A Profecia de Roma

Os antigos romanos davam tanta importância aos vaticínios e oráculos que uma profecia anunciada na fundação de Roma causou mal estar aos imperadores, às classes letradas e ao povo ao longo da História, cumprindo-se no tempo previsto com pequena margem de erro.

Estátua da deusa Roma
Estátua da deusa Roma

Conforme a tradição, Roma foi construída por Rômulo no ano de 753 a.C., embora existam indícios de que o sítio onde se ergue a cidade moderna já era ocupada muito antes dessa data. Conta a lenda que Rômulo e os seus seguidores se estabeleceram na região do Palatino, enquanto seu irmão Remo e seus amigos exploraram o Aventino. Ambos concordaram em buscar augúrios divinos para saber quem tinha o direito de fundar a nova cidade e dar-lhe o nome. Um bando de abutres sobrevoava a região ao nascer do sol; seis deles se separaram e desceram sobre o Aventino. Ao mesmo tempo, doze pairaram sobre o Monte Palatino, onde estava Rômulo. Interpretando esse evento como um vaticínio, Rômulo reivindicou para si o direito de construir os alicerces da cidade no Palatino. De acordo com o historiador Plutarco, isso aconteceu no dia 21 de abril de 735 a.C., data aceita como da fundação de Roma.

Inicialmente, esses doze abutres foram interpretados como indicação de que a cidade teria 120 anos de vida. Como Roma ultrapassou esse período, acreditou-se que o número 12 significava uma espécie de “Grande Ano” composto de meses de 100 anos, resultando numa duração de 1.200 anos. Essa tese, exposta pelo filósofo Varrão, que viveu no século I a.C., foi elaborada por um augure romano chamado Vetius, baseado no relato de historiadores antigos. Varrão também solicitou ao astrólogo Tarrúcio, seu amigo, a tarefa de calcular a data e a hora do nascimento de Rômulo.

Os romanos davam grande importância aos augúrios, presságios e oráculos dos mais variados tipos, incluindo também a astrologia. Nos momentos de crise, guerras e ameaças de invasão, antigas profecias eram lembradas semeando o medo da destruição de Roma. Desde o ano 367 a.C., os Livros Sibilinos, em número de três, contendo profecias de Apolo sobre o futuro de Roma, eram conservados por baixo do templo capitolino. Comprados pelo rei Tarquínio à sibila de Cumas, eram interpretados em ocasiões de extremo perigo nacional. Seus guardas formavam um dos colégios religiosos, composto pelos pontífices, augures e arautos. O andamento das operações militares regulava-se de acordo com os vaticínios formulados pelos augures a partir do voo dos pássaros, do exame das entranhas dos animais sacrificados e de outros presságios. Não se realizava mesmo qualquer ato importante da vida pública ou privada sem semelhante preparo.

Na época de Tito Lívio (59 a.C.-19 d.C.), mais de 700 anos já haviam transcorrido desde a fundação da cidade e o povo romano estava em plena e irremediável decadência em sua época. Assim, ele observa no início de sua História, que a velhice tinha já começado, depois da infância, da juventude e da idade adulta; Roma estava, pois, mais perto do fim do que de seu início. Esta doutrina, embora vaga, concorda com a exposta a Varrão pelo augure Vetius.

Florus, um escritor que viveu no final do império de Trajano, compara também a vida do império romano com a de um indivíduo que tem a sua infância, a sua adolescência, a sua virilidade e a sua velhice. A infância de Roma, segundo ele, tinha durado 250 anos; sua adolescência durou 250 anos também, quando Roma dominou a Itália; sua virilidade durou na seqüência 200 anos, até a pacificação do mundo sob Augusto; depois começou uma decadência de 150 anos e, contra toda a esperança, um recrudecimento de sua senilidade sob Trajano. Florus atribuiu ao império uma duração aproximada de 10 séculos, já que ele distingue quatro idades na vida e atribui 250 anos para as duas primeiras.

VIRGÍLIO E A IDADE DE OURO

Mesmo na época da gloriosa “pax romana” de César Augusto (63 a.C-14 d.C.), os romanos viviam atormentados pela ideia da iminente destruição de Roma. Ainda estava vívida na memória do povo a lembrança das longas e desastrosas guerras civis que precederam o próspero reinado de Augusto. “Circulava um grande número de apocalipses de origem oriental; os que eram conhecidos pelo nome de Oráculos Sibilinos anunciavam a queda iminente do poderio romano”¹. Havia uma profusão de magos e astrólogos predizendo catástrofes e influenciando as massas. Sempre que Roma enfrentava crises, o povo temia que a cidade fosse desaparecer, lembrando a profecia atribuída ao seu fundador Rômulo. Temia-se também que o mundo fosse acabar em uma combustão universal (ékpúrósis), assim que o Grande Ano terminasse. “Mas o império de Augusto, sucedendo-se a longas e sangrentas guerras civis, parecia instaurar uma pax aeterna“. O poeta Virgílio (71 a.C.-19 d.C.), na Eneida, encarregou-se de difundir a esperança de que “Roma pode regenerar-se periodicamente, ad infinitum”, e liberta do mito que a condenava a desaparecer, poderá estender-se até as regiões “que jazem além das rotas do ano e do sol”.

