Walter Scott e o desencanto da astrologia

Apesar de ter escrito uma novela que tem por subtítulo “O astrólogo” – Guy Mannering (1815) -, Walter Scott não tinha a astrologia em alta consideração. Na obra Letters on Demonology and Witchcraft (1830) ele dedica algumas páginas à astrologia e justifica a referência a essa “dama desonrada” num tratado sobre demonologia, “porque os astrólogos sempre pretenderam manter relação com os espíritos elementais, segundo os princípios da filosofia Rosacruciana, embora neguem fazer uso da magia negra ou da necromancia”. Aparentemente o seu conhecimento do assunto não ultrapassava os limites impostos pelos preconceitos da época e pelo lado anedótico da astrologia.

Sir Walter Scott

Scott faz menção ao Dr.Forman, a William Lilly e a John Dee, “um matemático excelente, arruinado na fortuna e na reputação pelo seu sócio, o médium Kelly”. As pesquisas de Scott na área astrológica parecem limitadas aos astrólogos dos séculos XVI e XVII. Ele cita a autobiografia de Lilly e a descrição pouco lisonjeira feita por ele dos astrólogos contemporâneos que teve a oportunidade de conhecer. Nas palavras do próprio Lilly, seus colegas eram “quase sem exceção libertinos, indignos, velhacos, embusteiros, entregues ao vício, e impondo-se pelas fraudes mais grosseiras aos tolos incautos que os consultavam”. Sobre a atuação dos astrólogos durante a guerra civil na Inglaterra, observa que eles abraçaram lados diferentes, o rei de um lado e o Parlamento do outro, ambos igualmente curiosos para saber o que Lilly, Wharton, ou Gadbury tinham descoberto nas estrelas com relação a quem iria sair vencedor da disputa.

Outro astrólogo mencionado por Scott é um certo Dr.Lamb, médico e astrólogo da mesma espécie de Forman, patrocinado pelo duque de Buckingham (adepto da astrologia, como tantos outros poderosos), que foi linchado em Londres pela multidão enfurecida, e sua criada enforcada como bruxa em Salisbury treze anos depois.

Lamentando o envolvimento de filósofos e pensadores do porte de Francis Bacon com uma superstição tão irracional, a conclusão de Scott sobre o assunto é mordaz: “os astrólogos do século XVII não se limitaram às estrelas. Não houve nenhum campo da fraude que eles não exploraram; participavam de escândalos como alcoviteiros e, no papel de curandeiros, vendiam poções para os fins mais escabrosos”.

No seu poema The Lay of the Last Minstrel (“A Canção do Último Trovador”), inspirou-se na figura fascinante do monge, astrólogo e feiticeiro Michael Scott. Mas nesta obra a astrologia não tem grande destaque; Scott preferiu evocar a lenda dos livros mágicos de Michael, que foram enterrados com o astrólogo no sepulcro da abadia do convento onde morreu. A lenda conta também que estes livros não poderiam ser abertos sem perigo, por causa dos demônios malignos que seriam invocados pelo seu manuseio.

Quando se propôs a escrever Guy Mannering, seu projeto não era apenas utilizar uma predição astrológica como gatilho da história: Scott deixou claro que o projeto era mais ambicioso. Na Introdução do romance ele revela que imaginara a possibilidade de um conto edificante, a partir dos incidentes da vida de um indivíduo condenado, cujos esforços de boa conduta e virtude estavam ameaçados pela intervenção maligna, mas que no final acaba triunfando sobre o mal. O esquema foi projetado nos três ou quatro primeiros capítulos da obra, mas uma análise mais aprofundada induziu Scott a deixar de lado o seu propósito inicial. O resumo desse conto é apresentado na introdução do romance e tem certa semelhança com o enredo da peça de Calderon de La Barca, La Vida es Sueño.

Scott justifica a mudança de sua ideia original, explicando que chegara à conclusão de que a astrologia, apesar já ter sido aceita pelo próprio Bacon, “não tinha mais influência suficiente sobre os espíritos em geral nem mesmo para constituir a mola principal de um romance”. Além disso, ele mesmo concluiu que o assunto envolveria doutrinas e discussões de uma natureza muito séria para a sua finalidade e para o caráter da narrativa. Ao modificar o seu plano, no entanto, o que foi feito no curso da impressão, a novela conservou resquícios do teor original da história.

Guy Mannering, ou O astrólogo

O Castelo de Ellangowan (ilustração da edição de 1832)

A ação de Guy Mannering se desenrola principalmente em Galloway, no sudoeste da Escócia, no final do século XVIII. A principal fonte da história de Scott teria sido Joseph Train, antiquário amador de Galloway, que iniciou correspondência com o escritor em julho de 1814. Scott havia pedido para Train fornecer-lhe relatos de lendas e tradições de Galloway. O antiquário enviou-lhe posteriormente uma coleção de anedotas sobre os ciganos da região e a história de um astrólogo local, que predisse o futuro de uma criança recém-nascida com grande precisão, avisando ao pai que iriam suceder-lhe perigos em seu vigésimo primeiro aniversário. Esses dois relatos prepararam o terreno para a novela ¹.

