Michael Scot, um astrólogo lendário

Michael Scot, astrólogo, monge, médico, mate­mático, astrônomo, pintor e alquimista nascido no fim do século XII, é uma das figuras mais fascinantes da história da astrologia. Chamado de “o Mago do Norte”, muitos historiadores o consideram o primeiro cientista da Escócia. Scot foi tão famoso que se tornou uma lenda, como outro monge, Roger Bacon, um homem de ciência como ele; sua biografia como a de Bacon, perdeu-se nas brumas do mito e da lenda após sua morte. Em 1385, Bacon disse ser capaz de materializar uma ponte acima do ar para atravessar um rio. No século anterior, Scot afirmou ter dividido os Montes Eildon, na Escócia!

Não só pela aura de mistério que cerca sua biografia, mas também pelos feitos que lhe são atribuídos, sua fama de mago-astrólogo impregnou o imaginário popular ao longo do tempo e tem inspirado até hoje personagens de ficção (1). O mistério começa já na sua origem: não se sabe se era escocês, irlandês ou francês e não se possui nenhum dado a respeito da data de seu nascimento. Em 1236, a obra de um poeta ligado à corte do Imperador Frederico II, na Sicilia, menciona sua morte. É tudo que se sabe dele.

Acredita-se que Michael Scot tenha estudado em Oxford e na Universidade de Paris. Depois de concluir seus estudos, excursionou por outros centros de aprendizagem. Após chegar em Toledo, na Espanha, na primeira década do século XIII, acumulou conhecimento suficiente da língua árabe para traduzir obras de Aristóteles do árabe para o latim. Essas traduções foram transmitidas para Oxford e outras universidades, onde eram desconhecidas, pois tinham sido perdidas durante séculos. Em seguida, ele foi à Sicília e se tornou conhecido nos círculos papais. Trabalhou para Honorio III e Gregorio IX.

Entre os anos de 1217 e 1236 adquiriu uma grande reputação de mago. Tinha um magnetismo tão impressionante que em sua presença as coisas pareciam diferentes do ordinário. Dizia-se até que as torres de Notre-Dame se punham a tremer quando ele chegava a Paris.

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Túmulo de Scot, na Abadia de Melrose

Durante sua estadia em Toledo, traduziu do árabe o tratado de Al Bitrogi sobre a esfera. De 1220 a 1227, esteve a serviço do papa. Em maio de 1224, logo após tornar-se sacerdote, este lhe propôs o arcebispado de Cashel, na Irlanda, mas Scot recusou e se tornou preceptor, astrólogo pes­soal e eminência parda do imperador da Alemanha Frederico II de Hohens­taufen, na sua corte de Palermo, na Sicília. Em abril de 1227, o papa Gregório IX recomendou ao arcebispo de Canterbury que concedesse uma bolsa a Michael Scot. “Sua erudição é prodigiosa e conhece todas as línguas, em particular o hebreu e o árabe.”

Frederico II e Michael Scot tiveram uma relação íntima. Embora o imperador tenha sido excomungado duas vezes e uma bula do Papa o declarasse Anticristo, era um homem muito educado, falava nove idiomas e instruído em sete – coisa incomum em qualquer época e mais incomum para um nobre – em qualquer tempo. Além disso, era um protetor da ciência, o que deve ter atraído Scot para a sua corte, como também outro astrólogo famoso: Guido Bonatti.

Michael passou parte de sua vida na Sicília, então verdadeira encruzilhada entre várias culturas, perto do norte da Àfrica e aberta às influências árabes e judias. Parte de sua reputação como bruxo e herege, deve-se a sua paixão pela cultura oriental e árabe. Quando viveu em Toledo, vestia-se como um árabe e isso, numa época xenofóbica, atraiu muitas antipatias. A influência de Scot na corte de Frederico II solidificou-se depois que predisse com acerto o desfecho da guerra com a Liga da Lombardia, baseado na astrologia. Também gozava de sólida reputação como médico e curou o imperador de várias doenças. Muitas dessas curas eram atribuídas à magia.

Perto do final de sua vida, Scot parece ter assumido o papel de profeta, predizendo em verso o destino de algumas cidades italianas, ao estilo de Nostradamus.

