26
ago

Dieta astral

   Publicado por: Bira Câmara  em Astrólogos, Magia

O famoso astrólogo Rudolf Thurneisen, que viveu em Berlin no século dezessete, foi uma figura verdadeiramente rara e um fenômeno extraordinário em matéria de astrologia horária. Destacou-se também como médico do príncipe de Brandenburgo, químico, redator de almanaques, impressor e livreiro.

Sua reputação de astrólogo era tão grande que não nascia quase nenhuma criança numa família importante da Alemanha, da Polônia, da Hungria, da Dinamarca e até mesmo da Inglaterra, sem que lhe mandassem imediatamente um correio com o horário preciso de seu nascimento. Com frequência chegavam três e até seis ou doze mensagens desse gênero ao mesmo tempo. Por causa disso, acabou tão sobrecarregado de trabalho que foi obrigado a contratar assistentes.

A biblioteca de Berlin guarda volumes inteiros de consultas desse gênero, no meio dos quais se encontra até cartas da rainha Elizabeth. Além disso, ele tinha tempo para escrever anualmente um almanaque astrológico, no qual assinalava, em poucas palavras ou com alguns sinais arbitrários, não apenas a qualidade do ano em geral, mas também os principais eventos e a temperatura de cada dia. Mas, é claro, só explicava suas predições um ano depois de publicadas… Entretanto, por uma boa soma de dinheiro e adulações, confidenciava por antecipação suas profecias.

Não deixa de ser surpreendente a eficácia de um oráculo feito em termos vagos e ao qual muitas vezes o acaso dava um cumprimento feliz. De qualquer forma, durante mais de vinte anos seu almanaque teve um sucesso prodigioso e, junto com outras charlatanices, proporcionou-lhe uma fortuna incalculável para os padrões da época.

Thurneisen enganava as pessoas crédulas receitando uma espécie de “dieta astral” para prolongar a vida, baseado no princípio de que cada homem está submetido à influência de determinada constelação e que cada uma delas, bem como um planeta, tinha correlação com as plantas, os metais, os animais, os povos, edifícios, países, etc. Assim, era necessário saber de que astro ou constelação poderia vir uma enfermidade ou desgraça e, para conservar-se feliz e saudável, bastava consumir bebidas e alimentos colocados sob a influência dos planetas opostos. Evidentemente, há uma contradição nesse princípio, pois se os astros determinam até a duração da vida, como pode ser possível prolongá-la? Os clientes de Thurneisen pareciam não dar muita importância a isso…

 Talismãs astrológicos

A crença na correspondência e simpatia perfeita entre os planetas e os metais é antiga. Mas essa idéia retomada por Thurneisen deu origem a uma doutrina inteiramente nova, muito diferente da dos gregos. Se alguém estivesse sob uma constelação adversa que o ameaçasse com uma grave doença ou qualquer outro acidente, bastava deslocar-se a um lugar protegido por um astro tutelar, ou então consumir alimentos e medicamentos que, com o apoio de uma constelação propícia, fossem capazes de neutralizar a influência do astro maléfico. Dessa forma acreditava-se prolongar a vida por meio de talismãs e amuletos.

Com os metais em perfeita relação com os planetas, bastava levar consigo um talismã fabricado com metal adequado, fundido, colado ou gravado sob certas condições para adquirir a virtude abrangente e proteção do planeta correspondente. Assim, havia talismãs não apenas para curar enfermidades produzidas pela influência planetária, mas também para proteger-se de todos os malefícios astrais. Da mesma forma, alguns talismãs eram produzidos com a mistura de diversos metais, fundidos por meios especiais que lhes davam a milagrosa propriedade de destruir toda a influência da aziaga constelação que presidira o nascimento de alguém, e de proporcionar êxito seguro em qualquer empresa e no matrimônio.

Se o amuleto levava o selo de Marte no signo de Escorpião e se fosse fundido sob aquele planeta, quem o carregasse seria vencedor e invulnerável na guerra. Os soldados alemães estavam tão imbuídos desta idéia que, segundo um historiador de uma derrota que experimentaram na França, amuletos desse tipo foram achados no pescoço de todos os mortos e prisioneiros.

