o spleen dos românticos frequentemente tem a noite enluarada como pano de fundo.

A lua acabou representada como astro da saudade e prestou-se ao ufanismo patriótico; assim, o poeta romântico português João de Lemos (1819-90) exalta, saudoso, o céu de sua pátria em contraposição ao “plúmbeo céu” de Londres, queixando-se à Lua:

Eu e tu, casta deidade,
Padecemos igual dor,
Temos a mesma saudade,
Sentimos o mesmo amor;
Em Portugal o teu rosto
De riso e luz é composto;
Aqui triste e sem clarão;
Eu lá sinto-me contente,
E aqui lembrança pungente
Faz-me negro o coração.

Este poema, intitulado A Lua de Londres, serviu de modelo a muitas produções de cunho ufanista e patriótico, como algumas obras de Casimiro de Abreu e Antonio Nobre.

Como eu já observei na postagem anterior, os poetas da antiguidade cantaram a Lua, mas o fizeram sobretudo para celebrar nela a divindade mitológica múltipla e diversa: Febe — chama noturna do mundo —, Diana — a caçadora —, Hécate — guardiã dos infernos —, Lucina — que ajuda as mães a pôr filhos no mundo. Mas no século XVI, curiosamente, quando a astrologia estava incorporada a quase todas as áreas do conhecimento, poemas que tratassem da Lua e de suas influências eram muito raros. No século XVII eram mais raros ainda, como se tivesse acontecido um verdadeiro eclipse da Lua na literatura. A partir do século XVIII, principalmente na literatura francesa, essa temática cativou os poetas a tal ponto que poesias falando da Lua e das estrelas se tornaram cada vez mais comuns. Foi como se elas se levantassem de novo com um brilho inesperado sobre a poesia.

Quanto mais avançou o conhecimento científico nos séculos XIX e XX, mais o fascínio pelo astro da noite impressionou a imaginação dos poetas e seresteiros.

Entre os poetas românticos brasileiros, Álvares de Azevedo é — talvez — o mais lunar de todos; sua poesia é permeada intensamente pelo clima melancólico, pelo spleen das noites de luar:

Eu amo a lua pálida, alta noite,
Quando tudo é silêncio

Alphonsus Guimaraens, Cruz e Souza, e Augusto dos Anjos também fazem parte deste time, sem esquecer Bilac, o poeta das estrelas por excelência:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

Hoje em dia muitos cientistas reconhecem a influência da lua no comportamento humano e em muitas grandes cidades americanas a polícia e o corpo de bombeiros ficam mais alertas nas noites de lua cheia, devido ao aumento da violência, de incêndios e de acidentes. A psiquiatria também já percebeu que os loucos ficam mais agitados nestas ocasiões. Mas tudo isso os poetas já sabiam:

Ela surge. E a loucura começa. E começa
A girar pelos céus, em turbilhões medonhos,
A ronda funeral dos fantasmas tristonhos,

Estes versos são de Affonso Lopes de Almeida, que em seguida conclui:

Ei-la, que aos altos céus calada ascende aos poucos,
A Lua, o astro infeliz, dos poetas e dos loucos,
Foco de estranha luz de ocultos malefícios.
A Lua, que fecunda o ventre das mulheres.
Que faz erguer do Mar as ondas rosicleres.
E uivar os cães na rua e os doidos nos hospícios…

Um após outro, os poetas de todas as escolas se superaram compondo elegias e elaborando metáforas que beiravam o absurdo e o surreal, como Guerra Junqueiro:

Deus golpeia a aurora p’ra dar sangue às rosas
Deus ordenha a lua p’ra dar leite aos lirios!…

Ou como Nuto Sant’Ana:

Amo-te, ó inspiradora errante das guitarras,
Dos chorosos violões de som dolente,
Tuberculosa que do céu escarras
Níveo catarro de uma luz albente!

A Lua, como personificação da mulher, muitas vezes desperta no poeta o ciúme pelo seu comportamento evasivo e inconstante. Mas o quê dizer quando o seu rival é… uma estrela?

Vem ó lua, contar-me as tuas dores,
Teus segredos d’amor: deixa um instante
Essa louca estrelinha rutilante,
Que desdenha cruel os teus amores.

Em pleno século dezenove estes versos de Elisiário Pinto não escandalizaram ninguém, talvez porque sua obra tenha passado despercebida…

O universo dos poetas da Lua é habitado pelas mais descabidas metáforas e pelas mais absurdas visões. Mas nada se compara à poetisa fluminense Delfina Benigna (1791-1857), cega desde a idade de 20 meses, que compos um soneto à Lua que nunca viu:

Vinte vezes a lua prateada
Inteira o rosto seu mostrado havia,
Quando um terrível mal, que então sofria,
Me tornou para sempre desgraçada,
De ver o céu e o sol sendo privada,
Cresceu a par comigo a mágua ímpia;

 * * *

As estrelas também aparecem na produção poética com frequência igual ou até maior do que a própria Lua, e não é por acaso que o célebre soneto de Bilac tornou-se, talvez, o mais conhecido e declamado da língua portuguesa:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pátio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

 Até Machado de Assis, quem diria, falou dos astros num de seus sonetos (“Círculo Vicioso”), sem abrir mão de sua habitual ironia.

