A guerra civil inglesa

Uma das consequências da guerra civil inglesa foi o relaxamento da censura, que permitiu a publicação de inúmeras obras astrológicas, contribuindo para o grande interesse pela astrologia na Inglaterra em meados do século 17. A invenção da imprensa e a adoção de inglês no lugar do latim por autores de obras astrológicas também contribuiu para que a astrologia se disseminasse.

A Inglaterra viveu um período de prosperidade durante o período elizabetano, mas esta prosperidade encobriu divisões políticas e religiosas entre o povo inglês, que começaram a aparecer quando Jaime I subiu ao trono em 1603. Este soberano acreditava no “direito divino” dos reis e não tinha muito senso de responsabilidade para com o seu povo. Seu filho, Carlos I, que o sucedeu em 1625, compartilhava desta orgulhosa avaliação de si mesmo: durante onze anos governou sem o Parlamento, apoiando-se apenas nos seus conselheiros o conde de Strattford e o arcebispo de Cantuária Laud.

Janeiro de 1649, execução de Charles I: pela primeira vez na história da Inglaterra um rei é executado pelo seu povo.
Janeiro de 1649, execução de Charles I: pela primeira vez na história da Inglaterra um rei é executado pelo seu povo.

A guerra civil na Inglaterra eclodiu depois que o rei exigiu a entrega de cinco membros da Câmara dos Comuns, acusando-os de traição. Como a intimação não foi cumprida, o próprio rei foi buscá-los com uma força armada, sem todavia encontrá-los. A indignação foi tão grande que o Parlamento exigiu que Carlos I abandonasse o comando do exército. Foi o sinal para o início das hostilidades: a guerra civil durou seis anos (1642-48), dividindo os ingleses entre realistas ou cavaliers, que eram sobretudo os nobres e o clero, e os “cabeças redondas” (roundheads – assim denominados por usarem cabelos curtos), abrangendo a burguesia, parte dos fidalgos rurais (gentry), alguns nobres e a yeomanry, ou milícia montada dos pequenos proprietários. O exército do Parlamento era animado pelo espírito religioso de boa parte de seus correligionários, enquanto que os demais alimentavam-se do despeito político. Também os presbiterianos fanáticos, os reformadores republicanos ou simplesmente constitucionais moderados e homens de armas juntavam-se a esse exército.

As forças parlamentares foram disciplinadas severamente por um oficial de cavalaria e membro da Câmara dos Comuns, chamado Oliver Cromwell (1599-1658), cujo regimento – os ironsides ou “costelas de ferro” – marchavam para o campo de batalha entoando salmos.

Em 1645 os parlamentaristas venceram as tropas do rei na batalha de Naseby, forçando Carlos I a fugir para a Escócia. Mas o fervor calvinista dos escoceses sobrepujava a sua lealdade ao rei, e o entregaram ao Parlamento britânico em 1648.

 Gravura produzida durante a Guerra Civil, mostrando o confronto entre os roundheads e cavaliers.
Gravura produzida durante a Guerra Civil, mostrando o confronto entre os roundheads e cavaliers.

Cromwell expulsou do Parlamento todos os membros que pretendiam a reposição do rei ao trono mediante um novo pacto constitucional e conseguiu fazer com que Carlos I fosse condenado por traição e decapitado em 1649. A Inglaterra tornou-se então uma república, sob a chefia de Cromwell, mas após a sua morte os líderes britânicos chamaram Carlos II, filho mais velho do rei deposto que vivia na França, a “voltar de suas viagens” e ocupar o trono de seu pai.

Uma das conseqüências da guerra civil foi o fim da censura oficial, que estava em operação desde 1603, quando James I estabeleceu a censura sobre todas as publicações. Nenhum impresso deixava de ser submetido a ela, e, naturalmente, qualquer coisa que infringisse a autoridade da Igreja era proibido. A impressão, venda ou posse de livros que não tinham sido examinados e revisados pelas autoridades eclesiásticas poderia acarretar castigo corporal. Esta censura restringia severamente as publicações e afetava em particular a divulgação de trabalhos astrológicos. Por conseguinte, o colapso da censura em 1641 provocou o florescimento de todas as áreas do conhecimento que tinham sido suprimidos anteriormente. Os astrólogos beneficiaram-se com este relaxamento da censura e, adotando o uso da língua inglesa em lugar do latim, tornaram-se muito populares no século XVII.

Fontes/WEB:
  • The English Merlin /The World of William Lilly and the 17th century astrologer, dedicado a biografia, época e astrólogos de sua época: www.skyhook.co.uk/merlin/index.htm
  • Renaissance Astrology/William Lilly Main Page – site de Christopher Warnock, com trechos da autobiografia de Lilly, artigos e exemplos de astrologia horária: www.renaissanceastrology.com/lilly.htm
  • Bartleby.com (Cambridge, History of English and American Literature, Vols. § 2, §4, §5, §7 ): www.bartleby.com
  • CIVIL WAR – Spartacus Educational – site britânico de História, com uma seção dedicada à Guerra Civil Inglesa. Biografias, batalhas, eventos, etc.: www.spartacus.co.uk
  • CIVIL WAR – site da BBC sobre a Guerra Civil com biografias, eventos, batalhas e até vídeos sobre esta época: www.open2.net/civilwar/index.html
Fontes/Livros:
  • Derek e Julia Parker, O Grande Livro da Astrologia, Círculo do Livro
  • Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, Ed. Verbo, Lisboa, 1984
  • Encyclopaedia Universalis, Éditeur À Paris, 1990
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Ed. Enc. Ltda.
  • Nouveau Larousse Illustré
  • Oliveira Lima, “História da Civilização”, 4a. Ed., Cia. Melhoramentos, S. Paulo, 1919
  • Serge Hutin, “História da Astrologia”, Edições 70, 1977
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