Mas as divindades planetárias representadas nestes talismãs não podiam ter uma forma antiga; precisavam trazer uma figura com traje estrambótico e místico. Uma das peças encontradas, destinada a preservar das enfermidades produzidas pela influência de Júpiter, leva a sua efígie, mas “atualizada” numa figura semelhante a um catedrático da universidade de Basiléia: o queixo escondido por uma espessa barba, vestido com trajes da época, um livro aberto na mão esquerda e a fazer gestos declamatórios com a direita.

Esse tipo de extravagância do século dezessete seria renovada pelo célebre Cagliostro nos últimos anos do século dezoito, seduzindo muita gente.

 Fontes:

Christtoph Wilhelm Huffeland, La macrobiótica ó El arte de prolongar la vida del hombre

Rambosson, J., Histoire des astres, 1877

 

23
mai

O Mundo vai acabar!

   Publicado por: Bira Câmara  em Atualidade, Previsões

O fantasma do fim do mundo assombra a humanidade desde tempos imemoriais, paranóia estimulada por profetas, videntes e astrólogos dos quatro cantos do planeta. A história registra com abundância profecias sobre o fim do mundo e o efeito muitas vezes trágico provocado por elas. E mesmo com o fiasco de todas estas profecias, as pessoas continuam a levá-las à sério e a dar crédito aos loucos que se intitulam profetas.
Uma coisa é certa: o mundo vai acabar um dia; pode ser amanhã, na semana que vem, daqui a um ano, uma década, um século ou milênios…
A crença de que o mundo iria acabar no ano 2000, gerada pela interpretação errônea do texto do Apocalipse e pelas profecias estapafúrdias de Nostradamus, tirou o sono de muita gente no século passado. Depois do fracasso delas, seria lógico supor que as pessoas deixassem de acreditar, definitivamente, em profetas e videntes de qualquer tipo. Mas ao invés disso, a crença retorna agora revigorada por supostas profecias baseadas em um dos calendários maias.

Profecias Maias

O estudioso guatemalteca Enrique Alvarado, que reside na Áustria, desmente toda esta enxurrada sensacionalista sobre o fim do mundo. Desde 1992, quando se tornou sacerdote maia (Ajquij), Alvarado estuda os calendários maias, em especial o Calendário Ritual ou Tzolkin. Segundo ele, não há um calendário maia, mas vários que formam um sistema, pois estão interligados; além disso, nenhum destes calendários termina em 2012 ou outra data. Por definição, um calendário é um instrumento para medir o tempo e não uma contagem regressiva; portanto, não tem um final, a menos que se considere como tal o momento no qual se deixa de usá-lo, o que não aconteceu aos que foram elaborados pelos povos maias, pois ainda são usados diariamente na América Central.
É evidente que a maioria dos livros, artigos e sites que exploram este tema tenta fazer conexões com profecias conhecidas e assuntos sem nenhuma relação com o calendário maia.
Para tentar justificar o injustificável, os esotéricos rechearam essas profecias  com argumentos retirados de assuntos completamente estranhos a elas. Vale tudo para vender o peixe: astrologia de almanaque, hexagramas chineses, runas nórdicas, conceitos tirados de filmes de ficção científica (portal dimensional, quarta dimensão, alienígenas), bobagens inventadas pelo pessoal new age (canalizações, mensagens de mestres ascensionados), Nostradamus, Bíblia, física quântica interpretada por gente que mal sabe soletrar o próprio nome… São tantas bobagens que acho estranho não citarem a previsão feita num dos episódios da série Arquivo X, onde 22 de dezembro de 2012 é o dia da invasão dos extraterrestres!
Na verdade não há nenhuma profecia “detalhada” na cultura maia sobre o que acontecerá em 2012. Os poucos textos desta civilização que foram traduzidos são criptográficos e imprecisos. Afirma-se que os seus calendários terminam em 2012, mas embora sua mitologia fale em mudanças de eras (como quase todos os povos da antiguidade), não há nada que permita deduzir-se que tenham profetizado o fim do mundo nesta data. Para dar respaldo a essa fantasia, os autores que escreveram livros a respeito misturaram outras profecias (que fracassaram), como as de Nostradamus, de Edgard Cayce, de Jeanne Dixon e do Apocalipse entre outras. A maioria de seus argumentos nada têm a ver com o calendário maia, mas impressionam os incautos que não percebem a inconsistência deles. Da mesma forma, os argumentos pseudo-científicos que utilizam são arbitrários e tentam fazer conexões que não resistem a uma análise mais acurada.
É evidente que o mundo está sofrendo transformações climáticas que tendem a aumentar, com consequências catastróficas no futuro. Estamos colhendo o resultado de décadas de depredação do meio ambiente, desmatamento, poluição, efeito estufa, explosão demográfica, etc. Que estamos caminhando para o caos, que mudanças radicais e catastróficas podem acontecer é uma previsão fácil de acertar, de tão óbvia; mas apontar datas para futuros desastres é um mero jogo de adivinhação que serve apenas para vender livros e semear inquietação nas mentes mais sugestionáveis.

