Morin de Villefranche, o último Astrólogo Real da França

Segundo o estudioso argentino Dr. Carlos Raitzin, como astrólogo “o maior mérito de Morin e um dos seus mais consideráveis êxitos foi reconstituir os restos deformados de uma venerável Tradição Astrológica que ele recebeu exatamente na forma que correspondia, separando com tanto gênio e precisão o joio do trigo. Os excessos fantasistas dos árabes haviam desembocado na Idade Média européia com uma Astrologia grotescamente ‘enriquecida’ de quantos elementos imaginários se poderia imaginar.”

Médico, filósofo, matemático e astrólogo, Jean-Baptiste Morin de Villefranche nasceu em 23 de fevereiro de 1583 em Villefranche, Beaujolais (França). Sua vida se tornou uma lenda com o correr dos séculos. Estudou filosofia em Aix em 1609, mudando-se dois anos depois para Avignon, onde fez o curso de medicina e recebeu o título de médico em 1613.

Como Jerônimo Cardan, outro astrólogo célebre, Morin teve uma vida difícil. Já aos doze anos começam para ele as provações severas, pois seu pai adoeceu gravemente e sua mãe morreu de parto, não sem antes negar-lhe a benção póstuma e deserdá-lo por completo por uma questão fútil. Dos 16 aos 46 anos, a vida de Morin, segundo suas palavras, foi uma verdadeira “escravidão permanente”. Durante este período, teve de servir a dezesseis patrões sucessivos, dos quais teve de se afastar, e sofreu prejuízos por causa deles. Alguns teve de deixar por não suportar o orgulho de suas esposas (no seu mapa astral, Vênus e Lua na casa XII anunciam males provenientes de mulheres). Deixou outros por ‘circunstâncias imprevisíveis’, segundo suas palavras (Urano na casa XI e regente desta casa, não poderia deixar de ocasionar bruscas mudanças em sua atividade profissional e também na atitude de seus amigos). Esta escravidão de trinta anos não é mais que a conseqüência da concentração de planetas nesse “vale de misérias” que é a casa XII, para usar a exata e amarga expressão de Morin.

Na sua autobiografia, Morin observou que alguns de seus patrões foram plebeus (notários, procuradores e escrivães) devido a Lua e Saturno. Outros eram de condição mediana (funcionários, abades e bispos) graças a Júpiter. Durante os anos de 1614 a 1621 Morin trabalhou para o Bispo de Bolonha, Claude Dormy, residente em Paris como médico e empregado, e foi enviado para a Alemanha, Hungria e Transilvânia com a tarefa principal de visitar minas e fazer estudos de metais. Mas foi a sua habilidade na astrologia que despertou o interesse do Bispo. Outros patrões, por causa do Sol, eram grandes figuras do Reino, como o Duque de Effiat e o Duque de Luxemburgo, e também o Duque de Desdiguieres, ao qual Morin salvou a vida como médico. A “formidável ingratidão” deste último obrigou Morin a abandoná-lo não sem antes predizer sua morte dentro de dois anos, fato que se cumpriu com a maior exatidão.

Durante o período em que trabalhou para o Duque de Luxemburgo, até 1629, Morin publicou uma defesa de Aristóteles (1624) e também realizou pesquisas em ótica. Porém a astrologia continuou sendo o seu principal objeto de estudo, embora tenha trabalhado com Gassendi em observações astronômicas.

Boa parte das desgraças de Morin, como ele mesmo confessa, tiveram origem em seu caráter vingativo, litigioso, e em seu temperamento lascivo. Que estas palavras não sirvam para rebaixar a figura do insígne Doutor e Mestre, Professor de Astrologia, Matemática e Medicina do Colégio de França, polígrafo ilustre e filósofo eminente. Pelo contrário, devem servir para apreciarmos ainda mais sua objetividade científica, que não vacilava nem mesmo em confessar as próprias fraquezas. Apesar disto, Morin foi sempre um homem ardentemente religioso e dizia que “só a Bondade da Providência pôde salvá-lo de tantas atribulações”. Sofreu ameaças de prisão e de emboscadas, o ódio de seus patrões, entre eles um Cardeal e um Duque Marechal da França, além da pobreza, enfermidades, prejuízos vários, infortúnios e perigos mortais múltiplos. Tudo isto foi particularmente notável dos 21 aos 37 anos de idade.

INGRATIDÃO DOS PODEROSOS

Além de confidente de Richelieu e de Mazzarin, escreveu um volumoso tratado póstumo em latim, Astrologia Gallica, consultado até hoje por astrólogos profissionais. Esta obra, escrita em 26 tomos, permitiu ao conhecimento astrológico sobreviver como ciência. Adof Weiss, um astrólogo do século XX, escreveu sua “Astrologia Racional” baseando-se inteiramente no trabalho de Morin.

