Camões e a astrologia

Texto de Bira Câmara

Segundo o escritor e astrólogo português Mario Saa (1893-1971), Camões nasceu no dia 23 de janeiro de 1524, precisamente às 20 horas e 40 minutos. O autor chegou a esta conclusão pesquisando atentamente os textos do grande vate português. A maior evidencia desta data é o registro sobre o seu nascimento numa de suas Canções:

O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar
Não torne mais ao mundo, e se tornar,
Eclipse, nesse passo, o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se lhe escureça;
Mostre ao mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu!
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

Mário Saa interpretou os versos da primeira quadra acima e concluiu que neles está implícito simbolicamente a conjunção Júpiter-Saturno, pois o duplo infortúnio que o atingiu — “morra e pereça” — estaria representado por ela no seu mapa astrológico, bem como pelo eclipse solar que deveria ocorrer exatamente um ano depois, em 1525, no mesmo dia. As tábuas astronômicas da época confirmam que o único eclipse do Sol entre 1515 e 1540 ocorreu em um sábado (dia de Saturno), no signo de Aquário no dia 23 de janeiro de 1525, por ocasião do primeiro aniversário do poeta.
Segundo um dos biógrafos de Camões — Faria e Sousa —, até 1650 considerava-se a data de 1517 como seu ano de nascimento, depois modificada para 1524 ou 1525. Ao pesquisar no Arquivo da Biblioteca Nacional de Lisboa, Mario Saa encontrou o registro de um depoimento do século XVI onde consta que Luis Vaz de Camões alistou-se para servir na Índia em 1550, informando ter então a idade de 25 anos. Portanto, ele teria nascido em 1525… Este é, aparentemente, o único registro que comprova a data do nascimento do poeta. Outras pesquisas realizadas não conseguiram determinar com exatidão a verdadeira data.

Antes da pesquisa de Mario, os historiadores levavam em conta somente fatos históricos para determinar a data, e os elementos disponíveis eram frágeis e insuficientes. Ao partir da constatação, até então inédita, de que Luis de Camões era profundo conhecedor da astrologia, alguns biógrafos, conhecedores da ciência astrológica, seguiram nessa direção, para estabelecer com segurança, não somente o dia, o mês e o ano, mas até a hora de seu nascimento.

Baseando-se nas referências astrológicas na obra de Camões, explícitas nos versos épicos e líricos, Mario Saa encontrou correlações com importantes fatos astrológicos. Além da magna conjunção de Saturno e Júpiter no dia em que nasceu, houve o Eclipse do Sol no dia exato do seu primeiro aniversário, que corresponde ao dia da estrela funesta (sábado, dia de Saturno); as posições de planetas como Marte fustigando Vênus, Saturno fustigando Júpiter, a Lua Cheia se levantando no Oriente, na Casa 12, e ter nascido com o Sol no signo de Aquário são outras evidências em reforço à tese de Mário.

Sendo conhecedor da astrologia, quando Camões diz que nasceu na “terceira hora funesta noturna” ele referia-se à hora do “funesto” Saturno, ou seja entre 20 e 21 horas da noite. Outras indicações como planetas em casas determinadas fornecem os dados para suposição da hora exata: 20h 40min, do dia 23 de janeiro de 1524 em Lisboa.

Com estas informações, junto com indicação de Camões de que a “Lua Cheia se encontrava suspensa sobre o horizonte oriental”, Mario Saa não teve dúvidas quanto à exatidão da hora.

Em outros versos, Camões lamenta seu trágico destino e canta com amargura os dois maiores dramas de sua alma: suas heroicas e desastradas aventuras e o trágico desaparecimento de sua bem amada. Dois lobos impiedosos roubam-lhe a felicidade: Saturno — o lobo do seu destino — rouba-lhe a Fortuna, prêmio de Júpiter; e Marte — o lobo do amor — rouba-lhe a doce Dinamene” (*), a bela chinesa morta em um naufrágio no Rio Mechong, na Indochina:

Dois lobos… logo a voz e a melodia
Te fugirão, e o som suave e puro!
Bem foi assim porque um me degolou
Quanto gado vacum pastava e tinha
De que grandes soldadas esperava…
E, por mais dano, o outro me matou
A “Cordeira Gentil” que eu tanto amava
Perpétua saudade de alma minha!

Camões relata com precisão astrológica que nasceu debaixo da influência funesta de Saturno:

Quem nasce em dia
De estrela tão dura,
Não acha ventura
Não pôs minha Estrela
Mais ventura em mim…

Para quem conhece um pouco de astrologia, fica claro que a “estrela tão dura” é Saturno, que nesse dia infringia ao significador da Fortuna que é Júpiter as atribulações responsáveis por toda a desgraça de sua vida.

Obviamente, tudo faz sentido se admitirmos que o poeta era um profundo conhecedor da astrologia. Mas, embora admitindo esta possibilidade, há pesquisadores como Thomas F. Earle que duvidam da crença do poeta na astrologia. Diz este autor: “No caso dele, como no caso de outros artistas, como Dürer, a astrologia tomou-se num elemento positivo e criativo. Mas a hipótese segundo a qual Camões sabia do seu temperamento saturniano não legitima uma leitura da sua poesia como astrologia disfarçada.”

Nota:

(*) Segundo Antenor Nascentes, o nome chinês da amada de Camões é “Ti-Nan-Men”, aportuguesado em Macau onde a conhecera.

Bibliografia:

Francisco Bettencourt, “Astrologia e Sociedade no Século XVI: uma primeira abordagem”, Revista de História Econômica e Social, 8, 1981, págs. 43-76

Luis de Albuquerque, “A Astrologia e Gil Vicente” (em Estudos de História, Coimbra, 1974)

Mario Saa, “As Memórias Astrológicas de Camões”, Empresa Nacional, 1940

 

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