Sinopse

A Cigana Meg Merillies, personagem chave da história
A Cigana Meg Merillies, personagem chave da história

Ao passear pela região de Galloway, um estudante de Londres – Guy Mannering – é acolhido no castelo de Ellangowan, onde a mulher de seu anfitrião acaba de dar à luz um menino, assistida por uma parteira cigana. Astrólogo amador, Guy se propõe a levantar o mapa do recém-nascido e encontra espantosa similaridade entre o seu tema e o de sua amada, Sofia. Ambos passariam por momentos cruciais quando o garoto completasse seu vigésimo-primeiro ano de vida. O menino, Harry Bertram, filho do Laird de Ellangowan, é raptado pelo contrabandista Dirk Hatteraick e levado para a Holanda. Hatteraick é cúmplice do advogado de Bertram, Gilbert Glossin, que espera adquirir a propriedade da família, na ausência de um herdeiro do sexo masculino. Adotado por um comerciante holandês, Bertram é mantido na ignorância da sua verdadeira identidade, que se esconde sob o nome Vanbeest Brown. Ao chegar à idade adulta, ele viaja para a Índia e se alista no exército sob o comando do coronel Guy Mannering. Bertram se apaixona pela filha dele, Julia, mas o coronel imagina que as suas atenções se destinam à sua esposa. Ele desafia Bertram para um duelo, que é ferido gravemente por ele, e morre. Em recuperação, Bertram descobre que Julia já regressara à Grã-Bretanha. Disfarçado, ele a segue até Ellangowan. O advogado Glossin, agora único proprietário do castelo, descobre a sua verdadeira identidade e, novamente com a cumplicidade de Hatteraick, torna a raptá-lo. No entanto, Meg Merrilies, a cigana parteira de Bertram, o reconhece também e ajuda-o a desbaratar a conspiração, mesmo à custa da sua própria vida. Como resultado dos seus esforços, Bertram é reconhecido, recupera o seu patrimônio e casa-se com Julia.

Referências astrológicas de Scott

Um dos temas preferidos dos escritores românticos é a luta entre o bem e o mal; na literatura gótica o mal aparecia na pele do Diabo tentando arrastar o personagem para o crime e o pecado. Uma novela de grande sucesso desta época, O Elixir do Diabo (1816), de Hoffmann, conta a história de um garoto que, por causa da predição de um velho peregrino, fora educado desde criança para a carreira religiosa, num esforço para desviá-lo de um destino criminoso na idade adulta. Torna-se monge, mas em dado momento se depara com a tentação demoníaca, à qual não resiste e acaba caindo numa vida criminosa. Nesse caso a inclinação para o crime não é determinada pelos astros, mas pelo atavismo genético, pois “o pecado do seu pai palpitava em seu seio”. A tentativa de evitar um destino funesto fracassa, mas ao final é dada ao personagem a oportunidade de se redimir de todos os males perpetrados…

Para escrever essa novela, Scott pesquisou astrologia e talvez até mesmo o suficiente para arriscar-se a levantar um tema natal. Mas as referências astrológicas citadas no texto são escassas e vagas; conforme as palavras de Mannering, o mapa da criança é levantado “de acordo com a lei das triplicidades recomendada por Pitágoras, Hipócrates, Diócles e Avicena” e seguindo “os princípios de Haly, Messahala, Ganwehis e Bonatti”. Num dos diálogos entre o astrólogo e um cético, Bacon, Heydon e Lilly, são citados. Mas a discussão nem chega perto de ventilar com profundidade os argumentos pró ou contra a astrologia:

– Espero, senhor – disse Mannering -, que você não seja um desses homens desgraçados cuja vista fraca é incapaz de alcançar as abóbadas estreladas e de ler nos astros os decretos do céu; que sua alma enfim não seja bloqueada pela convicção do preconceito.

– Sim – respondeu Sampson -, eu penso como sir Isaac Newton, cavalheiro e diretor da Casa da Moeda de Sua Majestade, que a pretensa ciência da astrologia é vã, frívola e irrisória.

Depois desse oráculo, os seus lábios voltaram à imobilidade.

– Eu estou verdadeiramente surpreso – disse Mannering -, de ver que um homem tão sério, tão instruído quanto você, mergulhe numa cegueira tão deplorável. Como é possível colocar o nome moderno e comum de Isaac Newton ao lado de nomes sonoros e célebres de Dariot, Bonatti, Ptolomeu, Haly, Eztler, Dieterick, Naibob, Harfurt, Zäel, Taustettor, Agrippa, Duretus, Maginus, Origines e Argol? Os cristãos e os pagãos, os judeus e os gentios, os poetas e os filósofos, não estão de acordo quanto ao reconhecimento da influência dos astros?

