Guido Bonatti, o astrólogo da guerra

Guido Bonatti (1235-1296) foi o mais conhecido e maior astrólogo da sua época. Sua obra capital, o “Livro de Astronomia”, é considerada por muitos como o texto astrológico mais importante escrito em latim durante o século XIII. Recebeu dos seus contemporâneos o título de Doctor Siderabi­lissimus e sua influência e renome eram tais que Dante o colocou no oitavo círculo do Inferno, no quarto Anel, dos bruxos e advinhos. Lá, são colocadas as almas malditas que tentaram adivinhar o futuro e ficaram com as cabeças viradas para trás (olhando o passado) e os olhos encobertos de lágrimas. Todos os seus empregadores combateram a autoridade papal e os seus exércitos, e também foram excomungados.

Conquistou a inimizade do clero, entre outras coisas porque afirmava que os astrólogos sabem mais das estrelas que os teólogos de Deus. Além disso, não teve medo de revelar que muitos clérigos de seu tempo consultavam astrólogos sobre suas perspectivas de promoção. Entre outras temáticas, o seu livro descreve como o astrólogo deve atuar e interpretar os astros em assuntos relacionados à guerra. Também ensina como descobrir quem ganhará e quem perderá uma batalha. Mas suas exposições não eram mera teoria, pois baseavam-se em fatos reais e as aplicara pessoalmente no campo de batalha. Isso lhe permitiu completar suas interpretações com interessantes exemplos.

Bonatti celebrizou-se por muitas predições, mas a mais famosa refere-se à instituição da Ordem dos Irmãos Menores de São Francisco. Guido anunciou que ela cresceria tanto que, entre todas as outras ordens, não haveria nenhuma maior do que ela.

Guido foi astrólogo de Martinho IV, papa de 1281 a 1284, e conta-se que o teria salvo muitas vezes de grandes perigos graças à sua competência como astrólogo.

O seu prestígio era tão grande que desempenhou a função de conselheiro e “signori del tempo” em várias cidades, como Florença em 1260. Mas devido ao seu ego inflado e exagerada auto-suficiência fez muitos desafetos. Seus inimigos espalhavam histórias pouco lisonjeiras sobre a sua competência. Segundo uma delas, num dia muito claro, Bonatti e seu patrão, o Conde Guido de Montefeltro, estavam numa planície nas cercanias de Forli, quando um camponês se aproximou e lhe ofereceu algumas peras. O camponês disse que queria chegar logo em casa antes que chovesse, porque tinha certeza de que cairia uma grande chuva naquele dia. Então Montefeltro pediu a previsão do tempo a Bonatti. O astrólogo disse que só choveria moderadamente, mas, consultando o seu astrolábio, fez alguns cálculos e voltou atrás afirmando que não choveria nada. O camponês insistiu que cairia um pé d´água. “Como você sabe”? perguntou-lhe Bonatti. O camponês explicou que o seu burro estava tremendo e mexia as orelhas mais do que o habitual – o que pela sua experiência sempre era um sinal de chuva. E seria uma grande chuva, porque as orelhas do burro giravam e se mexiam mais do que o normal. O camponês partiu. Logo começou a chover tão forte que houve praticamente uma inundação. Irritado, Bonatti gritou, “Quem me iludiu? Quem me confundiu?” Por causa disso, o Conde criou um novo cargo para o camponês e tornou-o Grande Mestre Astrólogo, obviamente para que o burro fosse usado para a predição do tempo. A moral da história é que até mesmo um asno é melhor para isso que um astrólogo…

Sabe-se que o Montefeltro empregou-o como conselheiro astrológico durante a guerra que manteve contra Francesci Guidanti d’Appia em 1282. Nesta ocasião, Bonatti costumava subir ao alto de um campanário munido de seus livros e do astrolábio, com a incumbência de determinar o melhor momento para desencadear uma batalha. Então, quando a orientação das estrelas era favorável à vitória, soa­va um sino para que o exército vestisse a armadura; repetia a operação para que montasse; e novamente o tocava para que atacasse os inimigos…

Conta-se que salvou a vida de seu patrão, quando ele estava sitiado em Forli pelas tropas de Martinho IV. Bonatti aconselhou-o então a fazer uma retirada, estratagema que o levaria à vitória, o que de fato aconteceu apesar de sair ferido.

Segundo uma tradição duvidosa, durante os últimos anos de sua vida entrou para um convento de franciscanos onde acabou seus dias, arrependido da prática astrológica. Mas história semelhante é contada também sobre Montefeltro, que, desesperado pela perda de seu poder arrependeu-se igualmente de ter combatido o Papa, reconciliou-se com Bonifacio VIII (sucessor de Martinho IV) e se tornou monge mendicante… Outra versão, mais plausível, relata que ao voltar de uma viagem de estudos a Paris, Bonatti foi assassinado por ladrões perto de Casena e o seu corpo deixado na estrada.

(este artigo é um dos capítulos do livro “Histórias da Astrologia”, de Bira Câmara)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.