Tycho Brahe

Nenhum outro astrólogo teve uma vida tão excêntrica quanto Tycho Brahe. Verdadeira “figurinha carimbada” na história da astrologia, deu-se ao luxo de manter até um bobo da corte em seu castelo e observatório astronômico.

Na história da astrologia e da astronomia, segundo David Plant, Tycho é o personagem “mais estranho e pitoresco de todos os filhos de Urânia”. Arthur Koestler qualificou-o como “uma exceção refrescante entre os sombrios, tortuosos, gênios neuróticos da ciência”.

Retrato de Tycho, com seu indefectível nariz postiço.
Retrato de Tycho, com seu indefectível nariz postiço.

Tycho Brahe (1546-1601), astrônomo dinamarquês, nascido em 24 de dezembro, foi uma destas personalidades excêntricas que aparecem a cada século e imprimem sua marca na história da ciência. Descendente de truculentos nobres dinamarqueses, herdou o gênio prepotente e autoritário dos seus antepassados. Antes de nascer, seu pai havia prometido ao irmão, que não tinha filhos, entregar-lhe um dos seus para que o adotasse e criasse. Tycho teve um irmão gêmeo, que nasceu morto e, por causa disso, seu pai voltou atrás da promessa. Mas o tio, homem de temperamento obstinado, esperou até que nascesse outro sobrinho e raptou Tycho… Este fato deve ter marcado profundamente a personalidade do menino, contribuindo para que se tornasse um excêntrico. O padrasto morreu quando ainda era jovem e teve um fim em grande estilo. Além de nobre, era vice-almirante e, ao voltar de uma batalha naval contra os suecos, cavalgando no séquito real sobre uma ponte, viu o rei Frederico II cair na água; saltou e salvou o rei, mas morreu de pneumonia.

Quando era estudante, Tycho já dava mostras de temperamento beligerante e dado a rixas. Envolveu-se num duelo com outro nobre e teve parte do nariz cortado. Segundo contam os seus contemporâneos, a disputa originou-se de se saber qual dos dois fidalgos era melhor matemático. Desde então passou a usar um nariz falso, que ele mesmo fez, graças a sua engenhosidade técnica.

Gravura do século XVI, mostrando Tycho Brahe em seu observatório.
Gravura do século XVI, mostrando Tycho Brahe em seu observatório.

Tycho estava destinado, pela tradição familiar, a seguir a carreira de estadista e logo cedo foi mandado para a Universidade de Copenhagen para estudar retórica e filosofia. Mas no fim do primeiro ano, presenciou um eclipse do sol e este acontecimento o impressionou tanto que mudou o curso de sua vida. Desde então passou a comprar livros de astronomia e a estudar o assunto. Leu Ptolomeu aos quatorze anos e começou a fazer observações astronômicas aos dezessete. Além da astronomia, dedicou-se à astrologia e alquimia, incentivado por outro tio, que além de fabricante de papel e vidros na Dinamarca, tinha um laboratório alquímico.

Apesar de praticante da astrologia e convicto de que os astros influíam no caráter e destino dos homens, Tycho desprezava os demais astrólogos, a quem chamava de charlatães.

Sua fama se estabeleceu de um golpe, a partir do descobrimento da nova estrela de 1572, evento que inquietou a Europa tanto pelo significado cosmológico como astrológico. Publicou sua primeira obra, “De Nova Stella”, que além da descrição exata da nova estrela, trazia também previsões astrológicas. Gostava de viajar e perambulou pela Europa, visitando amigos, na maioria astrônomos.

Em 1576, o rei Frederico II, cuja vida havia sido salva pelo padrasto de Tycho, ofereceu-lhe o cargo de astrônomo, junto com uma pensão anual, várias sinecuras e uma ilha perto de Copenhagen, onde mandou construir um complexo observatório. A construção, feita por um arquiteto alemão sob a sua supervisão, marcou época na história da arquitetura escandinava. Na sua base, havia uma tipografia alimentada por uma fábrica de papel própria, uma farmácia e a fornalha de alquimista. Além disso, Tycho mandou construir uma prisão para encarcerar súditos insubordinados e inquilinos que deixassem de pagar os aluguéis…

Em Uranienborg, além de um almanaque astrológico anual para o rei da Dinamarca, Tycho escrevia relatórios detalhados sobre os horóscopos dos seus filhos. Os horóscopos reais eram apresentados em volumes ricamente encadernados com até 300 páginas de previsões . Tycho geralmente não usava os gráficos quadrados adotados pelos seus contemporâneos, preferindo a forma circular. Pode ter sido o primeiro astrólogo a fazer uso regular dos mapas circulares.
Uranienborg, o magnífico palácio-observatório de Tycho

A ilha foi chamada de Uranienborg, e ali Tycho viveria por vinte anos como um verdadeiro senhor feudal, presidindo banquetes formidáveis a visitantes ilustres. Não faltava nem mesmo o bobo da corte, um anão chamado Jepp, que ficava sentado aos seus pés, tagarelando sem cessar no meio da confusão geral. Esse estranho personagem, que recebia bocados ocasionais de comida da mão de seu mestre, era também um vidente talentoso. Sempre que alguém caía doente em Uraniborg, o anão fazia previsões sobre o destino do doente, cuja recuperação ou morte ele sempre acertava. Entre a companhia de Tycho de criados, estudiosos e assistentes havia também uma camponêsa, Christine, que viveu com ele durante 26 anos e teve oito filhos. Eles não puderam se casar formalmente por causa das origens humildes de Christine, mas Tycho obrigava todos a tratá-la com a deferência e cortesia devidas à mistress de Uranienborg. Esta mulher, Liuva Lauridsdattar, viveu depois com a irmã de Tycho, Sophia, em Copenhague onde praticou astrologia e medicina até a morte em 1693, com a idade de 124 anos.