Com a publicação da Eneida, Roma ficou conhecida como a “cidade eterna”, Augusto foi proclamado o segundo fundador da cidade e os romanos acreditaram que já tinha começado a Idade de Ouro… Houve, segundo Mircea Eliade, “um esforço supremo para libertar a história do destino astral ou da lei dos ciclos cósmicos“, e substituir o mito antigo da destruição do universo, por sua recriação periódica. Tentou-se deliberadamente transformar um clima de medo e pessimismo, de ansiedade diante da inevitável “ékpúrósis” do fim do Grande Ano, num clima de felicidade e júbilo. Assim, na célebre IVa. Écloga, Virgílio anuncia que a Idade de Ouro está começando:

Eis que recomeça a grande ordem dos séculos.
A Virgem também já volta, volta o reino de Saturno.
Uma nova raça já desce das alturas dos céus.
Essa criança, cujo nascimento encerrará a Idade do Ferro
E trará de volta a Idade do Ouro no mundo inteiro.

Mas a história encarregou-se de desmentir a Idade de Ouro: depois da morte de Augusto vieram Tibério, Calígula, Nero, etc., e os romanos voltaram “a viver na expectativa de um desastre iminente”². Mesmo assim não se pode desprezar o poder visionário do poeta que, como um verdadeiro vatis (adivinho), “captou o contexto ao mesmo tempo cósmico e religioso do fim das guerras civis”, e o ciclo de paz que o império viveria sob a égide de Augusto. Estes versos de Virgílio foram objeto de muita especulação, e deram margem para que apologistas cristãos vissem nele uma profecia do nascimento de Cristo e da Virgem Maria. Entretanto, outros autores como Gérard de Sède vêem nisso mais uma evidência de “que o cristianismo tomou das religiões da antigüidade o tema do deus nascido de uma virgem”.

A PROFECIA ACABA SE CUMPRINDO…

Há vestígios do cálculo de Vetius em vários textos no transcorrer do último século do império, diante da proximidade do desenlace fatal. Depois da vitória de Stilicon sobre Alarico em Polentia, em 403, Claudiano compõe seu poema sobre a guerra gética. Nele, descreve em termos assustadores os terrores de Roma, que se acreditava condenada pelo Destino, mas fora salva pela bravura de Stilicon.

Já se falava em fugir da Itália e procurar asilo na Sardenha ou na Córsega; o medo, sempre crédulo, espalhava entre o povo predições sinistras: as pessoas inquietavam-se pelo voo dos pássaros, pelas profecias registradas nos livros fatídicos e, sobretudo, por um incidente que se produzira na presença do imperador Honório (384-423). Um dia, quando cavalgava em uma planície, dois lobos atacaram sua comitiva; abatidos por mil flechas, eles sucumbiram, mas duas mãos humanas saíram de seus flancos entreabertos. Os mais funestos presságios foram tirados deste incidente, lembrando a loba que amamentou Rômulo e retomando-se o cálculo do número de anos, baseado no voo dos doze abutres.

De acordo com a interpretação dada por Vettius, o império deveria durar até meados do quinto século. O milésimo aniversário de Roma tinha sido celebrado solenemente em 248; admitia-se então oficialmente, nesta época, que a fundação da cidade datava de 753 a.C., data adotada por Varrão e por Cícero. Logo, o décimo segundo século teria começado em 348 e estaria na metade em 398. Mas a data de 753 estava longe de ser unanimidade. Outros autores preferiam a de 747, colocando a fundação de Roma seis anos mais tarde. Se os contemporâneos de Claudiano eram da mesma opinião, a primeira metade do décimo segundo século deveria se acabar em 404, a segunda em 454. Ora, é exatamente no ano 404 que Roma estava seriamente ameaçada por Alarico. Mas Claudiano, a exemplo de Virgílio, não aceitava estas profecias sinistras, já que prometia a eternidade a Roma e a conclamou a afastar os terrores da velhice em seu poema. Mas ele sabia que seus contemporâneos tinham medo e ele queria convencê-los que a bravura de seu herói poderia salvá-los da fatalidade do destino.

Em 454, Sidônio Apolinário faz duas vezes alusão à mesma interpretação do augure de Rômulo, no seu panegírico ao imperador Avitus. Na primeira vez é Roma que fala: “O que me pressagia este vaticínio toscano com seus doze abutres?” A segunda passagem é mais interessante: “Agora os destinos quase cumpriram as doze idades de teu abutre – pois tu conheces, ó Roma, tu conheces as provas que a aguardam – agora que o insensato eunuco Placidus sacrificou Aécio”.