Balaio de gatos

Profecias catastróficas sempre fizeram parte do repertório de videntes, astrólogos e profetas; mas que eu saiba, nenhum deles previu as duas maiores conflagrações mundias ocorridas no século vinte: a primeira e a segunda guerra.
Terremotos, inundações, cataclismas que destruíram civilizações no passado estão no inconsciente coletivo da humanidade. Na própria Bíblia, na mitologia grega e sumeriana estes eventos são sempre registrados como supostos castigos divinos.
Os esotéricos tentam dourar a pílula, dizendo que segundo o calendário maia haverá em 2012 um alinhamento do Sol em relação ao centro da Via Láctea, que provocará a emissão de uma energia radiante, que alcançará a a Terra através do Sol, iniciando um “ciclo de evolução para a humanidade”.
Tudo isso é uma bela peça de ficção; mas teriam os maias uma astronomia tão sofisticada a ponto de saber o que é galáxia, energia radiante ou buraco negro? O próprio conceito de “evolução” é coisa moderna, que surgiu na cultura ocidental a partir de Darwin; portanto, o que os maias têm a ver com isso?
De fato, eles elaboraram um calendário muito preciso, mas isso não significa necessariamente que tivessem meios de prever o que acontecerá no futuro. Diga-se de passagem que os maias mostraram mais discernimento em relação aos conquistadores espanhóis do que os astecas; enquanto estes acolheram seus futuros algozes como deuses, os maias os rechaçaram de início e não entregaram o ouro sem uma feroz resistência…
Talvez já tivessem sido prevenidos sobre a cordialidade espanhola; da centena de homens do início da expedição comandada por Francisco Hernandez de Córdoba, no primeiro contato com os maias cinqüenta foram mortos e os que não tiveram suas gargantas cortadas com espadas de madeira encravadas de sílex foram capturados para servirem a futuros sacrifícios. Apesar da sua civilização notável, da sua arquitetura, da astronomia sofisticada, da escrita, esse povo tinha costumes cruéis, como sacrifícios humanos, que horrorizaram os próprios espanhóis. Por isso, não deixa de ser risível que os esotéricos atribuam a noção de “evolução cíclica da humanidade” a um povo que acreditava em deuses cruéis e impiedosos, e praticava sacrifícios rituais até de crianças… Suas crenças só poderiam inspirar visões futuras de destruição e morte.
Aliás, a religião quase sempre é um reflexo da cultura e da realidade de um povo; o Apocalipse bíblico foi escrito por um profeta sedento de sangue, mergulhado no ressentimento, alimentado pelo ódio à vida, ao mundo e aos romanos. No fundo, suas visões eram a expressão do seu desejo de aniquilação coletiva imediata. 
Os adeptos destas supostas profecias tentam colocá-las em concordância com outras teorias relativas ao Fim dos Tempos e com a crença de que a humanidade deve passar por um processo de regeneração coletiva, de separação do joio do trigo.
No fundo, é a mesma idéia compartilhada pelos espíritas adeptos da teoria dos exilados do planeta Capela, dos crentes da passagem do “planeta X” ou Hercólobus e, também, dos teosofistas que acreditam nos mitos das civilizações arcaicas da Lemúria e Atlântida. Mas nas supostas profecias maias não há referência a este planeta intruso e, portanto, essa conexão fica por conta da imaginação dos seus intérpretes.
Os cientistas também previram uma intensa atividade solar entre 2011 e 2012, embora neguem que isso possa acarretar catástrofes. Tempestades solares intensas acontecem periodicamente e há quem acredite que a atividade solar em 2012 possa provocar uma mudança significativa na inclinação do eixo da Terra e produzir, em conseqüência, atividades geológicas de proporções catastróficas. Não é a primeira vez que cientistas se metem a prever catástrofes e fracassam, da mesma forma que videntes e profetas do passado.
A única conclusão a tirar disso tudo é que, caso 2012 passe em branco, podem estar certos de uma coisa: novas profecias serão anunciadas e o povão, esquecido de todas as que fracassaram, também acreditará nelas…

