O astrólogo do califa al-Mamoun

Faddel ben-Sahal, primeiro vizir do califa al-Mamoun (786-833), gozava de tal consideração desse monarca, que recebeu o título eminente de Doul-riassatéh (possuidor de dois comandos): este título designava o duplo poder que recebera graças a confiança que o califa depositava nele, colocando-o na chefia de todos os negócios do império, tanto civis como militares.

Faddel estava a serviço de al-Mamoun há muito tempo, antes mesmo que este príncipe chegasse ao califado, e conquistara as boas graças de seu patrão não sómente pela sua constante fidelidade, mas também pelos seus admiráveis conhecimentos astronômicos e astrológicos.

astrologo-arabe2Gebrayl el-Bakhtissoua, médico cristão do califa admitido em seu círculo íntimo, registrou para a posteridade uma anedota que ouviu do próprio al-Mamoun e que comprova uma de suas mais extraordinárias predições:

Quando al-Mamoun ainda era apenas vizir e vivia na província de Khorassan, seu irmão – el-Amyn (que sucedera a seu pai, Haroun el-Rachyd), desenvolvera uma violenta inveja contra ele, por causa da autoridade absoluta e da independência que o testamento paterno lhe concedera sobre esta região.

El-Amyn chegou a ponto de se deixar convencer pelos seus ministros a enviar um exército para Khorassan, para capturá-lo.

Ao saber disso, al-Mamoun reuniu às pressas as poucas tropas que tinha à sua disposição e confiou o seu comando a Thaer ben-Hous Sayn, que ficou encarregado de ir combater Issa ben-Aly, o general enviado pelo seu irmão, cujas forças consideráveis o ameaçavam. Para pagar o reduzido exército, que marcharia sob as ordens de Taher, al-Mamoun esgotou os cofres de seu tesouro.

Tão logo o exército deixou a cidade, as tropas que ficaram encarregadas de proteger o palácio exigiram receber os salários atrasados, e acharam uma injustiça para com eles a recusa do pagamento.

O descontentamento e os boatos aumentaram, e, como a penúria absoluta impedia al-Mamoun de satisfazê-los, um motim não demorou a estourar. E foi seguido, pouco tempo depois, pela revolta geral de todos os seus soldados, que pegaram em armas e sitiaram o palácio onde ele residia, na cidade de Merou.

Os revoltosos não falavam de outra coisa a não ser em aprisioná-lo, colocá-lo a ferros e entregá-lo ao ressentimento e à injusta vingança de seu irmão el-Amyn.

As portas do palácio estavam cuidadosamente fechadas, mas a qualquer instante poderiam ser forçadas pelo furor dos rebeldes; a liberdade e a própria vida de al-Mamoun corriam riscos que pareciam inevitáveis.

Assim, tomado pela perplexidade e pelos temores mais extremos, o vizir consultou Faddel ben-Sahal, que tinha toda a sua confiança e pediu-lhe conselho quanto ao que fazer nesta circunstância dramática.

Depois de consultar seus livros e seus instrumentos de astronomia, o astrólogo disse-lhe:

– Meu príncipe, a única coisa que vós podereis fazer é subirdes ao mais alto terraço de vosso palácio, e passear os olhos sobre as vastas planícies que o horizonte descortina diante de vós.

– Como! – exclamou al-Mamoun –, que relação pode haver entre esse espetáculo e a revolta que me assedia de todas as partes? Meus olhos, admirando a paisagem, teriam o poder de fascinar os rebeldes, de reduzí-los à inércia e de me livrar de seus ataques? Meus olhos fariam chover das nuvens o dinheiro necessário para pagar minhas tropas descontentes e apaziguar o seu furor?

O vizir chegou a suspeitar que o astrólogo, que sempre gozara de sua total confiança, era cúmplice secreto da traição e da revolta.

– Meu príncipe – respondeu tranquilamente Fadel –, tudo o que tendes a fazer é subir; meus livros e meus cálculos astronômicos me dizem que se fizerdes isso, descereis califa.

Mesmo sem acreditar nisso e achando esse conselho quase um pérfido gracejo, al-Mamoun subiu ao ponto mais alto do seu palácio e ali ficou, a correr os olhos inquietos pelas campinas imensas que se abriam diante dele ao longe.

Entretanto, os clamores sediciosos redobraram e, do ponto elevado onde estava, podia ouví-los cada vez mais fortes. Esteve a ponto de descer e ir de encontro aos soldados amotinados para tentar acalmá-los por meio de exortações e promessas; mas acabou ficando no seu posto, retido por uma espécie de vaga e impensada confiança nas predições favoráveis do astrólogo, que sempre lhe dera provas de uma fidelidade inquebrantável. Fadel, por seu lado, o seguia, impedindo que descesse do terraço elevado.

Enquanto o vizir se torturava por uma cruel ansiedade, perto dele, tranquilo, o astrólogo fazia seus cálculos e usava seus instrumentos astronômicos para percorrer todos os pontos do céu, anotando com uma atenção minuciosa cada uma de suas observações sobre as posições e curso dos astros.

Mas os gritos aumentavam ainda mais: os soldados furiosos ameaçavam incendiar o palácio, se as portas não fossem abertas. Suas insolentes vociferações prometiam morte certa a quem ousasse resistir-lhes ao ataque.

Mamoun queria definitivamente descer e Fadel empenhou todos os esforços para detê-lo.

– Meu príncipe – dizia-lhe –, esperai somente mais uma hora; aposto a minha cabeça que depois disso vós reconhecereis a veracidade de minhas promessas.

O vizir cedeu e aguardou, impaciente, que o tempo passasse. E não chegou a passar uma hora, quando o astrólogo – deixando de lado seus papéis e instrumentos – aproximou-se do seu amo e perguntou-lhe se não percebia nada na planície.

– Vejo – respondeu o vizir –, um pouco de poeira levantada pelo vento. – Então um brilho de confiança e alegria assomou na face de Fadel.

Logo depois, a poeira pareceu transformar-se num turbilhão que se aproximava rapídamente, e cuja massa aumentava cada vez mais. Em seguida, podia se ver através dela, como se fosse uma espécie de véu, o brilho de armas resplandecentes: logo tornou-se visível uma numerosa tropa de cavalaria e à testa dos cavaleiros que apressavam seu galope, o vizir identificou o seu general Thaer e Issa ben-Aly, general das tropas de seu irmão.

Os soldados amotinados afastaram-se para dar passagem aos recém-chegados e Taher subiu rapidamente com Issa ben-Aly ao terraço onde o vizir ainda estava na companhia do seu astrólogo.

Foi informado, então, que as tropas deste último general e ele próprio tinham abraçado espontaneamente o seu partido, e juntaram-se ao seu exército. Renunciaram à autoridade de el-Amyn, seu irmão, e vinham para se submeter à sua bandeira e serem os primeiros a prestar-lhe juramento de fidelidade e proclamá-lo califa!

Diante dessas felizes notícias a revolta foi apaziguada e Al-Mamoun desceu do terraço aonde subira como vizir para descer como califa, segundo a predição rigorosamente exata de Faddel.

Fonte:
Les dix soirées malheureuses.
Tome 3, Contes d’Abd-Errahmann, traduits de l’arabe d’après un manuscrit du cheykh el-Mohdy, par J.-J. Marcel, – J. Renouard (Paris) – 1829

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