O planeta Vênus, popularmente conhecido como estrela d’Alva ou Vésper, sempre gozou da estima dos poetas, que foram buscar na mitologia os atributos que a celebrizaram como estrela do amor. Poemas dedicados a ela, bem como metáforas e citações permeando os mais diversos poemas, são tão abundantes quanto composições referentes à Lua.

“A Freira”, de Junqueira Freire praticamente resume todos os atributos de Vênus:

(…) a estrela vésper
Influi nas almas lascivo ardor:
Que, não sem causa, no tempo antigo,
A estrela vésper chamou-se — Amor.
A estrela vésper produz nas virgens
Estranho incêndio, vulcão fatal:
Quer seja freira — do Cristo filha,
Quer seja antiga pagã vestal.
A estrela vésper… Fugi, meninas,
Fugi dos raios do seu candor.
A estrela vésper influi volúpia,
A estrela vésper chama-se — Amor.

A musicalidade do poema sugere lascívia, magia, sensualidade, que acometem “a pobre freira” que da sua cela contempla a estrela.

No cancioneiro popular, Vênus também inspirou um dos maiores sucessos do carnaval carioca, “As Pastorinhas” de João de Barros e Noel Rosa:

A estrela-d’alva
No céu desponta
E a Lua anda tonta
Com tamanho esplendor
E as pastorinhas
Pra consolo da Lua
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor

Já a estrela Sirius, que não foi tão cultuada, mereceu um longo poema de Bernardo Guimarães; nele o escritor demonstra conhecimento astronômico ao discorrer sobre a canicula que assolou o Rio de Janeiro em sua época. A crença popular, desde a antiguidade, atribuía a esta estrela, da constelação do Cão Maior, a causa do calor intenso:

Sirius, tu que és a estrela mais formosa
Do cristalino assento,
A jóia mais brilhante que se engasta
No azul do firmamento,
Por que tanto flagelas com teus fogos
A triste humanidade?
De um povo que em suores se derrete
Por que não tens piedade?

* * *

Os românticos e parnasianos consagraram a lua como o astro dos loucos, dos boêmios, dos poetas e dos enamorados, mas com o advento dos modernistas a postura de respeito e veneração dá lugar à irreverência. Assim, no célebre poema de Manuel Bandeira, Satélite, a lua é reduzida a “coisa em si”, embora ele não deixe de lhe declarar amor. Já Ledo Ivo, deixando de lado o tom elegíaco, se queixa à ela:

Em vão te faço poemas.
Não prestas mesmo, és sórdida.
Só gostas do que é ruim.
Eu te faço coisas loucas
mas só gostas das cantigas
dos bêbedos que te possuem.

Estrelas e cometas, também abundantes nos versos dos poetas parnasianos, passam a ser despojados de metáforas e alegorias. O próprio Bilac (autor de um soneto intitulado Os Cometas, que foi muito elogiado por Mário da Silva Brito) já havia satirizado em versos o fracasso da previsão de uma chuva de estrelas pelo astrônomo Luiz Cruls, em 1899:

Venham estrelas, estrelas,
Caiam nas ruas, nas salas,
Que Deus não possa contê-las
Que ninguém possa contá-las.

Em 1924 Juó Bananere não só parodiou o célebre poema de Bilac — Ouvir Estrelas —, com seu hilário dialeto ítalo-paulistês, como ainda comparou a lua a um queijo suiço na “gançonetta” Ao luar:

Si a lua nace
Atraiz da gaza du Mauriço,
Mais parece un quejo suisso
Pelo çeu adisparado.
Ai che vuntade di cumê illa intirigna
Bê mixida cun farigna
I misturada cun melado

Entre as incontáveis produções inspiradas pela Lua no seresteiro popular não poderíamos deixar de lembrar Catulo da Paixão Cearense com o seu Luar do Sertão, que tem atravessado o tempo e há um século encanta as multidões. Aqui, como em A Lua de Londres, a saudade junta-se ao ufanismo doméstico:

Este luar cá da cidade
Tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar lá do sertão

Outro sucesso é a marcha carnavalesca de Lamartine Babo, de 1933, Linda Morena:

Linda morena,
Morena,
Morena que me faz sonhar
A Lua cheia
Que tanto brilha
Não brilha tanto quanto o teu olhar…
Orestes Barbosa, em charge de Nássara

Orestes Barbosa, em charge de Nássara

Entre os poetas brasileiros do século vinte, nenhum outro teve o seu nome tão associado à estrelas e à Lua quanto Orestes Barbosa. Poeta admirável, de versos aclamados por Hermes da Fonseca e Agripino Grieco, ficou eternizado na memória popular como letrista de sambas e canções de enorme sucesso. Quem não conhece “Chão de Estrelas”?