Predições astrológicas e psicose coletiva

À guisa de ilustração, citaremos algumas situações anedóticas provocadas por predições de astrólogos, referentes ao fim do mundo:
Em 1179 o célebre astrólogo João de Toledo previu que a conjunção de sete planetas no signo de Libra em setembro de 1186 desencadearia um cataclisma universal. A divulgação de sua profecia aterrorizou o Oriente e o Ocidente civilizados com a ameaça de tempestades terríveis e tremores de terra. Toledo conclamou a todos a se esconder em cavernas e montanhas, pois o mundo seria destruído e apenas alguns seriam poupados.
Nada ocorreu e depois Toledo justificou-se alegando que a conjunção, na verdade, relacionava-se à invasão dos hunos, um “pequeno erro interpretativo” que provocou pânico, desespero, suicídios e saques.
Outro astrólogo cristão, chamado Corumfiza, predisse que os árabes seriam totalmente destruídos por tempestades, ventos fortes e um grande fedor. Milhões de pessoas prepararam-se para o pior e em todos os países da Europa construíram-se abrigos subterrâneos. Na Pérsia e na Mesopotâmia as cavernas foram preparadas para abrigar refugiados; em Bizâncio o imperador mandou retirar as janelas do seu palácio e cobri-las com vigas. Na Inglaterra – em Winchester –, uma freira caiu em transe, recitou versos latinos assustadores profetizando eventos terríveis por causa da conjunção e morreu logo em seguida; neste clima de histeria, o arcebispo de Canterbury ordenou um jejum de três dias. Mas na data determinada, o dia amanheceu com um tempo esplêndido e nem a mais leve brisa incomodou os mortais. Um dos monges da cidade, ao qual não faltava senso de humor, deixou registrado: “Sofremos só o temporal que Sua Eminência desencadeou do púlpito”. Digno de registro, houve apenas um pequeno terremoto na Inglaterra em 1185 e algumas inundações em 1187, ano que também marcou a queda de Jerusalém.
O episódio caiu no esquecimento e logo outras catástrofes foram anunciadas, com intervalos de algumas décadas, nos anos de 1229, 1236, 1339, 1371,1395, 1422,1432, 1451, 1460, 1487.
Em janeiro de 1523, um grupo de astrólogos londrinos chegou à conclusão que o fim do mundo aconteceria por um dilúvio no ano seguinte, em primeiro de fevereiro de 1524, devido a uma conjunção planetária no signo de Peixes. Por causa disso, um mês antes, duas mil pessoas abandonaram Londres, buscando terras mais altas e um clérigo armazenou comida e água numa fortaleza construída por ele. Como nem uma gota de chuva caiu, um dia depois os astrólogos se justificaram alegando um “pequeno erro de cálculo” e disseram que o fim do mundo seria em 1624, e não em 1524. Mas esta retratação não serviu de consolo para os londrinos, cuja cidade foi toda saqueada por ladrões durante o “dia da evacuação”.
O astrólogo alemão Joahnnes Stöffler também conseguiu semear pânico e terror no seu país ao predizer um dilúvio de proporções universais que engoliria a humanidade em 20 de fevereiro de 1524. Astrônomos espanhóis confirmaram a previsão e uma enxurrada de panfletos anunciando o fim do mundo espalhou o medo pela Europa. Em todos os lugares não se falava em outra coisa, senão do iminente dilúvio universal. Também profetizou-se contratempos para a Igreja e flagelos cruéis aos judeus. Como a conjunção ocorreria em Peixes, signo do cristianismo, era certo que toda a cristandade, principalmente nas regiões do norte e do sudoeste, seria vítima de trombas d’água, chuvas de pedras, estrelas cadentes, dragões chamejantes e um cometa pavoroso. Em Tolosa, os moradores construíram uma arca gigantesca. Na orla marítima, as pessoas aguardaram o pior distribuídos em barcos e houve quem vendesse todos os bens ou corresse a ultimar o testamento. Na Alemanha, na data prevista para o cataclisma, todas as famílias da corte refugiram-se numa ridícula colina perto de Berlim, rodeados pelos súditos chorosos. Mas não caiu uma única gota d’água naquele dia, a não ser as lágrimas das pessoas apavoradas. O ano foi frio e chuvoso, mas em nenhum lugar houve enchentes.
Após o fracasso de sua predição, Stöffler transferiu o dia do juízo final para 1528…
O curioso de tudo isso é que, algumas décadas depois, as pessoas comentaram este evento como se tivesse ocorrido de fato uma inundação catastrófica e que a humanidade havia escapado dela sem maiores prejuízos! Melanchton, amigo de Lutero, chegou a dizer que a previsão de 1524 havia se cumprido durante a sua vida, atestando assim o poder dos astros…
Já em 1528, por ocasião da passagem de um cometa, o médico Ambroise Paré registrou que algumas pessoas morreram de medo e outras caíram doentes só de contemplá-lo. Acreditou-se que o fim do mundo estava próximo e muita gente legou seus bens ao mosteiros. Os padres revelaram mais bom senso e aguardaram a vontade dos céus aceitando de bom grado os bens terrenos.
Diante de tantos disparates, só nos resta rir de todas estas bobagens e lamentar que os homens continuem, obstinadamente, a alimentar a pretensão de adivinhar o futuro. De uma coisa temos certeza: o mundo vai acabar um dia e talvez algum maluco consiga acertar os números da loteria do fim do mundo. Mas que glória existirá nisso?