Santo Alberto Magno deve a ele seus conheci­mentos astrológicos. Verdadeira enciclopédia ambulante, além de traduzir Aristóteles, redigiu um compêndio de todos os conhe­cimentos secretos no domínio do ocultismo e sobre assuntos perigosos. O seu Liber Perditionis Animae et Corporis, contém os nomes, localiza os antros e situa os poderes do demônio… Sua notável erudição abrangia também a zoo­logia e a botânica, tinha extraordinário poder magnético e fazia trabalhos de feitiçaria. Dizia-se que mantinha comu­nicação com os poderes infernais e invocou a sombra de Averrois para obter esclarecimentos de algumas de suas obras. Também atribui-se a ele curas importantes de lepra e da hidropisia, graças ao uso da medicina oculta.

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O imperador Frederico II

Na corte de Frederico ocupava o primeiro lugar e as crônicas da época falam que fazia aparecer iguarias do nada sobre a mesa vazia, provocava chuvas artificiais e tinha talento profético. Sobre a morte do imperador, Michael havia feito a seguinte profecia: “Sob a flor e perto de uma porta de ferro cumprem-se as predições do oráculo”. Por causa disso, o soberano evitou Florença a vida toda, mas acabou morrendo num castelo cujo nome era Castel fiorentino, ao lado de uma tapeçaria que tinha sido colocada para ocultar uma porta de ferro…  Conta-se que antes de morrer, ao descobrir esses detalhes do local onde se encontrava, o imperador refletiu por alguns instantes e disse suas últimas palavras: “Este é o local onde deverei terminar os meus dias, como ele me disse. Seja feita a vontade de Deus” E, logo em seguida, morreu.

Michael teria predito a sua própria morte numa igreja e acabou morrendo na Escócia, quando rezava numa capela e uma parede desabou, esmagando-o. Segundo outra versão, Scot previra que morreria por causa da queda de uma pedra. Chegou até a calcular a sua dimensão e peso. Para se proteger, o monge costumava usar um gorro de ferro o tempo todo. Mas, um dia, ao entrar numa velha igreja para assistir a uma missa, ajoelhou-se e o tirou. Pouco depois, um pequeno seixo caiu de uma das torres do templo e acertou-lhe a cabeça. Por causa disso adoeceu e veio a morrer em 1235.

Graças a Walter Scott, acredita-se que Michael foi enterrado na Abadia de Melrose, onde há uma cruz dedicada a ele e, também, uma estátua cuja figura está coberta por um turbante.

As lendas de Scot

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Os Montes Eildon, na Escócia,que segundo a lenda foram separados pelo “mago” Scot

Nenhum outro astrólogo superou Scot quanto à fama de mago, nem teve semelhante aura de mistério em torno de sua figura. Freqüentemente chamado de “o mais renomado e temido feiticeiro e alquimista do século XIII”, as lendas e histórias sobre ele são abundantes. Walter Scott inspirou-se no astrólogo para compor a obra em verso The Lay of Minstrel (Canção do Último Trovador) e reivindicou parentesco com seu homônimo.

Várias histórias que contam as realizações mágicas de Scot podem ser explicadas à luz do conhecimento moderno como resultado de poderes hipnóticos altamente desen­volvidos. Um cronista florentino nos preservou uma destas anedotas:

Certa vez os convidados de Scot para um jantar pediram-lhe que mostrasse uma nova maravilha. O mês era janeiro e, apesar da estação, ele fez aparecer vinhas com brotos frescos e uvas maduras na mesa. A cada um dos comensais foi sugerido escolher um cacho, mas o anfitrião os advertiu a não começar a comer antes que ele desse o sinal. Então o mago disse uma palavra mágica que fez as uvas desaparecerem e os convidados se acharam cada um com uma faca na mão, e na outra a manga do seu vizinho.

