Virgílio, mago e profeta

 
Virgílio
(71 A.C.-14 D.C.), além de ter sido o maior poeta romano, foi também um aficionado da magia e da astrologia. Quem já não ouviu falar na famosa profecia que, segundo os cristãos, antecipou o nascimento de Cristo? Ela pode ser identificada na célebre IVª Écloga da “Eneida”, onde o poeta faz referência a uma profecia da Sibila de Cumas:

“Já está chegando a última época da predição (da Sibila) de Cumas; a grande sucessão dos séculos recomeça de novo. Já volta a Virgem, voltam os reinos de Saturno; uma nova raça desce do alto do céu. Essa criança que nasceu encerrará a Idade de Ferro e trará de volta a Idade do Ouro no mundo inteiro.”

Busto de Virgílio

Esta profecia deu muito o que falar, e houve quem visse nela uma referência ao nascimento de Cristo, ocorrido poucos anos depois que ela foi publicada. Mais certo, entretanto, é que ela se referisse ao nascimento do filho de Mecenas, Polião. Graças a ela, Virgílio grangeou a fama de profeta e seus textos conquistaram enorme popularidade através da Idade Média na Europa. 

Nesta época, o império romano vivia a gloriosa pax romana sob o governo de Augusto, depois de um conturbado período de guerras civis. Circulava então um grande número de profecias apocalípticas e uma delas, baseada nos Oráculos Sibilinos, anunciava a queda iminente de Roma ao fim do Grande Ano. A publicação da Eneida difundiu a esperança de que Roma poderia regenerar-se periodicamente, libertando-se do mito que a condenava a desaparecer e estender-se ao mundo todo. Virgílio, que certamente conhecia o fenô­meno da precessão dos equinócios, sabia que o mundo estava próximo de uma mudança de era astrológica e conseguiu reverter o clima de pessimismo dos romanos. A partir da Eneida, Roma ficou conhecida como a cidade eterna, o imperador Augusto foi proclamado o segundo fundador da cidade, e os romanos pas­saram a acreditar que já tinha começado a Idade de Ouro. Houve, como assinalou Mircéa Eliade, “um esforço supremo para libertar a história do destino astral ou da lei dos ciclos cósmicos” e substituir o mito antigo da destruição do universo por sua recriação periódica (1). O clima de medo e pessimismo foi transformado deliberadamente num clima de felicidade e júbilo…

Virgílio mostrou profundo conhecimento astrológico em suas obras, sobretudo nas Geórgicas (especialmente no I° e II° Livro). A respeito disso, André Barbault não hesita em proclamar com entusiasmo que este poema é um verdadeiro almanaque astrológico, onde o poeta pôs seu talento a serviço da astrologia natural.

Pela sua sabedoria, foi concedido a Virgílio o domínio de Nápoles onde, segundo cronistas da época, teria realizado trinta e duas maravilhas. Entre elas, conta-se que livrou Roma de uma praga de moscas e insetos de um pântano próximo por meio de um feitiço – uma pequena mosca de bronze. Esta mosca, entalhada com diversas estrelas, quando suspensa no ar matava todos os insetos a uma certa distância em torno dela. Em toda a área da cidade, bem como nas províncias próximas, nenhuma mosca conseguia sobreviver. E se, por acaso, algum inseto chegasse de outro lugar, morria imediatamente!

Em Nápoles, Virgílio fez duas cabeças de mármore, uma em atitude de riso, outra de pranto, e colocou uma à direita e outra à esquerda de uma porta de acesso à cidade. Aquele que passasse perto da cabeça sorridente resolveria bem seus negócios. Mas tudo sairia errado para quem entrasse na cidade passando perto da cabeça que chorava…

Outro prodígio atribuído ao poeta, também em Nápoles, foi ter colocado sob o calçamento da rua, diante de uma das portas da cidade, um selo que provocava a morte de todos os répteis nocivos. Por causa deste sortilégio, em todo o território não se encontrava nenhuma espécie deles. Em outra ocasião, fez um cavalo de bronze que curava todos os cavalos que se aproximassem de qualquer mal que sofressem. Também produziu um tonel que jorrava vinho sem parar e quem o bebesse, homem ou mulher, ficava curado de qualquer abatimento.

Em Roma, construiu o edifício mais singular da cidade e nele colocou imagens esculpidas de madeira representando as províncias, com pequenos sinos que soavam quando arrebentava alguma rebelião em qualquer lugar. E abaixo do palácio construiu um cavaleiro de bronze com uma espada oscilante e postura de ameaça àquela região.

Durante uma peste em Nápoles produziu uma sanguessuga de ouro, sob certa constelação, e a colocou no fundo de um poço. Graças a este sortilégio a cidade foi livrada da pesti­lência. Muito tempo depois, quando ela foi retirada do poço, a peste recomeçou e a cidade encheu-se de formidável número de sanguessugas.

Numa montanha nos confins de Nápoles, em meio a rochedos de difícil acesso, Virgílio fez um jardim plantado com árvores e diversas ervas, entre as quais havia uma chamada Herba Lucis, com a estranha propriedade de provocar extrema acuidade visual em quem a tocasse. Também colocou, no ponto mais alto daquele lugar, uma imagem de cobre com uma trombeta, a qual, sempre que o vento soprava e entrava nela, fazia barulho ajudando os navios a orientar-se no mar.

Fez também nesta cidade, para uso do povo e sua admiração perpétua, uma casa de banho de suntuosa arquitetura que curava todas as doenças internas e externas. Através de sua arte matemática, conseguiu furar uma montanha para encurtar o caminho com tanta eficiência que, no meio do túnel, se podia ver as suas duas extremidades.

Inventou um espelho através do qual se viam os inimigos de Roma a longa distância; fez uma imagem que dava respostas a qualquer pergunta; dois círios e uma lâmpada cujo fogo jamais se extinguia; em Roma, no Capitólio, fez as imagens de todas as províncias, que se moviam e faziam barulho a qualquer rumor ou divisão vinda da província, para que o Senado interviesse nela imediatamente.

Dizia-se que após a sua morte os seus ossos foram colocados num castelo perto do mar e que se moviam, levantando-se e abaixando-se como as ondas. E, segundo um doutor de Florença da Idade Média, a maior parte dos seus prodígios ele fez naturalmente e pela ciência da astrologia.

A Eneida, publicada após a morte de Virgílio, exerceu uma influência decisiva sobre a literatura latina, tanto em prosa como em verso. A Igreja Católica considerou o poeta como inspirado por Deus e sua influência continuou através da Idade Média. O povo supersticioso da era Medieval fazia roma­rias ao seu túmulo com veneração religiosa, e surgiram muitas lendas que atribuíram a Virgílio supostos poderes mágicos.

Fonte: Symon de Phares, “Recueil des plus célebres astrologues et des hommes doctes”, Honoré Champion Éditeur, Paris, 1929.

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