A estrela de Belém

Até hoje não há um consenso entre os especialistas e estudiosos quanto a verdadeira data de nascimento de Jesus Cristo. A única certeza é que ele não nasceu em 25 de dezembro, como comemoram os cristãos. Durante o reinado de Constantino (306 a 337), quando o cristianismo foi elevado a religião oficial do Império, transferiu-se a Natividade de Jesus para 25 de dezembro, o solstício de inverno, data em que os pagãos festejavam o nascimento de Helios, o deus Sol Invicto. Para combater as crenças pagãs, a Igreja resolveu transformá-la numa festa cristã, celebrando nesta ocasião o nascimento de Jesus. Também a misteriosa estrela de Belém tem sido alvo de especulações entre astrônomos, astrólogos e teólogos ao longo da história, sem que se tenha chegado a um consenso quanto a sua natureza.

“Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do oriente a Jerusalém. “E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adorá-lo.” (Mateus, 2. 1,2)
“Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do oriente a Jerusalém. “E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adorá-lo.” (Mateus, 2. 1,2)

Somente o Evangelho de Mateus, redigido por volta do ano 90 d.C., faz referência aos reis magos e à estrela que teria sido vista nos céus. Não se sabe quem eram esses magos, de onde vieram, que idade tinha a criança no momento de sua chegada e muito menos qual a natureza da estrela e sua posição celeste. A visita dos reis magos ao menino Jesus é comemorada tradicionalmente em 6 de janeiro e no Oriente, até o século IV, o nascimento de Cristo era celebrado nesta mesma data.

Mas quem eram esses astrólogos e astrônomos caldeus e que interesse poderiam ter quanto ao destino do povo judeu? Os magos, que se converteriam mais tarde em reis na imaginação popular, eram homens de conhecimento, sábios que os tradutores concordaram em chamar de astrólogos. Acreditou-se que eram caldeus, por causa de seus conhecimentos astronômicos, ou persas devido à natureza messiânica de alguns textos do zoroastrismo. Aliás, uma antiga lenda iraniana relata que Ardeschir, príncipe da dinastia dos Sassânidas, logo depois de se tornar senhor do império persa, condenou à morte todos os descendentes dos príncipes da dinastia precedente, porque os astrólogos tinham predito que a sua coroa seria arrebatada e passaria a um descendente de seu antecessor.

Cometa ou conjunção planetária?

Dezenas de hipóteses foram propostas para explicar este misterioso astro que assinalou o nascimento de Jesus, entre elas que teria sido Vênus (que, em qualquer situação, não é uma manifestação astronômica particularmente rara). A suposição de que teria sido o cometa Halley teve muitos defensores ao longo do tempo, como o teólogo cristão Orígenes (183-254), o primeiro a sugerir que a estrela de Belém foi um cometa, assim como São João de Damasceno no século VII, Jacobus de Voragine (1228-1298) e Geoffrey de Meaux em 1338. Mas o cometa Halley foi visível somente no ano 12 a.C. Atualmente a hipótese de conjunção planetária é mais aceita e numerosas variantes foram propostas, como a ocultação planetária de Júpiter pela Lua nos dias 20 de março e 17 de abril do ano 6 a.C., defendida pelo astrônomo Michael Molnar. Mas diversos estudiosos fizeram críticas a esta hipótese, entre eles os astrônomos Seymour e Kidger, pois as ocultações de Júpiter pela Lua são bastante comuns e as ocorridas no ano 6 foram praticamente invisíveis.

Giotto, Adoração dos Magos
Giotto, Adoração dos Magos

O astrólogo Jerônimo Cardan viu na na estrela nova observada por Tycho Brahe em 1572 a mesma que conduziu os reis magos a Belém. Para Kepler, a estrela dos Magos era também uma estrela nova, similar àquela que ele havia observado em 1604. Sua aparição também coincidiu com a conjunção Júpiter-Saturno do ano 7 a.C., o que o levou a relacionar a primeira com o nascimento do cristianismo e a concepção de Cristo, e a segunda com a Reforma. Kepler acreditava que o grande ciclo dos 3 planetas mais lentos assinalava as grandes fases da história, especialmente a bíblica.

Um livro curioso, Mensagem aos Judeus (1960), de autoria de Aladino Félix (sob o pseudônimo de Dunatos Menorá), postula a data de 15 de setembro do ano 3 a. C. Segundo este polêmico autor, baseado nas escrituras sagradas, em Flávio Josefo e em dados astronômicos, Cristo nasceu quando o Sol ingressava em Libra e transpunha a linha equatorial no equinócio de outono. De acordo com o calendário judaico, era o primeiro dia da festa das cabanas, uma quinta-feira (dia 15 de Tishri), às 23 horas e 54 minutos.

Mapa astrológico calculado para a data de 15 de setembro do ano 7 A.C.
Mapa astrológico de Cristo, de acordo com Aladino Félix

A conjunção planetária vista pelos três reis astrólogos, de rara beleza (mas não de ocorrência rara…) teria acontecido um ano antes em 27° de Câncer: perto da estrela Régulus, “Júpiter, Vênus e Mercúrio agrupados, brilhando desde uma hora antes de nascer o Sol. Vênus, estando em conjunção superior, pudera formar com Júpiter uma tocha no espaço”. (…) “No ascendente estava Sirius – como exigia a profecia para indicar o nascimento do grande Rei”¹.