A morte de Aécio por Valentiniano, que privou Roma de seu último grande general, aconteceu em 21 de setembro de 454. Aécio foi mortalmente golpeado pelo próprio imperador, instigado por Petronius Maximus e pelo eunuco Heraclius. Assim, Sidônio, escrevendo em 456, diz que o número dos anos de Roma, anunciado pela profecia dos doze abutres, estava quase cumprida em 454; por outro lado, temos como prova a morte de Aécio; desastre para o Senado romano e para a causa nacional, pareceu, a muitos contemporâneos, marcar o fim do império. No ano seguinte, 455, Valentiniano morre assassinado e o vândalo Genséric, partindo de Cartago, invade e saqueia Roma.

Muitos romanos instruídos desta época acreditaram que o império chegara ao fim com a morte de Aécio e não com a tomada de Roma no ano seguinte. O primeiro evento coincidiu com a conclusão do ano 1.200 da cidade e, por isso, aceitaram resignadamente o Destino…

Os historiadores modernos preferem estabelecer a queda do Império do Ocidente em 476, quando Rômulo Augusto foi deposto por Odoacro, chefe dos herules. Segundo Salomão Reinach, esta data foi fixada por autores góticos, que poderiam assim apresentar o reinado germânico da Itália como o sucessor imediato do Império Romano, sem fazer alusão à usurpação de Odoacro (476-489), durante a qual, oficialmente, a Itália foi reanexada ao Império do Oriente. Por outro lado, a data de 454 era, segundo toda a aparência, aquela que os romanos haviam aceitado, porque parecia de acordo com a velha profecia.

Assim, a predição se cumpriu quase literalmente. Ao longo do tempo, lembrada e citada todas as vezes que o destino do império estava em jogo, teve grande influência sobre o moral dos romanos letrados. Os poetas se esforçaram, depois de Virgílio, para predizer duração eterna a Roma, imperium sine fine; mas a profecia misturou-se à história imperial como um vago sentimento de mal estar, de inquietação pelo futuro do poderio romano e fortaleceu a crença nitidamente expressa por Tito Lívio, que esta grande civilização caminhava para o seu declínio.

A interpretação dada por Vetius do augure de Rômulo não deveria ser o único argumento invocado pelos pessimistas da época de Alarico. O poeta Claudiano dizia, em 403, que os temores de Roma se baseavam também nos livros sibilinos. Os covardes procuravam nesses textos os segredos do futuro próximo, como se fossem guardiões dos destinos de Roma.

Os livros sibilinos adquiridos por Tarquínio, destruídos no incêndio do Capitólio, foram reconstituídos a partir dos oráculos da Sibila de Samos, de Ilion, da Eritréia, da África, da Sicília e das colônias italianas. Esses novos livros sibilinos, escritos em grego, eram em grande parte obra de judeus helenizados, naturalmente hostis aos poderosos do mundo e sempre prontos a predizer catástrofes no estilo do Apocalipse joanino. Em uma parte desses oráculos, o anúncio da ruína do império é quase um lugar comum. Mas é certo, segundo Tácito, que os versos sibilinos coletados no Oriente, por comissários enviados pelo Senado, passaram por uma triagem. Mas as sombrias profecias à longo prazo não foram totalmente eliminadas. Em 403, por exemplo, Claudiano faz referência aos livros sibilinos responsabilizando-os pelo temor popular da ruína próxima do império.

Para a alegria de uns e a cólera de outros, Stilicon – seu contemporâneo, protetor e confidente – mandou queimar os livros, seguindo o exemplo de Augusto e Tibério, que ordenaram a busca e a destruição dos textos sibilinos sob o pretexto de que constituíam um perigo para o Estado. Provavelmente, a profecia de Vetius, compilada e versificada no Oriente, tenha entrado nos novos livros de forma mais ou menos velada.

* Este artigo faz parte do livro “Histórias da Astrologia” de Bira Câmara.


Notas:
¹ Mircéa Eliade, Hist. das Crenças e das Idéias Religiosas, Tomo II, vol. 2, pág. 130
² M. Eliade, idem, pág. 133

BIBLIOGRAFIA:
  • Édouard Schuré, “Os grandes Iniciados”, 2° tomo, Ed. Org. Simões, 1952
  • Gaston Boissier, “La Fin du Paganisme”, Librairie Hachette, Paris, 1903
  • Gérard de Sède, “Estranho Mundo dos Profetas”, Hemus, 1984
  • John Gilbert, “Mitos e Lendas da Roma Antiga”, Ed. Melhoramentos, 1976
  • José Pijoan, “As Origens de Roma”, Antologia de vidas célebres, Ed. Logos, 1962
  • Mircea Eliade, “História das Crenças e Idéias Religiosas”, Zahar Editores, 1978
  • Oliveira Lima, “História da Civilização”, Ed. Melhoramentos, 4a. Ed.
  • Plutarco, “Rômulo”, Livr. Ed. Logos, 1962
  • Salomão Reinach, “Cultes, Mythes et Religions”, Ernest Leroux Ed., 1906
  • Tassilo Orpheu Spalding, “Dicionário da Mitologia Latina”, Cultrix, 1982

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