ASTRÓLOGOS VERSUS ASTRÓLOGOS

Durante a guerra civil inglesa (1642-48), os astrólogos ingleses participaram ativamente na guerra tomando partidos diferentes, o rei de um lado e o Parlamento do outro, ambos igualmente curiosos para saber quem as estrelas apontavam como vencedor da disputa.

Durante a guerra civil (1642-48), os astrólogos ingleses – dos quais William Lilly era o mais conhecido – engajaram-se na guerra tomando partidos diferentes, o rei de um lado e o Parlamento do outro, ambos igualmente curiosos para saber quem as estrelas apontavam como vencedor da disputa. Enquanto Lilly mostrava-se a favor da monarquia mas empenhava-se pelo Parlamento, outros astrólogos como George Wharton, John Booker, Nicholas Culpeper e John Gadbury arriscaram a cabeça durante a guerra e sofreram as conseqüências deste envolvimento.

William Lilly
William Lilly

William Lilly, o mais célebre astrólogo inglês do século dezessete, nasceu em 1º de maio de 1602 em Diseworth, Leicestershire. De origem humilde, estudou as mais diversas ciências até a idade de trinta anos, quando então começou a dedicar-se à astrologia.

A partir de 1641 Lilly passou a trabalhar profissionalmente como astrólogo, publicando vários livros sobre cabala, magia, predições e almanaques. Juntou grande fortuna e exerceu certa influência durante a guerra civil, quando era consultado tanto pelos puritanos quanto pela nobreza e o próprio rei. Envolveu-se fortemente com o lado parlamentarista na guerra civil inglesa. Parece que este inglês tinha um pouco de sangue mineiro correndo em suas veias, pois apesar disso conseguiu se dar bem com os dois lados: era a favor da monarquia mas se empenhava pelo Parlamento… Comentou-se na época que se o Rei Charles tivesse Lilly ao seu lado teria sido como se tivesse o apoio de meia dúzia de regimentos. Na sua contraditória biografia política conta-se que teria ajudado a fracassada tentativa de fuga de Charles I, da ilha de Wight, fornecendo a lima que o rei usara. Depois da Restauração, Lilly foi investigado exaustivamente como partidário dos parlamentaristas, mas conseguiu escapar sem qualquer conseqüência mais séria.

No tempo da Commonwealth, Lilly prognosticou a destruição definitiva da monarquia, mas em 1660 não conseguiu prever a restauração de Charles II. Apesar disso, ele manteve crédito entre pessoas das classes mais abastadas, como o célebre antiquário e alquimista Elias Ashmole que se tornou seu amigo.

George Wharton
George Wharton

George Wharton (1617-1681), que publicou almanaques sob o pseudônimo de George Naworth a partir de 1641, foi o primeiro dos astrólogos da guerra civil a se comprometer politicamente, colocando-se a favor da causa realista. Produziu uma série de almanaques anualmente sob vários títulos até 1666. Além disso, chegou a vender suas terras para organizar uma tropa de cavaleiros e lutar ao lado dos Realistas quando estourou a guerra civil.

Depois da derrota de sua cavalaria em 1643, Wharton se uniu ao quartel-general do Rei em Oxford onde a vida, no princípio, não era desagradável. Wharton – um homem de certa graça e educação, mas de origem humilde – estava em seu elemento na corte exilada dos Realistas. Foi designado como Tesoureiro e Pagador para o escritório do Royal Ordenance e pôde continuar os seus estudos astrológicos e se concentrar na produção dos almanaques que promoviam a causa Realista e refutavam os almanaques publicados em Londres por John Booker a favor do Parlamento.

John Booker
John Booker

John Booker (1601-67), principal adversário de Wharton, ficou famoso devido uma predição sua, nos anos de 1632 e 1633, relacionada a um eclipse solar ocorrido no 19º grau de Capricórnio (1633), durante a qual morreram o Rei da Bohemia e Gustavo da Suécia. Na sua autobiografia, Lilly conta que John Booker “desde a infância parecia ser destinado para a Astrologia”; ainda jovem foi instruído na língua latina, que ele acabou dominando muito bem. Seus primeiros escritos datam de 1630; além de seu almanaque anual Prognostications, escreveu Bellum Hybermicale – um livro muito sóbrio e judicioso – e Easter Day, um pequeno tratado sobre o Dia de Páscoa, segundo Lilly obra bem documentada onde ele demonstrou grande erudição.

