Profetisas e adivinhos célebres

Texto de Bira Câmara, extraído do livro “Oráculos, Profecias e Adivinhação na Antiguidade”

Que diferenças existem entre Pitonisa e Sibila? A Pítia gozava de uma condição institucional, estava associada ao santuário de Delfos, enquanto a Sibila concedia uma adivinhação ocasional, independente, nômade. A Pítia era apenas o porta-voz do deus, respondendo a questões que lhe eram dirigidas, enquanto a Sibila falava na primeira pessoa, afirmando a originalidade de sua profecia e a natureza autônoma de suas respostas. A pitonisa era uma jovem (isto é, uma menina virgem), mas a Sibila geralmente uma velha. A Pítia apareceu na Grécia após a primeira Sibila (Herófile), enquanto as Sibilas vieram da Ásia Menor, no século VIII A.C. A pitonisa ficava inteiramente possuída quando estava em transe, enquanto a Sibila «predizia o futuro com lábios delirantes».

Alexandre, o Grande, consulta o oráculo de Delfos

Segundo a lenda, Herófile era filha de uma ninfa e de um pai mortal. Predisse que Tróia seria devastada pela culpa de uma mulher nascida em Esparta, e que resultou ser Helena. Existiram várias sibilas, em Claros, em Delos, em Samos. Uma delas pediu longa vida a Apolo, mas não se lembrou de lhe pedir juventude eterna; assim, à medida que passavam os anos, envelheceu e foi se encolhendo até ficar do tamanho de uma cigarra. Colocaram-na, então, numa gaiola e a suspenderam no teto do templo, em Cumas. Quando lhe perguntavam: «O que queres, Sibila?» ela respondia: «Quero morrer».

Outra lenda diz que a primeira sibila humana foi uma grega chamada Manto, nome derivado de mantéia (adivinhação). Ela herdou de seu pai, Tirésias, o dom da profecia. Vivia em Tebas e guiou o pai cego pelas estradas da Beócia até Delfos, mas ele morreu antes de chegar lá. Amada por Apolo e dedicada a seu serviço, permaneceu em Delfos, aperfeiçoando-se na arte da adivinhação e desempenhando o papel de Sibila. Apolo concedeu-lhe um favor, em agradecimento pelos seus serviços, então Manto apanhou um punhado de areia e pediu para viver tantos anos quantos os grãos de areia em sua mão. Apolo consentiu, mas como a adivinha se apaixonou por um mortal, castigou-a reduzindo seu tamanho a ponto de ela caber numa gaiola de pássaro.

Michelangelo, A Sibila Eritréia

As histórias dos personagens mitológicos têm, em sua grande maioria, mais de uma versão e ao longo do tempo sofreram acréscimos. Segundo a imaginação dos autores que as recontaram, vemos lendas de um determinado personagem ser atribuídas a outros, ou serem relatadas de forma diferente. Existiram várias sibilas, mas há divergências quanto aos nomes, origens e antiguidade das mesmas. Sem dúvida, a mais conhecida de todas foi a de Cumas, imortalizada pelos versos de Ovídio e Virgílio. De Cumas, a adivinhação délfica espalhou-se pela Itália, e todas essas adivinhas tiveram a fama de serem depositárias de uma sabedoria muito antiga.

Segundo alguns autores, dez sibilas foram consideradas as mais célebres; os primeiros escritores cristãos dizem que a mais antiga se chamava Sambeth, filha do patriarca Noé, atribuindo-lhe predições em versos ou frases cadenciadas a respeito da origem, sucessões e revoluções dos impérios, desde o dilúvio até o nascimento do Messias. A segunda é citada por Pausânias, sob o título de Sibila de Lesbos, Elisa, nascida de Júpiter e da ninfa Lâmia, filha de Netuno. A terceira, chamada Artemisa, filha de Apolo, era viajante por natureza e segundo tradições gregas nasceu quatrocentos anos antes da guerra de Tróia, e morou sucessivamente em Delfos, na Sicília, em Rodes, em Samos, na Eritréia e em Claros. A quarta, conhecida como Tessálica, foi Manto, filha de Tirésias. Em seguida vem a sibila Frigia, chamada Sarbis; depois Lampuse, de Colofon, filha do adivinho Calcas, que seguiu os gregos no cerco de Tróia; depois aparece Fito, a sibila de Samos, que foi seguida por Amaltéia, do Helesponto, contemporânea do famoso rei Creso; e por último, Hierófile, de Cumas, que segundo alguns autores foi a mais célebre de todas.

Cassandra, uma das mais célebres adivinhas da mitologia grega, teve um destino invulgar: condenada a ser desacreditada e considerada louca devido a um desentendimento com o deus Apolo, que a amaldiçoou. Personagem de destaque na Guerra de Troia, por alertar sua família e o povo sobre suas previsões de destruição, implorou ao seu pai, o rei Príamo, que destruísse o cavalo de madeira engendrado por Ulisses para a conquista de Troia. Como ninguém acreditou na sua profecia, Troia foi vencida e destruída pelos gregos.

A mitologia conta que Cassandra e o seu irmão gêmeo, Heleno, ainda crianças, foram brincar no Templo de Apolo, mas brincaram até ficar muito tarde para voltarem para casa, e por isso deram-lhes uma cama no interior do templo. Na manhã seguinte, enquanto ainda dormiam, duas serpentes passaram a língua pelas suas orelhas; como resultado desse incidente os ouvidos dos gêmeos tornaram-se tão sensíveis que passaram a escutar as vozes dos deuses. Cassandra tornou-se uma jovem de magnífica beleza, devota servidora de Apolo, e aconteceu que o próprio deus se apaixonou por ela e ensinou-lhe os segredos da profecia. No entanto, por se negar a dormir com Apolo, ele vingou-se lhe lançando a maldição de que ninguém jamais acreditaria nas suas profecias ou previsões.

