Hypatia de Alexandria, mártir da ciência

Para os cristãos ela era “uma abominável mensageira do inferno”, mas passou para a história como uma das últimas expoentes da filosofia pitagórica, e a primeira mulher que deu contribuições consideráveis à ciência da matemática
Texto de Bira Câmara

Hipatia, com túnica branca, tela de Rafael Sanzio, detalhe de sua famosa pintura intitulada A Escola de Atenas. Stanza della Segnatura, Vaticano

Com a ascensão do Cristianismo e o declínio do Império Romano do Oci­­dente, a cultura e a ciência grega tornam-se mal vistas. Em 415, Hy­pa­tia de Ale­xan­dria, matemática proeminente, filósofa, astrônoma e astróloga foi arrastada da sua carruagem e selva­gemente linchada por uma turba de fanáticos cristãos. Uma das últimas expoentes da filosofia pitagórica, ela é considerada como a primeira mulher que deu contribuições consideráveis à ciência da matemática. Mas ser matemático ou astrólogo na Alexandria, nesta época, significava correr sérios riscos. O Concílio de Laodiceia em 364 proscrevera a adivinhação e os padres foram proibidos de praticar matemática e astrologia. O Câ­none 36 determinava:

“Aqueles que são do sacerdócio ou do clero não poderão ser mágicos, encantadores, matemáticos, ou astró­logos; nem eles farão amuletos que são cadeias para as suas próprias almas. E aqueles que fazem uso disso, nós ordenamos a expulsão da Igreja.”

“Hipátia” em apresentação no Haymarket Theatre, Londres, em janeiro de 1893

No ocaso do paganismo, a filosofia e o misticismo andavam de mãos dadas.  Os imperadores cristãos reprimiram energicamente essas práticas e, por razões de Estado, acrescentam uma hostilidade aberta contra a velha religião. Mas o cristianismo triunfante, após três séculos de luta, assimilara tudo o que era verdadeiro e sustentável das doutrinas da antiguidade, principalmente da escola de Platão. Seus seguidores, nos primeiros séculos da era cristã, últimos adversários da nova religião, acreditaram que poderiam deter a marcha dos homens vivos «galvanizando múmias». A batalha já estava pra­ticamente perdida e os pagãos da escola da Ale­xandria trabalha­vam contra a sua vontade, e sem o saber, para o edifício do cris­­tia­nismo que dominaria doravante a civilização. Os grandes nomes do neoplatonismo, Amônio Sacas, Plotino, Porfírio e Proclo, eram notáveis pela ciência e pela virtude. A teologia que postulavam era elevada, a doutrina moral, e seus costumes austeros. Graças a eles a magia deixou de ser considerada ofício de gente ignoran­te e inferior. A figura maior e mais sublime deste período, a es­trela mais bri­lhante desta constelação foi Hipatia, filha de Theon, essa «casta e sábia jovem cujas virtudes e inteligência deveriam levá-la ao batis­mo, mas que morreu como mártir da liberdade de cons­ciência». (*)

“Hipátia antes de ser morta na igreja”, por Charles William Mitchell, 1885

Theophilus, arcebispo da Alexan­dria, via o paganismo como um adversário e, com permissão dos seus superiores, ordenou queimar completamente o Templo de Serápis em 389. A destruição da Biblioteca aconteceu logo depois.

Neste clima crescentemente volátil, os matemáticos (como eram chamados os astrólogos naquela época) tornavam-se cada vez mais excluídos. O sistema ptolemaico do universo dominava o pensamento e deveria permanecer durante muitos séculos como uma das maiores realizações científicas da humani­dade. Graças a ele podiam ser calculadas as posições dos planetas e eclipses com grande precisão, mas prever o futuro era considerado contrário aos desígnios de Deus. Qualquer um que praticasse matemática, astro­nomia e astrologia recebia o rótulo de charlatão ou bruxo.

Filha de Theon de Alexandria, ela o auxiliou nos seu textos sobre matemática e astronomia, compilando frequentemente tábuas de posição de corpos celestes. Oradora profunda, as pessoas viajavam para ouvi-la falar; dizia-se que ela era semelhante a Minerva, a deusa da sabedoria, sua protetora.

Retrato de Hypatia, desenho de Elbert Hubbard, 1908

Hypatia enfrentou contínua cam­panha de seus adversá­rios cris­tãos, que alimentavam o ódio dos alexan­drinos mostrando-a como “uma abominável mensageira do inferno”. Para dar credibilidade à sua “malignidade”, falava-se da conhecida dedicação do seu pai à astrologia e à magia, os seus escritos sobre interpretação dos sonhos, e dos astrólogos que frequentavam regu­larmente a sua casa. O seu en­vol­vimento com astronomia e astro­logia era associado à prática de ma­gia ne­gra e adivinhação. Dizia-se que era uma bruxa satânica e que lançava feitiços contra qualquer um na cidade.

Não se sabe por que ela não fugiu de Alexandria quando come­çaram as perseguições, decisão que poderia ter evitado seu destino trágico. Em 415, durante o período cristão da Quaresma, Hypatia foi arrastada da sua carruagem e atacada por uma turba de zelotes cristãos quando ia para sua casa. Estes fanáticos, braço armado do governo do bispo Cirilo, a arrastaram para uma igreja local onde a despojaram das roupas e arrancaram-lhe a pele do corpo com objetos afiados. Depois disso, os zelotes a esquartejaram e levaram seus restos para um lugar chamado Cinaron, onde a queimaram. Embora Cirilo não estivesse presente durante o ataque e não se tenha nenhuma evidência de que tenha ordenado a ma­tança, acredita-se que ele a ins­tigou, pois incitava sis­te­mati­camente os cristãos à violência em nome da Igreja. Muito tem­po depois deste evento, Cirilo seria louvado por au­tores cristãos por ter “destruído os últimos restos de idolatria na cidade”.

O assassinato de Hypatia, uma mulher de sessenta anos, amada e lou­vada pela sua beleza, sabedoria e compaixão, não foi apenas um ato de ódio cego, mas também uma afronta criminosa merecedora das penalidades mais severas contra os seus au­tores. No entanto, estas penali­dades nunca foram aplicadas nem houve qualquer prisão ou investigação. Depois de sua morte, Cirilo foi cano­nizado pela Igreja Católica e tor­nou-se um de seus santos…

“Morte da filósofa Hypatia, em Alexandria”. Ilustração extraída do livro Vies des savants illustres, depuis l’antiquité jusqu’au dix-neuvième siècle , de Louis Figuier, 1866

A morte de Hypatia marcou o fim da última fase da ciência antiga e a partir de então a investigação cien­tífica passou a ser vista como inimiga do dogma religioso. Os as­tró­­logos, sempre envolvidos em cons­­pirações, não eram mais perse­guidos pelo crime de lesa-majestade, mas como inimigos da religião dominante. Muitos filósofos deixaram a cidade, com medo de ter o mesmo destino de sua amada colega. Com o desaparecimento de Hypatia “a última chama da livre investigação apa­gou-se antes da longa noite de esco­lasticismo clerical” que se abateu sobre o Ocidente.

O poeta Paladas, contemporâneo de Hipatia, dedicou a ela uma de suas obras e, em um de seus poemas, registrou:

Buscando no Zodíaco, em direção a Virgo,
Sabendo que tua província é o Firmamento,
Encontrando teu brilho em tudo o que vejo,
Rendo-te homenagem, reverenciada Hipatia,
Estrela brilhante do Ensinamento, sem mácula.

Nota:

(*) Eliphas Levy, Histoire de la Magie, pág.225

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