 
 
 

Se quiser conhecer um pouco mais sobre este assunto, leia o Breviário de Profecias do Fim do Mundo, de Bira Câmara (Edição de bolso / 2010, ilustrada, 130 páginas). Um inventário de profecias do fim do mundo, desde a antiguidade até os dias atuais, com um capítulo sobre a Profecia Maia para 2012.

 

20
out

PÍLULAS – III

   Publicado por: Bira Câmara  em Pílulas

Um astrólogo de Turim levantou o horóscopo da duquesa de Borgonha e previu que ela morreria aos vinte e sete anos de idade. Ela falava nisso constantemente e um dia disse ao seu marido: “Está se aproximando a data em que devo morrer; você não pode ficar sem esposa por causa de sua posição e de sua devoção conjugal; então eu lhe pergunto, com quem você se casará?” Ele respondeu: “Espero que Deus nunca me castigue tão cruelmente, fazendo-me assistir a sua morte; mas se essa desgraça é inevitável, eu não me casarei jamais, pois, oito dias depois, eu a seguirei no túmulo”. E, com efeito, sete dias depois da morte da condessa, ele também morreu.
* * *
Charles II, rei da Inglaterra, se fechava durante horas com o duque de Buckingham no afã de produzir ouro através da alquimia ou para tentar adivinhar o futuro pela leitura dos astros. Recomendaram-lhe o abade Pregnani, um químico competente e astrólogo reputado, que gozava de grande prestígio em Paris, particularmente junto às damas. Mas o abade teve uma desastrosa performance nas corridas de cavalo de New-Market, aonde o rei o havia levado: teve o cuidado de fazer o horóscopo dos cavalos que disputariam o prêmio, e perdeu muito dinheiro apostando sob a fé de suas próprias predições…
* * *
A condessa Potocka contou muito sériamente nas suas Memórias a profecia de um astrólogo em Poniatowski, na Cracóvia, no momento em que nascia o seu filho Stanislas: “Eu te saúdo, rei dos poloneses, eu te saúdo desde hoje, ainda que ignore a ascensão a que você está predestinado, e as desgraças que se seguirão a ela.” – disse o astrólogo. – Com efeito, Stanislas se tornou rei e a Polônia foi desmembrada durante o seu reinado.
* * *
Um astrólogo chamado Barbé leu nos céus o destino quase real de Françoise d’Aubigné, quando era ainda casada com o escritor humorista Paul Scarron, vinte cinco anos mais velho que ela. Depois de enviuvar, tornou-se amante de Luis XIV, que a desposou secretamente em 1683…
27
set

Previsão ao contrário

   Publicado por: Bira Câmara  em Previsões

Um astrólogo do século XIX, redator de almanaques, em viagem pela Suiça, resolveu fazer um passeio pela montanha de manhã. O céu estava limpo e sem nuvens, e nosso turista estava prestes a sair quando o seu estalajadeiro o aconselhou a desistir do passeio.