Tiresias

Alguns adivinhos gozaram de enorme prestígio e até mesmo foram cultuados como deuses, como é o caso do lendário Tirésias. Outros, como Calcas, Anfíloco e Mopso, não só espalharam diversos oráculos pela Grécia como também fundaram algumas cidades.

Tirésias foi o mais célebre de todos os adivinhos gregos; a mitologia atribui-lhe uma origem divina: sua mãe teria sido a ninfa Cáriclo. Segundo a lenda, a deusa Atena o cegou quando, acidentalmente, viu-a nua no banho. Cáriclo, que era uma das companheiras favoritas da deusa, reprovou-lhe a crueldade para com o filho e suplicou-lhe que o perdoasse. Para seu consolo, Atena concedeu a Tirésias dons maravilhosos. Deu-lhe um bastão, com o qual ele podia dirigir-se para onde quisesse, tão bem como se pudesse enxergar. Além disso, purificou-lhe os ouvidos e ele adquiriu o maravilhoso dom de compreender a linguagem dos pássaros. E, por último, concedeu-lhe o dom de prever o futuro, prometendo conservar-lhe este poder até depois da morte.

Há outra versão para a cegueira de Tirésias: um dia, passeando no Monte Cilene, teria visto duas serpentes que se acasalavam. Separou-as e imediatamente foi metamorfoseado em mulher. Sete anos depois, passou pelo mesmo lugar e encontrou outro casal de serpentes na mesma situação. De novo separou-as com um pedaço de pau e voltou a ser homem. Essa aventura o tornou célebre e, um dia em que Zeus e a deusa Hera discutiam para saber quem tinha maior prazer no amor, se o homem ou a mulher, tiveram a ideia de ouvir sua opinião, pois ele já fora uma coisa e outra, e experimentara a dupla experiência. Tirésias respondeu que os prazeres do amor se constituíam na base de nove para um, a favor da mulher. Irritada por ver assim revelado o grande segredo do seu sexo, Hera castigou-o, destruindo-lhe a visão. Para compensá-lo pela perda, Zeus lhe concedeu o dom da profecia e o privilégio de viver durante o espaço de tempo de sete gerações humanas. Continuou a profetizar mesmo depois da morte, pois Zeus permitira-lhe conservar seus privilégios após a passagem para o Hades. Assim, na Odisseia, Ulisses desce aos Infernos para consultá-lo, depois de atravessar o país dos cimérios e ter invocado os mortos, a conselho de Circe.

“Oráculos, Profecias e Adivinhação na Antiguidade”, de Bira Câmara; 180 páginas, formato 13,5 X 20,5 cm., ilustrada.

Tirésias fundou uma linhagem de adivinhos ilustres: foi pai da adivinha Manto e avô do adivinho Mopso. Na cidade de Orcômeno havia um oráculo seu.

Calcas, adivinho de Micenas ou de Mégara, era o mais hábil do seu tempo na arte de interpretar o voo dos pássaros, ler o passado e o futuro. Como Tirésias, tinha ascendência divina: Testor, seu pai, era filho de Apolo, que lhe deu o dom da profecia. Foi o adivinho da expedição grega, na guerra contra Tróia e, junto com Ulisses, concebeu a artimanha do cavalo de madeira. Suas profecias e interpretações aparecem na Ilíada, a cada passo: entre outras predições adivinhou onde estava Aquiles, vestido de mulher, e profetizou que a guerra duraria dez anos. Segundo a lenda, juntou-se a outro adivinho, Anfíloco, levando consigo alguns heróis para Cólofon, na costa da Ásia Menor.

Um oráculo tinha anunciado que ele morreria no dia em que encontrasse um adivinho mais hábil do que ele. Conta-se que, em Cólofon, encontrou o adivinho Mopso. Perto da casa deste último havia uma figueira e Calcas perguntou-lhe quantos figos teria.

– Dez mil, uma medida e mais um figo – respondeu Mopso.

Foram verificar e constataram que a resposta estava certa. Logo depois viram uma porca prenhe.

– Quantos porquinho tem na barriga, e quando dará cria? – perguntou Mopso. A resposta de Calcas foi que seriam nove, mas Mopso o contradisse afirmando que a porca levava oito crias e não nove, todos machos, e que os teria no dia seguinte, na hora sexta. Mais uma vez Mopso acertou, o que causou um profundo desgosto em Calcas, que acabou morrendo de desgosto. Segundo outra versão dessa rivalidade entre os adivinhos, Calcas tinha plantado uma vinha num bosque sagrado de Apolo, perto de Mirina, na Eólida. Um profeta da região predisse que ele não beberia vinho ali. Passado algum tempo, durante uma festa, Calcas começou a rir da profecia, com o copo cheio de vinho novo. E riu com tanto gosto que engasgou e morreu sufocado…

A prodigiosa imaginação dos gregos conferiu até a um animal o dom da profecia. Os dois cavalos que puxavam o carro de Aquiles, Xanto e Bálio, tinham uma origem fabulosa: filhos da harpia Podargo e de Zéfiro, um vento impetuoso e funesto que produzia tempestades. Xanto, cujo nome significa o Alazão, não só podia falar como tinha o dom da profecia. Quando seu amo Aquiles resolveu voltar ao combate para vingar a morte do amante, Xanto lhe predisse a morte próxima, o que se consumou.

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