O astrólogo português que escapou da Inquisição e acabou amigo do papa

Na obra História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (Livros V e VI), Alexandre Herculano fala do processo do astrólogo Aires Vaz, médico do Paço imperial, de origem hebraica, que fizera predições à rainha D. Catarina e ao rei D. João III. Entre outras coisas, por ocasião de um eclipse, profetizara a morte de um príncipe, e esta realizou-se no filho mais velho do rei, D. Felipe, falecido em 29 de abril de 1539, com seis anos de idade.

Como ficou mal visto por esta triste predição, anunciou ao rei novos vaticínios mais auspiciosos, embora fazendo a ressalva de que “as ilações tiradas do aspecto dos astros não tinham absoluta certeza” pois os desígnios de Deus eram inescrutáveis e muitas vezes anulavam as influências dos astros… Achava o astrólogo que, com esta desculpa, os vaticínios astrológicos poderiam ser considerados devaneios, porém jamais impiedade. Mas uma cópia destas predições foi parar na mão do inquisidor, que o intimou a comparecer ao tribunal da fé, acusado de heresia.

O astrólogo apresentou-se ao tribunal munido de livros para demonstrar os fundamentos científicos de seus vaticínios e a ortodoxia de suas opiniões aos teólogos que haveriam de julgá-lo. Mas Aires Vaz contava com a amizade e proteção do emissário de papa, que interrompeu a solenidade avocando para si o julgamento daquela causa. Assim, o astrólogo viu frustrada sua intenção de dar uma lição aos teólogos, o que foi providencial, pois a junta de doutores já tinha considerado de antemão seus escritos como heréticos. A iniciativa do núncio do papa desautorizando os inquisidores portugueses desagradou o rei, que escreveu uma carta ao seu ministro em Roma, exigindo o desagravo aos seus padres e a retirada do núncio, acusando-o também de corrupção e conduta imoral em Lisboa.

Preso, o pobre astrólogo viu-se no centro de uma acirrada disputa política entre os magistrados portugueses, apoiados por D. João III, e o enviado do papa. Finalmente, a Inquisição teve o descuido de permitir que Aires Vaz fosse justificar-se em Roma e lá, o astrólogo achou em Paulo III um adepto da astrologia. Em pouco tempo o hebreu e o papa tornaram-se amigos, aproximados pela identidade de estudos e opiniões. O pontífice fez Aires seu “clérigo, familiar e comensal”, e para mostrar o apreço que tinha por ele expediu uma bula que o deixava fora da jurisdição dos inquisidores, bem como todos os seus parentes e advogados que o tinham defendido em Lisboa perante o tribunal da fé.

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