– Acabo de consultar meu almanaque – disse-lhe o homem –, e tenho certeza que não vai demorar para chover.

Nosso viajante, conhecendo melhor que ninguém os absurdos das profecias contidas nos almanaques, não levou em conta a advertência. Saiu e, duas horas depois, caiu uma violenta tempestade que o obrigou a voltar à estalagem com as roupas ensopadas de água.

– Você tinha razão – disse ao estalajadeiro, logo ao entrar no hotel –; mas que almanaque maravilhoso é esse que você consulta?

– É o do astrólogo X. (que era o nome de nosso viajante); ele nunca me engana, pois este X. é tão mentiroso que seguindo as suas previsões ao contrário quase sempre eu acerto. O almanaque anunciava um tempo magnífico para hoje; não tinha razão em aconselhá-lo a não sair?

Albert Lévy, Curiosités Scientifiques, Paris / 1898, pág. 101 
21
set

Dante e a astrologia

   Publicado por: Bira Câmara  em Literatura

DANTE webDante Alighieri (1265-1321), também foi adepto da astrologia, que em sua época era ensinada na Universidade de Bolonha (desde 1125), onde ele estudou. Brunetto Latini, que havia sido o seu professor de eloqüência e retórica, fez o horóscopo de Dante. Em sua obra há inúmeras referências astrológicas, o que mostra seu profundo conhecimento do assunto. Assim, numa passagem de “A Divina Comédia”, ele reverencia a constelação de Gêmeos, signo sob o qual nasceu:

DIVIN-01 web

“A bela estrela, do amor auspiciosa Sorrir alegre faz todo o Oriente, Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.” Purg., c. 1, v. 19-21

“Ö gloriosíssima estrela, ó lume cheio de virtude magna, devo-te o meu engenho e tudo o mais que seja de estimável, pois em teu signo se encontrava o sol quando respirei pela primeira vez”. (Paraíso, XXII, 112-117)

E no Purgatório, canto XVI:

“Embora livres, estais submetidos a uma força superior e a uma natureza mais elevada, e esta outra potência cria em vós o espírito que os céus não podem dominar.”

Em outra passagem, desta vez no Inferno, Virgílio conduz o poeta diante dos adivinhos, cuja cabeça foi torcida de modo a obrigá-los a nunca mais poderem olhar senão para trás. Este é o castigo por tentarem olhar para o futuro com tanta insolência, privilégio exclusivo de Deus… Nesta seção do Inferno vemos desfilar, entre outros, os mitológicos adivinhos Calcas e Tirésias, e os astrólogos Guido Bonatti e Michael Scott, ridicularizados por terem misturado necromancia com ciência.

O primeiro é acusado de “perícia em fraudes de magia” e o segundo arrepende-se de ter desprezado a ciência pela “horrível arte de encantos infernais”. A condenação refere-se, pois, à prática de magia negra e não ao exercício da astrologia. Já ao patrão de Scott, o rei Frederico II — tido dante textcomo herege —, Dante reserva-lhe um lugar no compartimento dos heresiarcas, no Inferno. Nos últimos livros da Divina Comédia, a astrologia é colocada em posição de dignidade. Ainda, no Purgatório, temos a seguinte passagem:

“O céu inicia os nossos movimentos, não todos na verdade, mas daí não se conclua que, tudo o que fizeres, seja por determinismo, visto que o discernimento do bem e do mal é um lume que te foi dado para modificar aquelas tendências, graças ao teu livre-arbítrio; de modo que, se houveres recebido más influências ao nascer, mais tarde poderás modificá-las se tiveres vontade firme para combatê-las .”(XVI, 73-79)

Fontes:

Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, trad. J. P. Xavier Pinheiro, Cia. Brasil Ed., 1955

Edmundo Cardillo, “Aspectos Novos de Velhos Temas”, S. Paulo, 1950

11
set

Tibério, astrólogo

   Publicado por: Bira Câmara  em Astrólogos

TiberiusO imperador romano Tibério não só consultava astrólogos, como também sabia fazer e interpretar horóscopos com grande perspicácia. Teve a seu serviço Trasilo, célebre astrólogo da época. Sua mãe, como era hábito entre os antigos romanos, consultou o adivinho Escribonius, antes mesmo dele nascer, e ouviu a profecia do futuro brilhante que estava reservado ao seu filho.