A porta do barraco era sem trinco.
E a Lua, furando nosso zinco,
Salpicava de estrelas nosso chão…
E tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura dessa vida
É a cabrocha, o Luar e o Violão…

O próprio Manuel Bandeira reconheceu-o como “grande poeta da canção” e declarou que Orestes foi o autor do verso mais lindo de nossa língua: “Tu pisava os astros distraída”.

A Lua e as estrelas aparecem com frequência em suas letras e poemas, evocando imagens de rara beleza plástica como esta:

No chão vejo desenhos de luar
Que louco anda pintando uma aquarela
Com as ramagens das flores do lugar.

Ou ainda:

Os fios telegráficos da rua
São curiosas pautas musicais
Onde, em noites nostálgicas de Lua,
As estrelas são notas musicais…

Quando se pensa que tudo o que a imaginação dos poetas poderia inventar em relação à Lua e às estrelas foi esgotado e não há mais nada de novo a dizer, sempre acabamos surpreendidos com alguma pérola saída da lavra de um novo poeta. O tema é inesgotável e nada consegue desbancar a Lua de seu papel de musa inspiradora dos poetas e seresteiros.

Mesmo depois que o homem pisou nela, o fascínio pela Lua não diminuiu; apenas perdeu as conotações mitológicas do passado e o lirismo dos românticos, como neste poema de Millôr Fernandes:

São Cristóvão deposto na Terra
São Jorge deposto na Lua
Discos na Terra
Módulos na Lua.
E, súbito, os astronautas são os argonautas
De uma mitologia cibernética
Onde isótopos, relês, meteoritos,
Empuxo, propulsão, subsistem,
Com refeita eloquência
Os nomes destronados do Lépido-sereia
Minotauro, Digongos, Duríades, Salamandras,
Hipógrifos e Unicórnios,

Mas a modernidade e o progresso científico, que aceleradamente desvendam os mistérios do universo, não conseguiram apagar o fascínio exercido pela Lua no imaginário dos poetas e seresteiros. Para eles, e para os enamorados, ela continuará a ser a rainha da noite e a musa inspiradora da poesia.

Bira Câmara

Bibliografia:

Alberto de Oliveira, “Os Cem Melhores Sonetos Brasileiros”, Ed. Freitas Bastos, 1941
Alberto de Oliveira, “Páginas de Ouro da Poesia Brasileira”, Ed. Garnier, 1911
Fernandes Costa, “O Eterno Feminino”, Ed. Allaud e Bertrand, n/d
Laudelino Freire, “Sonetos Brasileiros ” (Coletânea, séculos XVII-XX), F. Briguet, 1913
Manuel Bandeira, ” Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana”, M.E.C., 1940
Manuel Bandeira, “Poesias Escolhidas”, Pongetti, 1948
Manuel Bandeira e Edgard Cavalheiro “Obras Primas da Lírica Brasileira”, Livr. Martins, 1943
Mário da Silva Brito, “História do Modernismo Brasileiro”, Civilização Brasileira, 1971
Massaud Moisés, “A Literatura Portuguesa Através dos Textos”, Cultrix, 1972
Millôr Fernandes, “Trinta Anos de Mim Mesmo”, Editorial Nórdica, 2a. Edição
Olavo Bilac, “Poesias”, Francisco Alves, 1942
Orestes Barbosa, “Chão de Estrelas”, Poesias Escolhidas, J. Ozon Editor, 1965
Péricles Eugênio da Silva Ramos, “Poesia Romântica” – Antologia, Melhoramentos, 1965
Péricles Eugênio da Silva Ramos, “Poesia Simbolista” – Antologia, Melhoramentos, 1965
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, “O Livro de Ouro do Universo”, Ediouro, 2002
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, “O rastro do Cometa”, Editora JB, 1985
Ruth Guimarães, “Dicionário da Mitologia Grega, Cultrix, 1995
Silveira Bueno, “História da Literatura Luso-Brasileira”, Saraiva, 1968
Tassilo Orpheu Spalding, “Dicionário da Mitologia Latina”, Cultrix, 1982

Mais pílulas…

Em 1925 a revista americana “Collier” revelou que uma astróloga chamada Márcia foi chamada várias vezes à Casa Branca, durante a administração do presidente Warren G. Harding, para dar conselhos astrológicos. Ela contou que tudo começou em 1920, quando quatro mulheres desconhecidas foram ao seu consultório e forneceram-lhe as datas de nascimento. Mas a astróloga desconfiou que uma das mulheres havia dado data falsa ou, senão, deveria tornar-se a próxima presidente dos Estados Unidos! Então, a sra. Harding (uma das consultantes) revelou que dera a data de nascimento de seu marido em vez do seu. Depois disso, a astróloga tornou-se conselheira do casal Harding e frequentou assiduamente a Casa Branca, predizendo vários eventos importantes, inclusive a morte  do presidente.

