A Lua, Vênus (estrela Vésper) e as estrelas são temas recorrentes na produção poética através dos tempos.
Os poetas da antiguidade cantaram a Lua, mas o fizeram sobretudo para celebrar nela a divindade mitológica múltipla e diversa: Febe – chama noturna do mundo -, Diana – a caçadora -, Hécate – guardiã dos infernos -, Lucina – que ajuda as mães a pôr filhos no mundo.
Mas no século XVI, curiosamente, quando a astrologia estava incorporada a quase todas as áreas do conhecimento, poemas que tratassem da Lua e de suas influências eram muito raros. No século XVII eram mais raros ainda, como se tivesse acontecido um verdadeiro eclipse da Lua na literatura. A partir do século XVIII, principalmente na literatura francesa, essa temática cativou os poetas a tal ponto que poesias falando da Lua e das estrelas se tornaram cada vez mais comuns. Foi como se ela se levantasse de novo com um brilho inesperado sobre a poesia.
Quanto mais avançou o conhecimento científico nos séculos XIX e XX, mais o fascínio pelo astro da noite impressionou a imaginação dos poetas.

Hécate, a deusa grega das encruzilhadas; desenhada por Stephane Mallarmé em "Les Dieux Antiques, nouvelle mythologie illustrée"
Fez como a Lua formosa,
Que de formosa seduz;
Quando quer, também faceira
De repente esconde a luz.
-Acaso, José Maria Velho da Silva (1811-1901)
Nas horas mortas da noite
Como é doce meditar
Quando as estrelas cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a Lua majestosa
Surgindo linda e formosa
Como a donzela vaidosa
Nas águas vai se mirar.
-Casimiro de Abreu (1839-1860)
Que silêncio enorme!
Na piscina verde
Gorgoleja tépida
A água da carranca.
Só a lua se banha
- Lua gorda e branca -
Na piscina verde.
Como a Lua é branca!
-Manuel Bandeira
Ismália
-Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava perto do mar…E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
A Freira
-Junqueira Freire (1832-1855)
Qual no deserto se praz a rola,
Cuidam que a freira seja feliz.
E a pobre freira, dentro da cela,
Ninguém não sabe que se maldiz
……………………………………….
Conversa à noute coa estrela vésper,
Ama o opaco de seu clarão.
E sente chamas que julga dores,
E o peito aperta coa nívea mão.Ela não sabe que a estrela vésper
Influi nas almas lascivo ardor:
Que, não sem causa, no tempo antigo,
A estrela vésper chamou-se – Amor.A estrela vésper produz nas virgens
Estranho incêndio, vulcão fatal:
Quer seja freira – do Cristo filha,
Quer seja antiga pagã vestal.A estrela vésper… Fugi, meninas,
Fugi dos raios do seu candor.
A estrela vésper influi volúpia,
A estrela vésper chama-se – Amor.E a casta freira, coa mão na face,
Por longas horas demora ali.
E os tredos raios da estrela vésper
Ela inocente recebe em si.
………………………………………
Há certos raios da estrela vésper
Que são vampiros de argêntea cor:
De nossos lábios – com vítreos beijos -
Extraem, sugam todo o rubor.Aos mornos raios da estrela vésper
Minha inocência toda perdi.
Mas a inocência, que sai da infância,
Ai! Não se perde somente ali!A estrela vésper, ânfora solta,
Bóia de prata em mar de anil,
Clama incansável – Amai, donzelas, -
E as fibras lavra flama sutil.
Plenilúnio
-Augusto dos Anjos (1884-1913)
Desmaia o plenilúnio. A gaze pálida
Que lhe serve de alvíssimo sudário
Respira essências raras, toda cálida
Mística essência desse alampadário.E a lua é como um pálido sacrário,
Onde as almas das virgens em crisálida
De seios alvos e de fronte pálida,
Derramam a urna dum perfume vário.Voga a lua na etérea imensidade!
Ela, eterna noctâmbula do Amor,
Eu, noctâmbulo da Dor e da Saudade.Ah! Como a branca e merencória lua,
Também envolta num sudário – a Dor,
Minh’alma triste pelos céus flutua!
Ao Luar
-Augusto dos Anjos (1884-1913)
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!
“O Eclipse”
António Nobre (1867-1900)
Naquela tarde eu contemplava, ansioso,
A lua das marés:
Ia ver um fenómeno curioso,
Pela primeira vez.
Desde as sete horas que eu me achava pronto,
Pois vinha no jornal
Que se daria, às sete e meia em ponto,
O eclipse total.E a lua, a pouco e pouco desmaiando,
Sumia-se no ar,
Como se um monstro a fosse devorando,
Na sombra… devagar…Um moço poeta, rouxinol das praias,
Um óculo ofereceu,
A ti, meu casto Ptolomeu de saias,
Geómetra do céu!Ah, bem dizem as lendas, os adágios,
E as bruxas do Sabá,
Que os eclipses da lua são presságios,
Sinais de coisa má!
Lua
(Cruz e Souza/ BROQUÉIS)
Clâmides frescas, de brancuras frias,
Finíssimas dalmáticas de neve
Vestem as longas árvores sombrias,
Surgindo a Lua nebulosa e leve…
Névoas e névoas frígidas ondulam…
Alagam lácteos e fulgentes rios
Que na enluarada refração tremulam
Dentre fosforescências, calafrios…
E ondulam névoas, cetinosas rendas
De virginais, de prônubas alvuras…
Vagam baladas e visões e lendas
No flórido noivado das Alturas…
E fria, fluente, frouxa claridade
Flutua como as brumas de um letargo…
E erra no espaço, em toda a imensidade,
Um sonho doente, cilicioso, amargo…
Da vastidão dos páramos serenos,
Das siderais abóbadas cerúleas
Cai a luz em antífonas, em trenos,
Em misticismos, orações e dúlias…
E entre os marfins e as pratas diluídas
Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,
Com grinaldas de roxas margaridas
Vagam as Virgens de cismares ermos…
Cabelos torrenciais e dolorosos
Bóiam nas ondas dos etéreos gelos.