Em Uranienborg, além de um almanaque astrológico anual para o rei da Dinamarca, Tycho escrevia relatórios detalhados sobre os horóscopos dos seus filhos. Os horóscopos reais eram apresentados em volumes ricamente encadernados com até 300 páginas de previsões . Tycho geralmente não usava os gráficos quadrados adotados pelos seus contemporâneos, preferindo a forma circular. Pode ter sido o primeiro astrólogo a fazer uso regular dos mapas circulares.
Em Uranienborg, além de um almanaque astrológico anual para o rei da Dinamarca, Tycho escrevia relatórios detalhados sobre os horóscopos dos seus filhos. Os horóscopos reais eram apresentados em volumes ricamente encadernados com até 300 páginas de previsões . Tycho geralmente não usava os gráficos quadrados adotados pelos seus contemporâneos, preferindo a forma circular. Pode ter sido o primeiro astrólogo a fazer uso regular dos mapas circulares.

Quando o rei morreu, em 1588, Tycho era uma figura odiada em toda a Dinamarca, devido aos seus desmandos. Tratava seus inquilinos de maneira cruel, exigindo deles trabalho e bens aos quais não tinha direito e os prendia quando o desobedeciam. Era rude com todos os que o desagradavam e entrou em atrito até mesmo com o jovem rei, Christian IV. A gota d’água foi quando desafiou as decisões dos tribunais da província, mantendo presos um arrendatário e sua família. As medidas tomadas contra ele o desagradaram e fizeram com que tomasse a decisão de abandonar a Dinamarca e voltar a perambular pela Europa.

Em 1597, deixou a ilha com um grandioso séquito de vinte pessoas – família, assistente, criados e o anão Jepp – e bagagens que incluíam a tipografia, a biblioteca, os móveis e todos os instrumentos de observação astronômica! Perambulou por dois anos, até entrar em Praga, onde o imperador Rodolfo II designou-lhe o cargo de Mathematicus Imperial, com uma polpuda renda anual e um castelo de sua escolha. Este monarca era um adepto da astrologia e encomendou a ele o seu horóscopo. No entanto, as coisas deram errado para Tycho, pois as finanças do rei estavam em desordem e ele teve de lutar muito para conseguir receber metade do que lhe havia sido prometido. Para piorar as coisas, a peste eclodiu naquele mesmo ano, obrigando-o a abandonar seu castelo e refugiar-se na residência imperial.

Rodolfo II consultando Tycho
Rodolfo II consultando Tycho

Nos últimos anos de sua vida, Tycho conheceria Kepler, que se tornou seu discípulo, e o sucedeu no cargo de Mathematicus Imperial na corte do imperador Rodolfo, após sua morte.

Na astronomia, Tycho havia reconciliado o sistema copernicano com o tradicional: a Terra era fixa no centro do Universo, e o Sol e a Lua giravam em torno dela, enquanto os demais planetas giravam em torno do Sol.

Como astrólogo, ficou célebre acertando algumas predições. Em 1577, quando da passagem de um cometa, anunciou o nascimento de um grande príncipe que derrotaria os germanos em 1632. A profecia aparentemente se cumpriu na figura de Gustavo Adolfo, rei sueco que ficou conhecido como “Leão do Norte”. Também viu numa conjunção de Júpiter e Saturno no signo de Leão, em 1593, o anúncio de acontecimentos funestos. E, nesse ano houve uma violenta epidemia de peste. Acreditava que era possível um sistema empírico de astrologia e que “o céu atua não apenas sobre a atmosfera, mas também diretamente sobre o próprio homem”.

Fontes/Livros:
  • Arthur Koestler, “Os Sonâmbulos”, Ibrasa, 1959
  • Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
  • Encyclopaedia Universalis, Éditeur À Paris, 1990
  • Gérard de Séde, “O Estranho Mundo dos Profetas”, Hemus Ed., 1984
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Ed. Enc. Ltda.
  • Nouveau Larousse Illustré
  • Pascale Maby, “Profetas, Videntes e Astrólogos”, Publicações Europa-América, 1977
  • Robert Ambelain, “Os Arcanos Negros do Hitlerismo”, José Olímpio Ed., 1995
  • Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, “O Livro de Ouro do Universo”, Ediouro, 6a. Ed.
  • Rudolf Thiel, “E a Luz se Fez”, Ed. Melhoramentos
  • Serge Hutin, “História da Astrologia”, Edições 70, 1977
  • Serge Hutin, “A Tradição Alquímica”, Ed. Pensamento, 1983
  • Walter Galvâni, “Nau Capitânia”, Ed. Record, 2000
Fontes/Web:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.