Juliano, o Imperador do Sol

juliangold1Juliano, o Apóstata, foi imperador romano de 361 a 363. Quando nasceu, como todos os grandes imperadores, também teve o seu destino brilhante predito por um astrólogo, Theophille Melos, bispo de Alexandria. No seu curto reinado tentou reinstaurar o paganismo e revitalizar o culto aos deuses greco-romanos, ligando-os ao platonismo. Viveu cercado por filósofos, magos, astrólogos e adivinhos. Stephanus Mehebum, médico e astrólogo, foi quem lhe ensinou astrologia, na sua juventude. O próprio Juliano costumava levantar e interpretar horóscopos. Máximo de Éfeso, um dos últimos hierofantes da religião pagã, foi seu preceptor e conselheiro. Segundo cronistas da época, ele teria convencido Juliano de que o espírito de Alexandre reencarnara nele.

Leu os grandes filósofos pagãos, principalmente Platão, e os neoplatônicos como Celso, Jâmblico e Porfírio. Como o cristianismo tornara-se a religião oficial do império e o paganismo era então perseguido, Juliano teve de esconder a sua veneração pelos deuses antigos, até chegar a ser de fato imperador, em 361.

Na véspera de ser coroado teve um sonho profético em que um brilhante fantasma apareceu-lhe sob a forma do Gênio de Roma e anunciou a morte do imperador Constâncio, seu tio, com as seguintes palavras:

No momento em que Júpiter (o planeta real) estiver prestes a sair do Aquário e que Saturno marchar sobre o vigésimo quinto grau da Virgem, então o Imperador Constâncio, sob o Sol da Ásia, atingirá o termo de sua vida temerária e dolorosa.

Tão logo assumiu o império, substituiu o lábaro de Constantino, com o monograma de Cristo pelo estandarte de Mithra levando a inscrição: Soli Invicto (“Ao Sol Invencível”). Em seu Discurso sobre Hélios-Rei, Juliano explicou as leis divinas da astrologia, em que o Sol ocupava uma posição central e, de acordo com o esoterismo pitagórico, o Sol não ocuparia somente o centro dos planetas, mas o dos três mundos.

Conta-se que em 362, empenhado na restauração do paganismo, Juliano enviou um emissário a Delfos para consultar a pitonisa e saber dos deuses se deveria restaurar o antigo templo de Apolo, naquela cidade. A resposta, ouvida do fundo da gruta sagrada, entre os vapores do louro queimado, soou como um gemido de agonia:

Por terra ruiu a gloriosa moradia, e as fontes de água estão secas. Nada resta para o deus, nem telhado nem abrigo, e em sua mão os louros do profeta não vicejam mais. Volte e diga ao imperador que os deuses não estão mais aqui.

Foi a última vez que se ouviu em Delfos a voz dos deuses antigos. Um novo Deus já se instalara em Roma, com seus próprios profetas e sacerdotes, e doravante dominaria o império e o mundo greco-romano. Este episódio pode ser considerado como o marco decisivo do fim do paganismo e da vitória definitiva do cristianismo, uma parábola sobre o triunfo da nova religião sobre a antiga.

Ao partir para a guerra contra os persas, os presságios eram desfavoráveis e Juliano tinha sido alertado por Máximo a jamais entrar na Frígia, presságio que a própria Perséfone havia lhe comunicado. E aconteceu que, nesta campanha, depois de esmagar o exército inimigo, Juliano foi atingido mortalmente por uma flecha atirada por um de seus próprios soldados, provavelmente cristão. Enquanto era transportado para a sua tenda, o imperador perguntou a um centurião onde estavam e este respondeu-lhe que o lugar se chamava “Campos Frígios”.

Quando Juliano deu o último suspiro, conta a lenda que se viu duas almas escaparem de seu corpo, a sua e a de Alexandre, reencarnada nele. E elas subiram aos céus, projetando-se na noite como duas bolas de fogo, estrelas cadentes a caminho da “grande luz”

Bibliografia:
Dimitri Merejkowwski, “Juliano, o Apóstata”, Ed. Globo, 1945
Gore Vidal, “Juliano”, Ed. Rocco, 4a. Ed., 1986
Jean-Michel Angebert, “Os Filhos Místicos do Sol”, Difel, 1976
Peter Brown, “O Fim do Mundo Antigo”, Ed. Verbo, Lisboa, 1972
Symon de Phares, “Recueil des plus célebres astrologues et des hommes doctes”, Honoré Champion Éditeur, Paris, 1929

6 comentários em “Juliano, o Imperador do Sol

  • 6 de maio de 2011 em 11:39 pm
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    Que essas pílulas de erudição continuem, para que possamos aprender mais!
    Valeu, Bira!
    Abraços,
    Ivan

  • 25 de novembro de 2011 em 8:38 pm
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    Excelente texto!

  • 28 de março de 2013 em 9:06 pm
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    Acabe de ler “Juliano” de Gore Vidal. Ótimo livro. Simplesmente apaixonante este personagem. E quem poderá dizer que Juliano não foi mesmo uma reencarnação do grande Alexandre? Legal é que lendo o seu texto fiquei sabendo de outras referências bibliográficas e vou ver se as leio também. Valeu!!!

  • 15 de abril de 2013 em 10:30 am
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    Foi uma pena ter morrido tão cedo.
    A humanidade poderia ser hoje mais evoluída e menos cristã.

  • 16 de maio de 2013 em 11:46 am
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    Acabei de ler Juliano de Gore Vidal, é simplesmente maravilhoso e intrigante, como personagem historico é apaixonante. Ja li muitas biografias, mas confesso que esta me comoveu. Recomendo!

  • 7 de maio de 2016 em 12:57 pm
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    Que orgulho do meu nome kkk

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