Segundo Tácito e Suetônio, Trasilo teria instruído Tibério na astrologia, na época em que viveu em Rhodes. Talvez por isso este imperador tenha condenado à morte grande número de pessoas acusadas de ter tirado seu horóscopo, com receio de que tornassem públicas as honras que lhe estavam reservadas. Suetônio conta que o imperador fazia em segredo, ele mesmo, o horóscopo das pessoas mais importantes, para saber se não havia nenhum rival entre elas. Ler texto completo »

28
ago

Michael Scot, um astrólogo lendário

   Publicado por: Bira Câmara  em Astrólogos

Michael Scot, astrólogo, monge, médico, mate­mático, astrônomo, pintor e alquimista nascido no fim do século XII, é uma das figuras mais fascinantes da história da astrologia. Chamado de “o Mago do Norte”, muitos historiadores o consideram o primeiro cientista da Escócia. Scot foi tão famoso que se tornou uma lenda, como outro monge, Roger Bacon, um homem de ciência como ele; sua biografia como a de Bacon, perdeu-se nas brumas do mito e da lenda após sua morte. Em 1385, Bacon disse ser capaz de materializar uma ponte acima do ar para atravessar um rio. No século anterior, Scot afirmou ter dividido os Montes Eildon, na Escócia!

Não só pela aura de mistério que cerca sua biografia, mas também pelos feitos que lhe são atribuídos, sua fama de mago-astrólogo impregnou o imaginário popular ao longo do tempo e tem inspirado até hoje personagens de ficção (1). O mistério começa já na sua origem: não se sabe se era escocês, irlandês ou francês e não se possui nenhum dado a respeito da data de seu nascimento. Em 1236, a obra de um poeta ligado à corte do Imperador Frederico II, na Sicilia, menciona sua morte. É tudo que se sabe dele. Ler texto completo »

2
ago

Predições Antológicas

   Publicado por: Bira Câmara  em Astrólogos, História, Pílulas, Previsões

200px-CaracallaAtribui-se ao imperador romano Caracala (imperador de 211 a 217), o assassinato de possíveis sucessores ao trono do império, baseado em “diagramas de posições siderais”. Apesar de matar muita gente cujos horóscopos prometiam elevação, Caracala não percebeu nada que o ameaçasse em Gordiano, o velho. Autor de um longo poema épico em sua homenagem chamado Antoninias, tornou-se imperador, embora por um breve espaço de tempo (três semanas).

Caracala parece ter tido a mesma convicção total na astrologia que o seu pai Sétimo Severo. Muitos astrólogos foram chamados para o aconselhar, e vários deles – o egípcio Serápio, Asclétion, e Larginus Proculus – o preveniram que ele não viveria muito tempo e que o seu sucessor seria Macrinus, um prefeito. Asclétion foi executado, Larginus Proculus foi condenado à execução imediatamente depois da data que tinha predito para a morte de Caracala, e Serápio foi lançado a um leão (que apenas lambeu-lhe a mão e, assim, uma execução mais prosaica teve de ser providenciada).

gordiano 1Conta-se que Gordiano, o velho, que havia sido governador da Grã-Bretanha romana em 216 e cônsul durante o reinado de Heliogábalo, um dia consultou um astrólogo sobre o destino de seu filho e ouviu em resposta que ele seria filho, pai de imperador e imperador também. E, como Gordiano risse, o astrólogo lhe mostrou a configuração dos astros, citando passagens de velhos livros, para provar que tinha dito a verdade. Predisse também ao velho e ao jovem, o dia e o gênero de suas mortes, os lugares onde morreriam, com firme convicção da verdade. Gordiano I, o velho, e Gordiano II - pai e filho -, tornaram-se imperadores, mas permaneceram no poder por um tempo ínfimo. Sendo o primeiro descendente de Trajano, foi nomeado imperador pelos africanos durante uma sublevação contra o imperador (Máximo Trácio) e governou apenas três semanas; em 238 foi derrotado em Cartago pelo procurador da Numídia. Neste mesmo ano, o filho morreu na defesa de Cartago. Sucedeu-os, Gordiano III, o piedoso, imperador de 238 a 244.