 

John Flamsteed (1646 /1719), o primeiro astrônomo real da Inglaterra, cumpriu o primeiro ato oficial de seu reinado fazendo o horóscopo do Observatório de Greenwich. O cálculo foi guardado e existe até hoje, embora ele tenha anotado o sarcástico comentário: Risum teneatis, amici? (Conseguem conter o riso, amigos?). Em outra ocasião, acabou passando por um expert na arte de adivinhação, quando foi procurado no Observatório por uma velhinha que foi pedir-lhe ajuda para recuperar a posse de alguns bens. Desejando dar-lhe uma lição e fazê-la perder a fé em adivinhos, ouviu gravemente os detalhes do caso e, depois de rabiscar um mapa da casa e de seus arredores, cercando-o com vários símbolos arbitrários, mandou-a procurar num ponto determinado, que ele assinalara aleatoriamente. Pretendia dar uma lição à velhinha quando ela lhe escrevesse para queixar-se de ter procurado em vão. Mas pouco depois, para sua surpresa, a senhora escreveu-lhe para dizer que encontrara os seus pertences no ponto exato em que ele assinalou! Com toda a seriedade, Flamsteed atribuiu a coincidência às artes e malícia do Demônio…

 

Na antiga China acreditava-se que o eclipse era provocado por um dragão que devorava o Sol. Segundo a lenda, há quatro mil anos existiam dois astrólogos imperiais, Hi e Ho, cujos deveres eram bater tambores para afastar o dragão. Mas durante um eclipse em que estavam embriagados descuidaram de suas obrigações, o dragão veio e então o sol foi devorado. O dragão, porém, generosamente vomitou a sua presa, mas o Imperador não foi tão generoso e ordenou que os infelizes Hi e Ho fossem degolados…

 

Durante a primeira viagem de circunavegação do mundo, quando Fernão de Magalhães já se encontrava na metade do tortuoso estreito que leva seu nome, esperou seis dias por um dos seus barcos, o San Antonio, que ficara para trás. Como não aparecia sinal algum do navio, Magalhães ordenou ao seu astrólogo Andreas de San Martín (que no seu barco tinha um status análogo ao de um oficial superior do almirantado moderno) que fizesse o horóscopo do San Antonio, e assim descobrisse o que lhe acontecera. Andreas fez os cálculos necessários e o informou que a tripulação daquele barco se amotinara, aprisionara o capitão e desviara o rumo para a Europa. E foi isso, exatamente, o que havia acontecido…

 

A astrologia era largamente usada pelos nativos do México, antes da chegada dos espanhóis. Os astecas acreditavam que qualquer evento era influenciado pelos hieróglifos que presidiam cada dia, cada semana ou cada ano. A aparição de um cometa no início do século dezesseis levou consternação aos mexicanos; o povo viu-o como sinistro presságio e anúncio de uma grande desgraça. Os inimigos de Montezuma, que então reinava, diziam que era um sinal precursor do fim do império e da tirania. Para acalmar esses temores e provavelmente para acalmar também os seus, ordenou a seu astrólogo explicar essa aparição. O adivinho, que não sabia mais do que as pessoas comuns sobre cometas, deu a mesma opinião que o povo tinha a respeito. Esta infeliz interpretação custou-lhe a vida. Foi condenado à morte por ordem do rei, para aprender a explicar mais politicamente a passagem dos cometas…

 

 Béarnais, Henrique IV de França, apesar de zombar das predições astrológicas, faz parte da lista de adeptos da ciência astrológica. No momento do nascimento do Delfim, encarregou o doutor Koch le Bailli, senhor de la Rivière, de fazer o seu horóscopo. E essa operação foi mais tarde recompensada com o título de primeiro médico do rei. O cirurgião que fez o parto, doutor Hérouard, não se esqueceu de mencionar no seu diário que o pequeno príncipe nasceu em 27 de agosto de 1601, na décima-quarta hora da lua nova, às 10:45 hs. Ele relatou, também, que durante a gravidez, a rainha “frequentemente perguntava onde estava a lua, temendo dar à luz uma filha, pois segundo a crença popular as mulheres nascem durante a lua minguante e os homens na lua nova.” Felizmente tudo ocorreu como o esperado e a França, bem como a mãe, puderam rejubilar-se. O capelão do rei e historiador oficial Vittorio Siri, registrou que o recém-nascido recebeu desde tenra infância o sobrenome de justo porque nasceu sob o signo de Balança.

Fontes:

Brewton Berry, Você e Suas Superstições, Ed. Universitária, 1945

Rambosson, J., Histoire des astres, 1877

Rupert T. Gould, Mistérios em la Tierra, Ed. ATE, 1980

A morte de Ivan, o Terrível

 Ivan o Terrível (1530-1584), que livrou a Rússia dos selvagens conquistadores tártaros, fez jus a seu nome por conta do exagero de crueldade que usava nas suas matanças. Segundo palavras de Alexandre Dumas,”durante quatorze anos alcançou os primeiros graus do sublime; durante trinta, os últimos limites do horrível. Perto dele, Calígula é uma pomba; Nero, um carneiro”.