Em 1643, o segundo ano da guerra civil, o almanaque de Booker previa tempos difíceis para “O Homem das Três Letras”, que foi amplamente interpretado como R-E-X, o Rei. Wharton saiu em defesa do soberano e afirmou que o homem de três cartas sobreviveria ao lider parlamentarista John Pym principal líder adversário e ao puritano Lord Say. (Pym morreu de fato de câncer em dezembro de 1643.)

O pseudônimo de Naworth, adotado por Wharton, foi uma infeliz escolha de anagrama satirizado facilmente como No-Worth (Sem-valor) pelo seu oponente Booker e depois por Lilly também. Booker se divertiu bastante fazendo anagramas e trocadilhos com o nome de Wharton e sua versão latinizada Georgius Naworth – “Um vagabundo prostituído” (A whoring rogue), “Um vagabundo muito podre” (A huge rot’n Rogue), “George foi derrubado” (Georg was throw’n), etc.

O almanaque de Wharton de 1644, dedicado a “Sua Majestade Comandante” foi imediatamente atacado por Booker num folheto intitulado Mercurius Coelius. Wharton respondeu a Booker em Mercurio-Coelico-Mastix, chamando-o de Grande Impostor e Traidor. A guerra de almanaques entre ambos estendeu-se até 1645, quando então Booker já tinha sido eclipsado por William Lilly como o principal astrólogo dos Roundhead. Wharton também atacou-o na obra Merlini Anglici Errata (1646), cujo título era uma óbvia referência ao almanaque anual do adversário (Merlinus anglicus junior).

Um ano depois, em 1647, convalescendo da peste que assolou a Inglaterra, publicou um jornal semanal em Londres, o Merlinus Elenchicus, onde satirizou maliciosamente os atos do Parlamento. Por causa de suas críticas, acabou preso e enviado a Newgate por ordem do Parlamento em 1649. Escapou da forca graças à amizade devotada de Elias Ashmole, que interferiu a seu favor e obteve a sua liberdade com a condição de que “não escrevesse mais nada contra o Parlamento ou Estado”. Arruinado, Wharton sobreviveu graças a ajuda de Ashmole, que generosamente o convidou junto com a família a morar em sua casa… Depois da Restauração foi lhe outorgado um baronete em consideração aos seus serviços pela causa Realista (1677).

John Gadbury
John Gadbury

Outro astrólogo deste período, John Gadbury (1627-1704), alinhou-se à causa do Parlamento. Educado em Oxford, autor de várias obras astrológicas e um livro sobre cometas, levantou horóscopos de de personalidades como Carlos I, rei da Suécia. Em 1679 publicou A Ballad upon the Popish Plot (“Uma Balada sobre a Conspiração Papista”), que lhe valeu a acusação de conspiração contra o rei William III e foi encarcerado. Absolvido em 1681, recebeu compensação pelo “injusto encarceramento”. Descreveu Lilly como impostor numa de suas obras (Obsequium Rationabile, 1675).

O célebre médico herbalista e astrólogo inglês Nicholas Culpeper, amigo de Lilly e iniciado na astrologia por ele, engajou-se na causa do Parlamento com ardente entusiasmo a ponto de alistar-se como soldado e quase morrer depois de levar um tiro no ombro. Filho de um pastor, Culpeper recebeu desde o berço uma forte educação puritana e um saudável desrespeito pela Coroa. Ao alistar-se, sua intenção era servir na linha de frente, mas foi persuadido a atuar como cirurgião de campo. Preparou-se para isso estudando os textos cirúrgicos e as ervas medicinais que colecionou a caminho do campo de batalha. Em 1643, Culpeper foi incumbido de capitanear uma tropa de infantaria e organizou uma companhia de 60 voluntários para lutar no assédio de Reading. Ferido a bala no ombro esquerdo durante a batalha, teve que ser levado de volta para Londres de carruagem.

Terminada a guerra, em 1652, Culpeper escreveu Catástrofe Magnatum, ou O Outono da Monarquia, um trabalho astrológico mundano baseado no eclipse solar que aconteceu aproximadamente às 9 da manhã na “Segunda-feira Negra” de 29 de março de 1652. A astrologia mundana se preocupa com os negócios do mundo, eventos políticos, nações e governos, e como o título sugere, Culpeper era anti-realista também nos seus juízos astrológicos! Suas previsões a partir do eclipse incluiu o comentário: “A Quinta Monarquia está vindo mas não é escocesa nem inglesa”. Ironicamente, isto criou um clamor no Parlamento porque mostrou que ele não estava a favor de Oliver Cromwell, que havia se tornado Lorde Protetor em 1652. Culpeper predisse um colapso da ordem estabelecida de governo e anunciou uma nova era debaixo da direção divina de Cristo e dos seus Apóstolos.

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