Communis error! Erro geral! – sentenciou o imperturbável Dominus.

– De maneira alguma – replicou o jovem inglês -; é uma crença universal e bem fundamentada.

– Recurso de patifes, de charlatães e de mistificadores – disse Sampson.

Abusus non tollit usum – retrucou Mannering -: o abuso que se faz de uma coisa não lhe tira o direito de ser usada. (Cap. III)

Não é por acaso que, nas palavras de Scott, o personagem Guy Mannering tenha estudado com um dos últimos adeptos desta “ciência imaginária”. Para o autor, seguindo a onda anti-astrológica de sua época, a astrologia estava morta e enterrada… Aliás, há um comentário irônico, na introdução do romance, sobre um astrólogo que se ofereceu para fazer o seu mapa, mas isso não foi possível porque o novelista não sabia o horário de nascimento.

Pelo menos nesta novela, a postura de Scott não é de simpatia nem de feroz antagonismo, mas de desencanto e complacência com essa “quimera” que tem seduzido tantos espíritos esclarecidos… Mas o seduziu também, pois dedicou algum tempo de sua vida a pesquisá-la. Seja como for, seu interesse resultou nessa novela, que tem lá o seu encanto e onde a astrologia entra como o elemento maravilhoso pela sua própria “incredibilidade”.

Aliás, o sobrenatural e o maravilhoso aparecem na maioria das obras de Scott e em Guy Mannering, a pitada fantástica fica por conta da predição astrológica, mas na dose certa para não ferir os ouvidos de um “público esclarecido”². Tão esclarecido e racional que adorava histórias de fantasmas, de castelos mal assombrados, de demônios seduzindo castas donzelas, de pactos com o diabo, etc. Esses eram os temas de boa parte das novelas de sucesso nesta época.

O autor projeta suas dúvidas e questionamentos no personagem Guy Mannering, impressionado com as coincidências entre o mapa do recém-nascido Bertram e Sofia, sua amada. Nessa passagem, o astrólogo lembra que a astrologia já fora acusada de ser instrumento da magia dos demônios… Essa é uma acusação que perseguiu astrólogos no passado e para a qual os rosacrucianos colaboraram bastante ao misturar astrologia com a prática da magia e a comunicação com espíritos e anjos.

Apesar das referências pouco amistosas à astrologia, seus adeptos não devem ter prevenção contra essa obra, pois Scott é um extraordinário contador de histórias e sabe construir a intriga de modo a prender o leitor. Quem é que pode negar os méritos do autor de Rob Roy, Ivanhoé, A Noiva de Lammermoor, A Lenda de Montrose e tantas outras obras primas? No seu lançamento, o romance não foi muito bem recebido pela crítica, mas foi sucesso de público e teve várias reedições na Inglaterra.

NOTAS:
  1. Peter D. Garside, editor da recente edição de Guy Mannering, Edimburgo (1999), encontra pouca evidência das tais informações fornecidas por Train antes da preparação da edição Magnum Opus do romance em 1829. Garside argumenta que uma fonte mais plausível de Scott foi sua cunhada Elizabeth Scott McCulloch, que registrou um repositório do folclore de Galloway, onde é feito o paralelo entre a história da família Bertram, conforme descrito no capítulo 2 de Guy Mannering, e do “rei” cigano Billy Marshall, que a família de Elizabeth, os McCullochs, de Ardwall, tolerava em suas terras. Mas, na Introdução, Scott registra que a narrativa na qual Guy Mannering baseou-se originalmente foi relatada por um criado de seu pai e, à medida que foi escrita, a obra deixou de manter semelhança com ela.
  2. Scott frequentemente entremeava suas novelas com o elemento sobrenatural e chegou mesmo a produzir narrativas do gênero fantástico como A Câmara Atapetada e História de Willie, o Vagabundo, em Redgauntlet.
Bibliografia:
  • Walter Scott, Guy Mannering Ou o Astrólogo. Ed. Garnier, n/d

2 comentários em “Walter Scott e o desencanto da astrologia

  • 11 de dezembro de 2008 em 1:56 pm
    Permalink

    Fico sempre fascinado quando visito este site. Para não deixar tudo para a última hora, aqui deixo os meus votos de um bom 2009, o ano do realismo categórico do Senhor dos Poderes. Abraço.

  • 1 de abril de 2010 em 11:16 am
    Permalink

    OI! GOSTEI DA HISTORIA E VOU FALAR SOBRE O AUTOR NA ESCOLA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.