Outra história de caráter semelhante é contada sobre um banquete dado pelo impe­rador para celebrar a sua coroação em Roma, que aconteceu em 22 de novembro de 1220. Os pajens ainda estavam de pé com jarros e bacias de água perfumada e toalhas bordadas, quando de repente Michael Scot apareceu com um companheiro, ambos vestidos com batas orientais, e se propôs a mostrar para os convidados uma nova maravilha. O tempo estava opressivamente quente e Frederico lhe pediu que fizesse chover um pouco para refrescá-los. Isto o mágico fez adequadamente, produzindo uma grande tempestade que desapareceu de repente, para a satisfação de todos. O imperador quis recompensá-lo e, então, Scot pediu licença para escolher alguém da corte para ser o seu campeão e aliado contra seus inimigos, o que lhe foi concedido de bom grado. Sua escolha caiu sobre Ulfo, um barão alemão. Eles partiram imediatamente para uma expedição e deixaram a costa da Sicília em duas grandes galeras, com um poderoso séquito de homens armados. Velejaram pelo Golfo de Lyon, passaram pelos Pilares de Hércules, entrando no mar desconhecido e ocidental. Aportaram em costas agradáveis, receberam boas-vindas de povos estrangeiros e se uniram ao exército deste lugar, onde Ulfo assumiu o comando supremo. Travaram batalhas e conquistaram vitórias contra povos inimigos; Ulfo matou o rei hostil, casou-se com a sua filha adorável, e reinou no lugar dele, depois do que Michael e seu companheiro partiram em busca de outras aventuras. Deste casamento, filhos e filhas foram procriados e vinte anos se passaram como um sonho. Então Scot convenceu o seu campeão a voltar para a Sicília e retornar à corte de Frederico. Ulfo regressou com ele, mas para o seu assombro, ao entrar no palácio de Palermo, encontrou tudo da mesma maneira que estava no momento da sua partida há tanto tempo e os pajens ainda seguravam as jarras com água para lavar as mãos dos convidados do imperador. Prodígio executado, Michael e o outro se retiraram. Mas Ulfo, disseram, sempre permaneceu inconsolável pela terra perdida de sua amada, e as alegrias da vida de casado que tinha deixado para sempre ao partir, num sonho que não se repetiria jamais.

Michael Scot e os Piratas

Alguns piratas franceses saquearam navios escoceses, o que levou o rei da Escócia a exigir justiça e reparação. Para isso ele escolheu Michael como seu embaixador e o enviou a Paris para negociar a indenização. Porém, o mago não fez nenhum preparativo para tão considerável jornada, valendo-se apenas do seu Livro de Poder. Depois de ler nele um feitiço, o seu demônio familiar apareceu-lhe na forma de um cavalo negro e, nesta forma, levou-o pelos ares com uma velocidade incrível. Quando o canal da Mancha apareceu abaixo deles, o demônio perguntou para Michael quais eram as palavras que antigamente as esposas na Escócia murmuravam antes de ir dormir. Um mago menos hábil teria respondido o Padre Nosso simplesmente e, assim, dar a desculpa buscada pelo demônio para então lançar o seu cavaleiro ao mar. Michael, entretanto, o repreendeu severamente respondendo: – O que é isso? Suba Diabolus, e voe! – O demônio assim burlado e compelido, o levou rapidamente a Paris. Lá, encontrou o rei francês pouco disposto a ouvir as suas reivindicações. Então Scot lhe pediu que adiasse uma recusa final até que ele ouvisse o cavalo bater a pata três vezes. Ao primeiro coice, soaram todos os sinos de Paris. Ao segundo, caíram três torres do palácio; e o cavalo tinha levantado a sua pata para bater mais uma vez, quando o rei gritou, ‘Segure-o!’, e concordou em fazer o que o seu primo da Escócia desejava. (2)

NOTAS:
(1) Produzida pela BBC Worldwide, a série Marnie e a Caixa Mágica (“Shoebox Zoo” que passou na TV Cultura-SP) acompanha as aventuras de Marnie McBride, uma garota de 11 anos, descendente do grande mago Michael Scot. A missão da garota é encontrar o poderoso Livro do Conhecimento Proibido, perdido há um milênio e acabar com os planos do professor Juan Roberto Montoya. Para isso, Marnie conta com a ajuda de uma caixa mágica que ganhou no aniversário. O papel principal é interpretado pela atriz Vivien Endicott-Douglas.
(2) Walter Scott, Canção do Último Trovador, nota ‘ Y’

Fontes:

– Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
– Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Ed. Enc. Ltda.
– Jacques Bergier, Os Mestres Secretos do Tempo, Hemus – 1974
– Jean-Michel Angebert, Os Filhos Místicos do Sol, Difel, 1976
– Nouveau Larousse Illustré
– Walter Scott, The Lay of the Last Minstrel, Poet´s Corner – Bookshelf, http://theotherpages.org/poems/minstrel.html
Sites:
N.J.M.Grier, W.S. Maister Michael Scot, the First Wizard of the Northhttp://www.lunatica.pwp.blueyonder.co.uk/SAA/Documents/Michael_Scot/Michael_Scot.htm_Scot.htm
http://www.rampantscotland.com/famous/blfamwizard.htm
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Um comentário em “Michael Scot, um astrólogo lendário

  • 22 de abril de 2011 em 1:27 am
    Permalink

    Um texto interessantíssimo! Como sempre, você tem dado uma contribuição enorme ao estudo da Astrologia e um enfoque histórico que eu diria de suma importância para o enriquecimento cultural na área oracular.
    Mais uma vez: Parabéns!

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