Ivan Vassiliévitch Grozny, grão-duque de Moscou desde os três anos de idade, foi o primeiro governante a utilizar o título de czar (césar, ou imperador) de todas as Rússias. No ano de sua morte, um cometa foi visto na Rússia, o que o levou a consultar astrólogos para confirmar o prenúncio de sua morte.

 Um pouco antes de sua morte mandou decapitar um príncipe e seu filho; outro nobre, acusado de conspirar para destroná-lo, obrigou-o a sentar-se em seu trono e o matou a punhaladas; já outro príncipe foi assado vivo num fogareiro; seu tesoureiro, junto com seus quatro filhos, foi cortado em pedaços; quanto ao príncipe Vorotinsky, não se safisfez somente em queimar vivo, mas atiçou pessoalmente o braseiro; um de seus condenados, que tentou fugir disfarçado de monge, foi obrigado a sentar-se num barril de pólvora e mandado aos ares, com a seguinte sentença de Ivan: “Os cenobitas são os anjos que devem ser enviados ao céu.” Espirrou sopa fervente no seu bufão e, como este não riu da brincadeira, matou-o com um golpe de cutelo; um de seus cortesãos teve uma orelha cortada e agradeceu a Ivan lhe deixar a outra…

 Um cometa apareceu na Rússia em 1584 e Ivan, vendo nele o prenúncio de sua morte, convocou magos e astrólogos, entregou-lhes uma casa em Moscou e mandou seu favorito, Belsky, confabular com eles diariamente. Depois, como os astrólogos prognosticaram o seu fim, subiu ao terraço de uma igreja e fez a confissão pública de suas culpas, pedindo humildemente orações aos pobres e indicando o seu filho como sucessor ao trono. No dia assinalado como o de sua morte pelos astrólogos, anunciou que seriam estes que morreriam e não ele. Em seguida resolveu jogar uma partida de xadrez com Belsky, mas ao tocar o primeiro peão soltou um grito, levantou-se, caiu para trás em seu leito e morreu.

Fonte: Alexandre Dumas, En Russie: impressions de voyage (Le Caucase: impressions de voyage), 1907

Dieta astral

O famoso astrólogo Rudolf Thurneisen, que viveu em Berlin no século dezessete, foi uma figura verdadeiramente rara e um fenômeno extraordinário em matéria de astrologia horária. Destacou-se também como médico do príncipe de Brandenburgo, químico, redator de almanaques, impressor e livreiro.

Sua reputação de astrólogo era tão grande que não nascia quase nenhuma criança numa família importante da Alemanha, da Polônia, da Hungria, da Dinamarca e até mesmo da Inglaterra, sem que lhe mandassem imediatamente um correio com o horário preciso de seu nascimento. Com frequência chegavam três e até seis ou doze mensagens desse gênero ao mesmo tempo. Por causa disso, acabou tão sobrecarregado de trabalho que foi obrigado a contratar assistentes.

A biblioteca de Berlin guarda volumes inteiros de consultas desse gênero, no meio dos quais se encontra até cartas da rainha Elizabeth. Além disso, ele tinha tempo para escrever anualmente um almanaque astrológico, no qual assinalava, em poucas palavras ou com alguns sinais arbitrários, não apenas a qualidade do ano em geral, mas também os principais eventos e a temperatura de cada dia. Mas, é claro, só explicava suas predições um ano depois de publicadas… Entretanto, por uma boa soma de dinheiro e adulações, confidenciava por antecipação suas profecias.

Não deixa de ser surpreendente a eficácia de um oráculo feito em termos vagos e ao qual muitas vezes o acaso dava um cumprimento feliz. De qualquer forma, durante mais de vinte anos seu almanaque teve um sucesso prodigioso e, junto com outras charlatanices, proporcionou-lhe uma fortuna incalculável para os padrões da época.

Thurneisen enganava as pessoas crédulas receitando uma espécie de “dieta astral” para prolongar a vida, baseado no princípio de que cada homem está submetido à influência de determinada constelação e que cada uma delas, bem como um planeta, tinha correlação com as plantas, os metais, os animais, os povos, edifícios, países, etc. Assim, era necessário saber de que astro ou constelação poderia vir uma enfermidade ou desgraça e, para conservar-se feliz e saudável, bastava consumir bebidas e alimentos colocados sob a influência dos planetas opostos. Evidentemente, há uma contradição nesse princípio, pois se os astros determinam até a duração da vida, como pode ser possível prolongá-la? Os clientes de Thurneisen pareciam não dar muita importância a isso…

 Talismãs astrológicos

A crença na correspondência e simpatia perfeita entre os planetas e os metais é antiga. Mas essa idéia retomada por Thurneisen deu origem a uma doutrina inteiramente nova, muito diferente da dos gregos. Se alguém estivesse sob uma constelação adversa que o ameaçasse com uma grave doença ou qualquer outro acidente, bastava deslocar-se a um lugar protegido por um astro tutelar, ou então consumir alimentos e medicamentos que, com o apoio de uma constelação propícia, fossem capazes de neutralizar a influência do astro maléfico. Dessa forma acreditava-se prolongar a vida por meio de talismãs e amuletos.