Há muitas imprecisões astronômicas e astrológicas na tese de Aladino, apesar de seu conhecimento das escrituras sagradas e da tradição hebraica, razão pela qual não vale a pena esmiuçá-la. Mas fica aqui o registro de sua tese audaciosa, desenvolvida numa época em que a discussão sobre a verdadeira data do nascimento de Cristo não estava na pauta dos historiadores e nem mesmo de místicos e astrólogos.

Cristo, um virginiano?

A hipótese do nascimento de Cristo durante o verão do ano 7 a.C. parece a mais provável. Foi proposta inicialmente pelo astrólogo John Addey a data de 22 de agosto de 7 a.C., à tarde, para a ascensão helíaca da conjunção Júpiter-Saturno. Outro astrólogo, o alemão Walter Koch, propôs o tema hipotético do nascimento de Cristo para 14 de setembro de 7 a.C., ao pôr do sol.

Mas a data de 15 de setembro de 7 a.C. encontra muitos defensores como Konradin Ferrari d’Occhieppo, astrônomo da universidade de Wien, e os astrônomos David Hughes e Percy Seymour, que discordam apenas quanto ao horário².

Mapa astrológico de Cristo, de acordo com Aladino Félix
Mapa astrológico calculado para a data de 15 de setembro do ano 7 A.C.

Do ponto de vista estritamente astrológico, o nascimento de Cristo sob o signo de Virgem faz bastante sentido, pois é coerente com o eixo zodiacal da nova era que começava. Nessa linha de raciocínio, é lógico supor que ele deveria ter nascido em Peixes ou Virgem…

Durante o ano 7 a.C., devido a suas latitudes, Júpiter e Saturno fizeram conjunção em várias ocasiões, a mais próxima com 1 grau de distância. A conjunção dos três planetas mais lentos conhecidos pelos astrônomos da época (Marte, Júpiter, Saturno) aconteceu pela primeira vez depois de 850 anos no signo de Peixes, e Cristo teria nascido sob a oposição do Sol em Virgem, com a conjunção Júpiter-Saturno ascendendo no horizonte. Esta hipótese explica as palavras dos magos a Herodes: “Vimos sua estrela subindo” o que permite supor que este “astro” não tinha desaparecido ainda e que poderia ser observado novamente. Também explica o enigma da metáfora da imaculada concepção (o texto do Evangelho “nascido de uma virgem” se interpretaria como “nascido no signo da Virgem”) e a assimilação do acontecimento astronômico com a vinda de um Messias, rei dos Judeus (elevação de um planeta real, benéfico, em conjunção com Saturno, o planeta dos Judeus). Para reforçar a importância desta efeméride astronômica, o símbolo de Peixes foi conservado como sinal de identificação e de reconhecimento entre as primeiras comunidades cristãs.

A partir do exame de alguns textos encontrados em Qunran, Patrice Guignard propõe a hipótese de que os reis magos seriam na verdade monges essênios ou astrólogos iranianos que se relacionavam de alguma forma com a comunidade essênia, e que a conjunção de 15 de setembro de 7 a.C. corresponderia a um “modelo astrológico” que assinalaria o nascimento do Messias, de acordo com a astrologia praticada pelos essênios. Entre vários textos de natureza astrológica redigidos em aramaico, um em especial (o documento 4Q186, encontrado na quarta gruta de Qumran) descreve as qualidades do Messias esperado, do Eleito de Deus. Assim, pois, a estrela vista nos céus por ocasião do nascimento de Cristo foi o sinal aguardado no mundo judeu essênio para a vinda do Messias.

Notas:
  1. Dunatos Menorá, Mensagem aos Judeus, Livr. e Ed. Minimax, S.P -1960, pág. 25.
  2. A esse respeito, ver no site do C.U.R.A. o artigo de Patrice Guignard La Estrella de Belén, una escena organizada por astrólogos, que mostra detalhadamente estes mapas (http://cura.free.fr/esp/20jesus.html).
Bibliografia:
  • Bíblia Sagrada, Soc. Bíblica do Brasil, 1961
  • Nelson Travnik, “Os Cometas”, Papirus Ed., S.P., 2a Ed., 1985
  • Oscar Matsuura, “Cometas: do mito à ciência”, Ícone Ed., S.P., 1985
  • Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, “O Livro de Ouro do Universo”, Ediouro, 6a. Ed., S.P.
  • Rudolf Thiel, “E a Luz se Fez”, Ed. Melhoramentos, S.P., n/d.
Sites:

5 comentários em “A estrela de Belém

  • 20 de dezembro de 2008 em 7:52 am
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  • 22 de janeiro de 2009 em 11:45 pm
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    Caro Bira interessante este artigo,tem um artigo de Paulo Duboc no meu blog que especular sobre o nascimento de Cristo.Acho que vai gostar.Além disso usei no suposto mapa de Jesus os símbolos sabeus,más só olhando.Abraços.

  • 23 de fevereiro de 2009 em 10:38 am
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    Caro

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    Abraço

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  • 20 de agosto de 2009 em 9:42 am
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    Descobri seu blog e já faz parte dos meus favoritos. Porém, como cético e após ler este texto chego a conclusão diferente: provavelmente os magos assim como o assassinato de crianças por Herodes (sem comprovação histórica) foram histórias extraídas pelo autor de Mateus exatamente das lendas persas relatadas.

  • Pingback: jar.io

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