Era de Aquário: os oportunistas e os babacas estão de volta

No mês passado, os noticiários da TV deram destaque a uma grande bobagem: o fictício começo da era de Aquário. Por conta dos versos da canção do musical Hair, que usam de licença poética para decantar a nova era, alguns imbecis (ou oportunistas) conseguiram seus minutos de glória dando entrevistas sobre o assunto. Eis os versos: “Quando a Lua estiver na sétima casa / E Júpiter alinhado com Marte / A paz guiará os planetas / E o amor irá além das estrelas / Esse é o começo da era de Aquário”. Acontece que, do ponto de vista astrológico, o início da era de Aquário não tem absolutamente nada a ver com isso: tal alinhamento planetário ocorre com grande freqüência. Qualquer astrólogo sério e bem informado sabe disso e não embarca nessa onda. Entrar em detalhes sobre a questão exigiria muito espaço e foge à proposta deste blog. Mas eu pergunto: o que levou a grande imprensa a dar destaque para isso? Gosto pelo sensacionalismo, falta de assunto ou de inteligência? A resposta pode ser mais simples: em novembro do ano passado, a agência Reuters anunciou que o musical Hair voltará à Broadway em 2009… Esse barulho não passaria, pois, de uma campanha publicitária para o seu lançamento. Se isso está por trás da notícia, a credibilidade da grande imprensa fica, mais uma vez, seriamente sob suspeita. Aliás isso não é notícia, mas puro press realease disfarçado ou propaganda gratuita, ardilosamente plantada no noticiário.

Fui pego de surpresa com todo este estardalhaço e não esperava que o pessoal da “new age” tivesse cara de pau para insistir nessa bobagem. Os “crentes” da era de Aquário, espalhados pelo meio esotérico, são incapazes de perceber a realidade que os cercam, iludidos pelo discurso de mestres e gurus fajutos. Se tivessem um mínimo conhecimento astrológico e algum senso crítico, saberiam que o que está rolando nos dias atuais não tem nada de aquariano. Não há um novo paradigma filosófico ou religioso a despontar no horizonte nem um avatar com uma mensagem renovadora. Há, sim, o mesmo de sempre: guerra, fome, desemprego, aumento da ignorância, desinformação, promiscuidade sexual, confusão, credulidade exacerbada, ódio racial, intolerância religiosa, etc. Estamos assistindo ao recrudescimento do que há de pior da era de Peixes, misturado a alguns sinais antecipadores da era vindoura.

Na verdade, a era de Aquário deve começar entre 2400 e 2600. A celebração orgiástica de Woodstock não passou, pois, de um comichão pisciano, misturando drogas, barulho, promiscuidade sexual e anseio de retorno ao cristianismo primitivo.

Não há base astrológica ou astronômica para se afirmar que estamos entrando em novo ciclo. Os místicos e esotéricos não têm o mínimo entendimento do fenômeno de precessão dos equinócios, fundamental para determinar o fim ou início de uma era zodiacal. Mas, infelizmente, apelam para a astrologia para justificar suas sandices.

Escrevi dois livros sobre o assunto e me causa certa irritação voltar a falar nisso e ter de explicar o óbvio. Portanto, quem se interessar, faça-me um favor: compre-os e depois refute à vontade minhas idéias, se não concordar com elas.

Oswald Spengler foi um dos poucos a prever com acerto os rumos da civilização e não tinha nenhum dom profético ou conhecimento astrológico; bastou-lhe o estudo acurado das grandes civilizações do passado e olhar na direção em que soprava o vento para predizer o que está acontececendo nos dias atuais. Da mesma forma, estudando o período histórico da passagem da era de Áries para a de Peixes (por volta do século I), podemos tirar algumas conclusões. Há uma certa analogia entre esse período e o atual: na época do imperador Augusto, a era de Áries estava no seu ocaso e os romanos viviam sob a expectativa do cumprimento de profecias que anunciavam a queda iminente do império e o fim do mundo. Atento a esse momento de passagem de ciclo, o poeta (e astrólogo) Virgílio antecipou a vindoura Nova Era celebrando o nascimento da “criança” que encerraria a Idade de Ferro e traria de volta a Idade de Ouro no mundo inteiro. Cristo nasceria alguns anos depois, mas o cristianismo só tomaria corpo como instituição e imporia seus paradigmas ao Ocidente três séculos mais tarde, quando então começou de fato a era de Peixes. Há uma certa similaridade entre estes dois momentos históricos: ambos refletem a decadência de um mundo e a expectativa de um novo ciclo por vir. Naquela época, como agora, o momento é de confusão; um caldo de sincretismo místico e religioso corrói a religião tradicional, provocando a sua gradativa destruição para que algo novo tome o seu lugar. A civilização toda passa por esse processo alquímico coletivo de morte-regeneração, a noite negra da alma antes que aconteça o renascimento. Mas ninguém pode antecipar com certeza o que virá a seguir…

Não estão, pois, de todo errado os ingênuos adeptos da new age: como os baianos, começam a pular carnaval antes da época; galos insones, cantam na madrugada escura iludidos pelo clarão de uma lâmpada acesa…

O que há para ler

Algumas obras recomendáveis para a compreensão do momento atual:

  • A Crise do Mundo Moderno – René Génón, 1948 / Editora Martins
  • A Decadência do Ocidente – Oswald Spengler, 1964 / Zahar Ed.
  • El Mundo Que Nasce – Conde de Keyserling, 1926 / Ed. Revista de Occidente
  • História das Crenças e Idéias Religiosas (Das provações do Judaísmo ao Crepúsculo dos Deuses) – Mircea Eliade, Tomo II, Vol. 2, 1983 / Zahar Ed.
  • Marco Aurélio e o Fim do Mundo Antigo – Ernest Renan, s/d , Lello & Irmão
  • Nova Era – A Religiosidade do Pós-moderno – Aldo Natale Terrin, 1992/ Editora Loyola

5 comentários em “Era de Aquário: os oportunistas e os babacas estão de volta

  • 6 de maio de 2011 em 10:35 pm
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    Além de Ernest Renan, gostaria de sugerir outros autores que penso fundamentais:
    Leopold Von Ranke, Hyppolite Taine, Édouard Meyer, Jacob Buckhardt, Theodore Mommsen, George Grote, Ernest Kantorowicz, Johan Huizinga, Modris Eckstein, Régine Pernoud, Thomas Carlyle, Maurice Crouzet, Conteneau, Oncken, Pierre Levêcque, Klaus Von Clausewitz.

  • 7 de maio de 2011 em 12:32 am
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    Ivan, esse é um time da pesada! Ler e estudar todos esses autores demandaria muito tempo… A astrologia tem uma aspecto que passa despercebido a muitos estudiosos: ela interpenetra todas as áreas do conhecimento humano e nos leva a transcender os próprios limites do conhecimento astrológico. Por isso os astrólogos antigos (os sérios…) eram sábios e ecléticos.

  • 12 de maio de 2011 em 12:07 am
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    Mas tudo demanda tempo e disciplina. Sem isso, não se é um bom astrólogo!

  • 13 de janeiro de 2014 em 8:27 pm
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    A era de peixes começou em 60 ac e deve terminar em 2100dc, aonde começara a era de aquário e terminara em 4160dc.

  • 13 de janeiro de 2014 em 10:11 pm
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    Pelo menos concordamos num ponto: ainda não entramos na tal Era de Aquário…

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