Com os metais em perfeita relação com os planetas, bastava levar consigo um talismã fabricado com metal adequado, fundido, colado ou gravado sob certas condições para adquirir a virtude abrangente e proteção do planeta correspondente. Assim, havia talismãs não apenas para curar enfermidades produzidas pela influência planetária, mas também para proteger-se de todos os malefícios astrais. Da mesma forma, alguns talismãs eram produzidos com a mistura de diversos metais, fundidos por meios especiais que lhes davam a milagrosa propriedade de destruir toda a influência da aziaga constelação que presidira o nascimento de alguém, e de proporcionar êxito seguro em qualquer empresa e no matrimônio.

Se o amuleto levava o selo de Marte no signo de Escorpião e se fosse fundido sob aquele planeta, quem o carregasse seria vencedor e invulnerável na guerra. Os soldados alemães estavam tão imbuídos desta idéia que, segundo um historiador de uma derrota que experimentaram na França, amuletos desse tipo foram achados no pescoço de todos os mortos e prisioneiros.

Mas as divindades planetárias representadas nestes talismãs não podiam ter uma forma antiga; precisavam trazer uma figura com traje estrambótico e místico. Uma das peças encontradas, destinada a preservar das enfermidades produzidas pela influência de Júpiter, leva a sua efígie, mas “atualizada” numa figura semelhante a um catedrático da universidade de Basiléia: o queixo escondido por uma espessa barba, vestido com trajes da época, um livro aberto na mão esquerda e a fazer gestos declamatórios com a direita.

Esse tipo de extravagância do século dezessete seria renovada pelo célebre Cagliostro nos últimos anos do século dezoito, seduzindo muita gente.

 Fontes:

Christtoph Wilhelm Huffeland, La macrobiótica ó El arte de prolongar la vida del hombre

Rambosson, J., Histoire des astres, 1877

 

PÍLULAS – III

Um astrólogo de Turim levantou o horóscopo da duquesa de Borgonha e previu que ela morreria aos vinte e sete anos de idade. Ela falava nisso constantemente e um dia disse ao seu marido: “Está se aproximando a data em que devo morrer; você não pode ficar sem esposa por causa de sua posição e de sua devoção conjugal; então eu lhe pergunto, com quem você se casará?” Ele respondeu: “Espero que Deus nunca me castigue tão cruelmente, fazendo-me assistir a sua morte; mas se essa desgraça é inevitável, eu não me casarei jamais, pois, oito dias depois, eu a seguirei no túmulo”. E, com efeito, sete dias depois da morte da condessa, ele também morreu.
* * *
Charles II, rei da Inglaterra, se fechava durante horas com o duque de Buckingham no afã de produzir ouro através da alquimia ou para tentar adivinhar o futuro pela leitura dos astros. Recomendaram-lhe o abade Pregnani, um químico competente e astrólogo reputado, que gozava de grande prestígio em Paris, particularmente junto às damas. Mas o abade teve uma desastrosa performance nas corridas de cavalo de New-Market, aonde o rei o havia levado: teve o cuidado de fazer o horóscopo dos cavalos que disputariam o prêmio, e perdeu muito dinheiro apostando sob a fé de suas próprias predições…
* * *
A condessa Potocka contou muito sériamente nas suas Memórias a profecia de um astrólogo em Poniatowski, na Cracóvia, no momento em que nascia o seu filho Stanislas: “Eu te saúdo, rei dos poloneses, eu te saúdo desde hoje, ainda que ignore a ascensão a que você está predestinado, e as desgraças que se seguirão a ela.” – disse o astrólogo. – Com efeito, Stanislas se tornou rei e a Polônia foi desmembrada durante o seu reinado.
* * *
Um astrólogo chamado Barbé leu nos céus o destino quase real de Françoise d’Aubigné, quando era ainda casada com o escritor humorista Paul Scarron, vinte cinco anos mais velho que ela. Depois de enviuvar, tornou-se amante de Luis XIV, que a desposou secretamente em 1683…

Previsão ao contrário

Um astrólogo do século XIX, redator de almanaques, em viagem pela Suiça, resolveu fazer um passeio pela montanha de manhã. O céu estava limpo e sem nuvens, e nosso turista estava prestes a sair quando o seu estalajadeiro o aconselhou a desistir do passeio.

– Acabo de consultar meu almanaque – disse-lhe o homem –, e tenho certeza que não vai demorar para chover.

Nosso viajante, conhecendo melhor que ninguém os absurdos das profecias contidas nos almanaques, não levou em conta a advertência. Saiu e, duas horas depois, caiu uma violenta tempestade que o obrigou a voltar à estalagem com as roupas ensopadas de água.

– Você tinha razão – disse ao estalajadeiro, logo ao entrar no hotel –; mas que almanaque maravilhoso é esse que você consulta?

– É o do astrólogo X. (que era o nome de nosso viajante); ele nunca me engana, pois este X. é tão mentiroso que seguindo as suas previsões ao contrário quase sempre eu acerto. O almanaque anunciava um tempo magnífico para hoje; não tinha razão em aconselhá-lo a não sair?