Alexandre Severo, último dos imperadores romanos da dinastia 250px-Alexander_Severus_Musei_Capitolini_MC471dos Severos, que reinou entre 222 e 235, era astrólogo, mas não fazia alarde desta habilidade. Todavia, encorajou os astrólogos profissionais a se organizarem em um corpo para transmitir o seu conhecimento de uma maneira disciplinada, anunciando-se de fato como professores. Fundou cátedras para astrólogos mantidas pelo Estado, com bolsas para os estudantes. Seu interesse pelas estrelas era tão grande que foi comparado ao astrólogo da fábula que, com os olhos no céu, cai desastradamente num poço. O astrólogo Trasíbulo, seu amigo íntimo, disse-lhe que ele morreria pela espada dos bárbaros. O imperador ficou lisonjeado de início, porque desejava uma morte guerreira e digna de um imperador. Depois, pôs-se a dissertar, para demonstrar que todos os grandes homens tinham perecido de morte violenta, citando Alexandre o grande, Pompeu, César, Demóstenes e outros personagens insignes que não tinham morrido pacificamente. Exaltou-se a ponto de julgar-se comparável aos deuses se morresse na guerra. Mas a predição cumpriu-se apenas em parte, pois morreu sob a espada de um soldado romano durante um motim… Era bem intencionado, tratou bem os cristãos, mas não tinha apoio político e militar.

2
jul

Joan Quigley, a astróloga de Reagan

   Publicado por: Bira Câmara  em Política

reaganEm maio de 1988, a imprensa americana sur­preen­deu o mundo ao revelar que o gover­nante da nação mais poderosa do planeta di­rigia todas as suas ações baseando-se nos conselhos de uma astróloga. O autor da revelação que es­candalizou os comen­taristas políticos foi o ex-chefe de pessoal da Casa Branca, Donald Regan. Seu an­te­cessor no cargo, Michael Deaver submetia-se às inter­venções de Nancy Reagan, colaborando nas modi­ficações contantes dos horários do presidente sugeridas pela sua astróloga particular Joan Quigley. O assessor não concor­dava com isso e “considerava extrema­mente humilhan­te para a presidência recorrer a algo tão tolo como a astrologia”. A revelação provocou um frenesi na mídia, que pintou a Casa Branca como um verdadeiro hos­pício e ridicularizou o casal Reagan. Nancy ficou enfurecida com a traição do seu segredo por Donald, mas ele se defendeu dizendo que não teve outra escolha senão revelar a verdade. “Minha descrição da vida da Casa Branca durante meu período como chefe de pessoal teria feito pouco sentido se eu omitisse isto”, escreveu Regan, num comentário sobre as memórias de Nancy.

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7
jun

Juliano, o Imperador do Sol

   Publicado por: Bira Câmara  em História

juliangold1Juliano, o Apóstata, foi imperador romano de 361 a 363. Quando nasceu, como todos os grandes imperadores, também teve o seu destino brilhante predito por um astrólogo, Theophille Melos, bispo de Alexandria. No seu curto reinado tentou reinstaurar o paganismo e revitalizar o culto aos deuses greco-romanos, ligando-os ao platonismo. Viveu cercado por filósofos, magos, astrólogos e adivinhos. Stephanus Mehebum, médico e astrólogo, foi quem lhe ensinou astrologia, na sua juventude. O próprio Juliano costumava levantar e interpretar horóscopos. Máximo de Éfeso, um dos últimos hierofantes da religião pagã, foi seu preceptor e conselheiro. Segundo cronistas da época, ele teria convencido Juliano de que o espírito de Alexandre reencarnara nele.

Leu os grandes filósofos pagãos, principalmente Platão, e os neoplatônicos como Celso, Jâmblico e Porfírio. Como o cristianismo tornara-se a religião oficial do império e o paganismo era então perseguido, Juliano teve de esconder a sua veneração pelos deuses antigos, até chegar a ser de fato imperador, em 361. Ler texto completo »

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