E os corpos passam níveos, luminosos,
Nas ondas do luar e dos cabelos…
Vagam sombras gentis de mortas, vagam
Em grandes procissões, em grandes alas,
Dentre as auréolas, os clarões que alagam,
Opulências de pérolas e opalas.
E a Lua vai clorótica fulgindo
Nos seus alperces etereais e brancos,
A luz gelada e pálida diluindo
Das serranias pelos largos flancos…
Ó Lua das magnólias e dos lírios!
Geleira sideral entre as geleiras!
Tens a tristeza mórbida dos círios
E a lividez da chama das poncheiras!
Quando ressurges, quando brilhas e amas,
Quando de luzes a amplidão constelas,
Com os fulgores glaciais que tu derramas
Dás febre e frio, dás nevrose, gelas…
A tua dor cristalizou-se outrora
Na dor profunda mais dilacerada
E das dores estranhas, ó Astro, agora,
És a suprema Dor cristalizada!…
Tristesse de la lune
(LES FLEURS DU MAL / Charles Pierre Baudelaire)
Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu’une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d’une main distraite et légère caresse,
Avant de s’endormir, le contour de ses seins,Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l’azur comme des floraisons.Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d’opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.……………..
Tristeza da lua
À noite, a lua sonha com mais indolência;
Assim como uma bela que, sobre o divã,
Afaga com a mão, de leveza a inconsciência,
Antes de adormecer, os seios de maçã.No dorso de cetim de tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longas lassidões,
E vai passeando o olhar por visionárias manchas
Que sobem pelo azul iguais a florações.Se às vezes sobre o globo, entre ociosa e lasciva,
Ela deixa tombar a lágrima furtiva,
Inimigo do sono, um poeta enfim de rastros,No côncavo das mãos procura aprisioná-la,
E vendo-a, refulgir como um grão de opala,
Põe-na no coração, longe do olhar dos astros.(tradução de Pietro Nassetti)
SHAKESPEARE:
Isto é um erro da Lua;
Ela se aproxima mais da Terra do que era seu hábito,
E enlouquece aos homens.”
……………………………………………………………
Insuportável peso desta hora!
Devia haver, parece, um grande eclipse
Do Sol e da Lua, e que o globo atônito
Devia abrir a boca ante o havido.
*
Shakespeare, “Otelo”, V, ii, 109-11“Pois nós, que batemos carteiras, nos guiamos pela lua e as sete estrelas, e não por Febo, aquele ‘lindo cavaleiro errante’… Pela Virgem, então, meu doce moleque, quando fores rei, não deixes que nós, escudeiros do corpo da noite, sejamos chamados de ladrões da beleza do dia: deixa que sejamos os guardas-florestais de Diana, cavalheiros da sombra, favoritos da lua; e que os homens digam que somos homens de bom governo, sendo nós governados como o mar por nossa casta ama, a lua, sob cujo auspício nós roubamos.”
-Shakespeare, “Henrique IV”, parte I, 1, ii, 15-43
Sou lunar
Yara Câmara
Sou feliz, ao nascer do sol tenho meu sorriso iluminado
Às nove choro pela cena do comercial… inconsolável
Logo em seguida sou fúria
Ira sem motivos
Agora sou toda amor, envolvo em meus braços o mundo desprotegido
Sou lunar
A menina, a filha,
Mãe, mulher,
Sou deusa, sou feiticeira, lâmina… ardente, noturna
Tão volúvel, te odeio, te quero
O fel, o mel, o cálice
Ronronando entre lençóis, movendo-me graciosamente
Todos meus humores não te assustam
Minha lua negra só você conhece
Esculpida em gelo, derreterei ao seu toque
Que drama!
Sou terra
Sou fogo
Ar
Água
Cria de Lilith
Tempestade numa tarde abafada
Enebriada com seu cheiro, sou pecadora
Você é tentação
Decotes que escondem tão suaves contornos
Não existe amanhã nem ontem…
…tudo é hoje eterno
Membros me envolvem com olhos verdes, negros, azuis, castanhos
Sou toda poesia, descortinando os véus que cobrem pudores
Sou toda mulher, tão menina…obscena
Sou pura, inocente de qualquer crime
Não conheço malícia
O sabor de teus lábios que ainda não provei
Sou a maçã, tão doce fruto que te alimentará
Quem tem fome sou eu
A dor, a cura; sou a insônia, o acalanto
Sacerdotisa, sou sábia; ninfa, sou fútil
Sou infantil, a pirralha mal comportada
Tão obediente, serena
Sou adulta, madura que com erros aprende,
mas não deixa de cometê-los
Sou rio perene para te banhar
A espada que protege
O enigma por decifrar
Sou rua esburacada, vem preencher minhas lacunas
Sou a teia prateada a te prender
Sou doce, tranqüila
O chicote é só fetiche, não tema
Sou abismo profundo, no qual deve mergulhar
Águas rasas, seguras, deve confiar
Sou dominadora
Ciumenta, não quero dividir
Eu quero você só para mim
Sou delicada flor, a exalar perfumes
Pereço ao ser extraída sem cuidados
Sou como a maré
A lua é quem me governa, sou lunar…









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