Albert Lévy, Curiosités Scientifiques, Paris / 1898, pág. 101 

Dante e a astrologia

DANTE webDante Alighieri (1265-1321), também foi adepto da astrologia, que em sua época era ensinada na Universidade de Bolonha (desde 1125), onde ele estudou. Brunetto Latini, que havia sido o seu professor de eloqüência e retórica, fez o horóscopo de Dante. Em sua obra há inúmeras referências astrológicas, o que mostra seu profundo conhecimento do assunto. Assim, numa passagem de “A Divina Comédia”, ele reverencia a constelação de Gêmeos, signo sob o qual nasceu:

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“A bela estrela, do amor auspiciosa Sorrir alegre faz todo o Oriente, Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.” Purg., c. 1, v. 19-21

“Ö gloriosíssima estrela, ó lume cheio de virtude magna, devo-te o meu engenho e tudo o mais que seja de estimável, pois em teu signo se encontrava o sol quando respirei pela primeira vez”. (Paraíso, XXII, 112-117)

E no Purgatório, canto XVI:

“Embora livres, estais submetidos a uma força superior e a uma natureza mais elevada, e esta outra potência cria em vós o espírito que os céus não podem dominar.”

Em outra passagem, desta vez no Inferno, Virgílio conduz o poeta diante dos adivinhos, cuja cabeça foi torcida de modo a obrigá-los a nunca mais poderem olhar senão para trás. Este é o castigo por tentarem olhar para o futuro com tanta insolência, privilégio exclusivo de Deus… Nesta seção do Inferno vemos desfilar, entre outros, os mitológicos adivinhos Calcas e Tirésias, e os astrólogos Guido Bonatti e Michael Scott, ridicularizados por terem misturado necromancia com ciência.

O primeiro é acusado de “perícia em fraudes de magia” e o segundo arrepende-se de ter desprezado a ciência pela “horrível arte de encantos infernais”. A condenação refere-se, pois, à prática de magia negra e não ao exercício da astrologia. Já ao patrão de Scott, o rei Frederico II — tido dante textcomo herege —, Dante reserva-lhe um lugar no compartimento dos heresiarcas, no Inferno. Nos últimos livros da Divina Comédia, a astrologia é colocada em posição de dignidade. Ainda, no Purgatório, temos a seguinte passagem:

“O céu inicia os nossos movimentos, não todos na verdade, mas daí não se conclua que, tudo o que fizeres, seja por determinismo, visto que o discernimento do bem e do mal é um lume que te foi dado para modificar aquelas tendências, graças ao teu livre-arbítrio; de modo que, se houveres recebido más influências ao nascer, mais tarde poderás modificá-las se tiveres vontade firme para combatê-las .”(XVI, 73-79)

Fontes:

Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, trad. J. P. Xavier Pinheiro, Cia. Brasil Ed., 1955

Edmundo Cardillo, “Aspectos Novos de Velhos Temas”, S. Paulo, 1950

Tibério, astrólogo

TiberiusO imperador romano Tibério não só consultava astrólogos, como também sabia fazer e interpretar horóscopos com grande perspicácia. Teve a seu serviço Trasilo, célebre astrólogo da época. Sua mãe, como era hábito entre os antigos romanos, consultou o adivinho Escribonius, antes mesmo dele nascer, e ouviu a profecia do futuro brilhante que estava reservado ao seu filho.

Segundo Tácito e Suetônio, Trasilo teria instruído Tibério na astrologia, na época em que viveu em Rhodes. Talvez por isso este imperador tenha condenado à morte grande número de pessoas acusadas de ter tirado seu horóscopo, com receio de que tornassem públicas as honras que lhe estavam reservadas. Suetônio conta que o imperador fazia em segredo, ele mesmo, o horóscopo das pessoas mais importantes, para saber se não havia nenhum rival entre elas. Continuar lendo

Michael Scot, um astrólogo lendário

Michael Scot, astrólogo, monge, médico, mate­mático, astrônomo, pintor e alquimista nascido no fim do século XII, é uma das figuras mais fascinantes da história da astrologia. Chamado de “o Mago do Norte”, muitos historiadores o consideram o primeiro cientista da Escócia. Scot foi tão famoso que se tornou uma lenda, como outro monge, Roger Bacon, um homem de ciência como ele; sua biografia como a de Bacon, perdeu-se nas brumas do mito e da lenda após sua morte. Em 1385, Bacon disse ser capaz de materializar uma ponte acima do ar para atravessar um rio. No século anterior, Scot afirmou ter dividido os Montes Eildon, na Escócia!