Os seus detratores dizem que ele teve de se esconder atrás das cortinas no aposento onde Ana da Áustria deu à luz Luís XIV, o futuro Rei-Sol, para fazer-lhe o horóscopo, devido ao descrédito que a astrologia já experimentava na época. Mas a verdade é que ele foi introduzido ali por Richelieu com o objetivo de estabelecer com a maior exatidão possível o tema natal do herdeiro da coroa da França. A criança foi batizada com o nome de Louis-Dieudonné, Luís dado por Deus, pelo fato de nascer quando seus pais completavam vinte e três anos de casamento real. Segundo as más línguas, a escolha do nome era mais do que justa, pois o seu pai oficial, Luís XIII, tinha muito pouco interesse pelo sexo oposto… Aliás, este soberano jamais iniciava um novo caso amoroso nem tomava decisões importantes sem consultar o seu médico-quiromante Cureau de la Chambre, membro da Academia Francesa e protegido de Richelieu.

Morin despertou a atenção do cardeal Richelieu por causa de uma predição que fez ao Duque d’Effiat, favorito de Luis XIII. O duque o havia consultado sobre seu destino, humilhando-o com seu orgulho e altivez, razão pela qual não vacilou em anunciar-lhe morte violenta e desonrosa. Este fidalgo tinha na casa VIII de seu horóscopo Júpiter, Sol e Marte, que poderiam sugerir a um novato a previsão de morte heróica na guerra. Quando d’Effiat comentou este augúrio com olímpico desprezo durante um banquete todos riram, menos Richelieu, severo e calmo como sempre. Três anos mais tarde os fatos aconteceram como Morin havia predito. Richelieu lembrou-se da predição de Morin e contratou seus serviços. A história, sem dúvida, é mais complicada na realidade: por ordem do Rei, o próprio Cardeal mandou decapitar d’Effiat e de Thou por conspiração contra ele (em 1643). Mas como Morin nada sabia então das maquinações do astuto Cardeal, o mérito de tão surpreendente predição lhe pertence na íntegra.

O acerto dos horóscopos de Morin fez com que todas as portas se abrissem para ele. Richelieu o consultava freqüentemente e o secretário de estado, Chavigny, não tomava nenhuma decisão importante antes de ouvi-lo. Acertou várias previsões, como a morte do escudeiro do rei, que pereceu decapitado; a morte de Richelieu com dez horas de antecedência e a de Luis XIII, com erro de seis dias.

Graças ao apoio da rainha Maria de Médicis, e não sem muito esforços de sua parte, em 1630 Morin foi designado para o cargo de Professor de Matemática do Colégio Real, cargo que ocupou até a sua morte. Além disso recebeu a soma de 4.000 libras provenientes de alguns mecenas para editar suas obras. Durante esse tempo atacou Galileu e as suas teorias, firmemente convicto de que a Terra era fixa no espaço. Por volta de 1638 sustentou outra polêmica, desta vez com Descartes, criticando violentamente a sua filosofía, o que desde então lhe valeu uma nova quota de inimizades e o distanciamento de certos círculos acadêmicos.

Apesar das muitas lutas contra seus inimigos, Morin conseguiu impôr um de seus grandes descobrimentos, a medição de longitudes geográficas empregando técnicas astronômicas. Por isto foi contemplado com um prêmio e uma pensão, mas teve de esperar até depois da morte de Richelieu, pois o sinistro Cardeal, afastado de Morin, fêz em vida o quanto pôde para privá-lo de uma honra tão merecida. Somente em 1645, graças ao Cardeal Mazarin, sucessor de Richelieu, é que pode gozar o seu prêmio.

Passou o fim de sua vida isolado dos outros cientistas e, com a sua morte em 6 de novembro de 1656 extinguiu-se o cargo de Astrólogo Real na França. Quinze dias antes, ainda com saúde, encontrou-se com uma quiromante que anunciou-lhe sua morte próxima. Sem perturbar-se, apenas comentou que já sabia disso e que o mês seguinte lhe seria irremediavelmente fatal. Nove dias mais tarde a febre o devorava. Os médicos desesperavam-se para salvá-lo, enquanto Morin sorridente pedia-lhes que não se preocupassem, pois ele já havia antevisto sua morte nos astros…

BIBLIOGRAFIA:
  • Adof Weiss, “Astrologia Racional”, Editorial Kier, Buenos Aires, 1979
  • Derek e Julia Parker, “O Grande Livro da Astrologia”, Círculo do Livro
  • Elizabeth Teissier, “O Significado da Astrologia”, Livraria Bertrand, 1979
  • Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
  • Encyclopaedia Universalis, Éditeur À Paris, 1990
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Ed. Enc. Ltda.
  • John Anthony West e Jan Gerhard Toonder, “A Astrologia, História e Julgamento”, Ed. Artenova S.A., 1974
  • Serge Hutin, “História da Astrologia”, Edições 70, 1977
WEB:
  • Dr. Carlos Raitzin, Morin de Villefranche y la Teoría de las Determinaciones Astrológicas, http://cura.free.fr/

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