Não só pela aura de mistério que cerca sua biografia, mas também pelos feitos que lhe são atribuídos, sua fama de mago-astrólogo impregnou o imaginário popular ao longo do tempo e tem inspirado até hoje personagens de ficção (1). O mistério começa já na sua origem: não se sabe se era escocês, irlandês ou francês e não se possui nenhum dado a respeito da data de seu nascimento. Em 1236, a obra de um poeta ligado à corte do Imperador Frederico II, na Sicilia, menciona sua morte. É tudo que se sabe dele. Continuar lendo

Predições Antológicas

200px-CaracallaAtribui-se ao imperador romano Caracala (imperador de 211 a 217), o assassinato de possíveis sucessores ao trono do império, baseado em “diagramas de posições siderais”. Apesar de matar muita gente cujos horóscopos prometiam elevação, Caracala não percebeu nada que o ameaçasse em Gordiano, o velho. Autor de um longo poema épico em sua homenagem chamado Antoninias, tornou-se imperador, embora por um breve espaço de tempo (três semanas).

Caracala parece ter tido a mesma convicção total na astrologia que o seu pai Sétimo Severo. Muitos astrólogos foram chamados para o aconselhar, e vários deles – o egípcio Serápio, Asclétion, e Larginus Proculus – o preveniram que ele não viveria muito tempo e que o seu sucessor seria Macrinus, um prefeito. Asclétion foi executado, Larginus Proculus foi condenado à execução imediatamente depois da data que tinha predito para a morte de Caracala, e Serápio foi lançado a um leão (que apenas lambeu-lhe a mão e, assim, uma execução mais prosaica teve de ser providenciada).

gordiano 1Conta-se que Gordiano, o velho, que havia sido governador da Grã-Bretanha romana em 216 e cônsul durante o reinado de Heliogábalo, um dia consultou um astrólogo sobre o destino de seu filho e ouviu em resposta que ele seria filho, pai de imperador e imperador também. E, como Gordiano risse, o astrólogo lhe mostrou a configuração dos astros, citando passagens de velhos livros, para provar que tinha dito a verdade. Predisse também ao velho e ao jovem, o dia e o gênero de suas mortes, os lugares onde morreriam, com firme convicção da verdade. Gordiano I, o velho, e Gordiano II – pai e filho -, tornaram-se imperadores, mas permaneceram no poder por um tempo ínfimo. Sendo o primeiro descendente de Trajano, foi nomeado imperador pelos africanos durante uma sublevação contra o imperador (Máximo Trácio) e governou apenas três semanas; em 238 foi derrotado em Cartago pelo procurador da Numídia. Neste mesmo ano, o filho morreu na defesa de Cartago. Sucedeu-os, Gordiano III, o piedoso, imperador de 238 a 244.

Alexandre Severo, último dos imperadores romanos da dinastia 250px-Alexander_Severus_Musei_Capitolini_MC471dos Severos, que reinou entre 222 e 235, era astrólogo, mas não fazia alarde desta habilidade. Todavia, encorajou os astrólogos profissionais a se organizarem em um corpo para transmitir o seu conhecimento de uma maneira disciplinada, anunciando-se de fato como professores. Fundou cátedras para astrólogos mantidas pelo Estado, com bolsas para os estudantes. Seu interesse pelas estrelas era tão grande que foi comparado ao astrólogo da fábula que, com os olhos no céu, cai desastradamente num poço. O astrólogo Trasíbulo, seu amigo íntimo, disse-lhe que ele morreria pela espada dos bárbaros. O imperador ficou lisonjeado de início, porque desejava uma morte guerreira e digna de um imperador. Depois, pôs-se a dissertar, para demonstrar que todos os grandes homens tinham perecido de morte violenta, citando Alexandre o grande, Pompeu, César, Demóstenes e outros personagens insignes que não tinham morrido pacificamente. Exaltou-se a ponto de julgar-se comparável aos deuses se morresse na guerra. Mas a predição cumpriu-se apenas em parte, pois morreu sob a espada de um soldado romano durante um motim… Era bem intencionado, tratou bem os cristãos, mas não tinha apoio político e militar.

Joan Quigley, a astróloga de Reagan

reaganEm maio de 1988, a imprensa americana sur­preen­deu o mundo ao revelar que o gover­nante da nação mais poderosa do planeta di­rigia todas as suas ações baseando-se nos conselhos de uma astróloga. O autor da revelação que es­candalizou os comen­taristas políticos foi o ex-chefe de pessoal da Casa Branca, Donald Regan. Seu an­te­cessor no cargo, Michael Deaver submetia-se às inter­venções de Nancy Reagan, colaborando nas modi­ficações contantes dos horários do presidente sugeridas pela sua astróloga particular Joan Quigley. O assessor não concor­dava com isso e “considerava extrema­mente humilhan­te para a presidência recorrer a algo tão tolo como a astrologia”. A revelação provocou um frenesi na mídia, que pintou a Casa Branca como um verdadeiro hos­pício e ridicularizou o casal Reagan. Nancy ficou enfurecida com a traição do seu segredo por Donald, mas ele se defendeu dizendo que não teve outra escolha senão revelar a verdade. “Minha descrição da vida da Casa Branca durante meu período como chefe de pessoal teria feito pouco sentido se eu omitisse isto”, escreveu Regan, num comentário sobre as memórias de Nancy.

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