A astrologia no teatro do século XVII

Em meados do século XVII, a astrologia já não gozava do mesmo prestígio que teve na Idade Média e Renascença entre o público letrado.

Com a fundação da Acade­mia das Ciências na França em 1666, Colbert (ministro das finan­ças de Luís XIV) excluiu a astrologia das disci­plinas oficialmente reconhe­cidas, sob a alega­ção de que não tinha fundamento cien­tí­f­ico. Este evento marcou o des­crédito da astrologia no mundo acadêmico e, logo em seguida, os países católicos retiraram a cadeira desta ma­téria das suas universi­dades.

Essa falta de credibilidade refletiu-se na literatura, na filosofia, nas ciências e até no teatro; intelectuais e artistas passaram a tratar a astrologia com irreverência e escárnio. A fábula de La Fontaine (1621-1695) sobre o astrólogo que caiu no fundo do poço é emblemática, bem como sua exortação aos “astrólogos, charlatães e fabricantes de horóscopos a abandonar as cortes dos príncipes e da Europa”.

Quando a figura do astrólogo aparece na produção literária e no teatro dessa época, é para desempenhar o papel de charlatão em comédias despretensiosas (como Anaxarque, personagem de Moliére em Les Amants Magnifiques/1670) ou um ignorante simplório e crédulo (como o astrólogo Mr. Foresight, personagem de William Congreve em Love for Love/1695).

Página de abertura da primeira edição de La Vida es Sueño, publicada em Madrid em 1640
Página de abertura da primeira edição de “La Vida es Sueño”, publicada em Madrid em 1640

No teatro barroco o tema inspirou uma obra-prima: La Vida es Sueño, do espanhol Calderón de La Barca, um drama filosófico que coloca em discussão a pretensão de determinar o destino dos homens através das estrelas. Aqui, o astrólogo é o rei Basílio da Polônia, mas o personagem principal é seu filho Segismundo, que tem o infortúnio de nascer sob um eclipse do Sol. Sua mãe morre durante o parto, o que leva o rei a interpretar isto como sinal de que o recém-nascido seria um monstro que o destruiria depois de destroná-lo. Para evitar outras desgraças ordena a construção de uma torre num lugar afastado do reino, para ali encerrar o filho e educá-lo sob a vigilância de um nobre. Assim, o príncipe cresce completamente isolado do mundo. Mas as coisas não acontecem como o rei-astrólogo previra, numa suposta demonstração da vacuidade das predições astrológicas.

Les Amants Magnifiques

Na comédia de Moliére, dois príncipes rivais disputam o coração de uma jovem princesa que ama um soldado mercenário sem título de nobreza, mas não sem méritos e que a salvara de um feroz javali. O personagem Anaxarque, inspirado na figura de Morin de Villefranche, serve de pretexto para o dramaturgo ironizar a astrologia. Segundo o crítico G. Couton, “esta representação dá uma lição de racionalismo a uma corte e a uma civilização que tinha muita necessidade disso”.

O irônico é que a peça fora encomendada por Luís XIV e que o próprio rei desempenharia nela o papel de Netuno. Mas ele desistiu de participar da representação e a peça foi um fracasso.

Os críticos apontam semelhanças de algumas passagens com peças de outros autores; por exemplo, a ideia do engano de Iphicrate se encontra em L’Astrée, onde um amante contrata um falso druida para convencer sua bem amada que ela encontrará seu futuro amante em certa hora e local, mas um imprevisto faz com que o rival Celadon esteja ali e, assim, a jovem o veja como seu futuro esposo.

Seja qual for a natureza do tema, Moliére sempre aproveita a ocasião para introduzir um toque de realismo; nesta peça ataca a astrologia, que gozava de alto conceito na corte de Luís XIII e também na de Luis XIV. Aliás, o nascimento de Luís XIV foi assistido por Morin, escondido atrás de uma cortina, segundo os seus detratores. Na verdade, o astrólogo foi introduzido no quarto da rainha pelo Cardeal Richelieu com o objetivo de traçar o horóscopo do futuro rei com a maior exatidão possível. Sabe-se que Luís XIV trazia sempre com ele um talismã gravado com o seu signo de nasci­mento e um quadrado mágico.

Moliére zomba da astrologia já no primeiro ato, através das observações do personagem Clitidas:

“Com todo o respeito que eu devo à Madame: há uma coisa que me espanta na astrologia: como as pessoas que conhecem todos os segredos dos Deuses, e que possuem conhecimentos para se colocar acima de todos os homens, têm necessidade de cortejar e perguntar qualquer coisa.”

Depois, volta à carga com as questões engenhosas da princesa Ériphile:

“- O céu, Anaxarque, registra os dois destinos que me aguardam?
– Sim, Madame, as felicidades que vos acompanharão se desposardes um, e as desgraças que a acompanharão se desposardes outro.
– Mas como é impossível que eu despose ambos, é preciso então que eu descubra escrito no Céu não somente o que deve acontecer, mas também o que não deve acontecer.” (ato III, 1)

Mais adiante, com uma eloqüência cheia de ironia, o personagem Sostrate despeja sua bílis contra astrólogos e alquimistas:

“Transformar tudo em ouro, alcançar a vida eterna, curar pelas palavras, fazer-se amar por quem se deseja, conhecer todos os segredos do futuro, […] comandar demônios, fabricar exércitos invisíveis e soldados invulneráveis: tudo isso é encantador, sem dúvida; e há pessoas que não têm nenhuma dificuldade em acreditar nisso: é a coisa mais fácil do mundo de se conceber. Mas para mim, confesso que meu espírito grosseiro tem alguma dificuldade para compreender e acreditar nessas coisas, e sempre achei isso bonito demais para ser verdade. […] Que relação, que comércio, que correspondência pode existir entre nós e os globos tão distantes de nossa terra? e de onde, enfim, esta bela ciência veio aos homens? Que Deus a revelou, ou que experiência pode ser tirada da observação desse grande número de astros que nunca vi duas vezes na mesma disposição? (III, 1)

Moliére, sem dúvida, nos oferece uma bela farsa, mas seus argumentos seriam facilmente rebatidos por um astrólogo experiente, como o demonstra André Barbault em “O Conhecimento da Astrologia”.

Congreve

Na Inglaterra, na primeira metade do século XVII, os astrólogos ainda tiveram credibilidade e popularidade suficiente para influenciar a opinião pública e participar ativamente da guerra civil inglesa. Mas, no final do século, também se tornaram alvo de escárnio e piadas. Ironicamente, foi sob a pena irreverente de um aquariano, William Congreve, nascido a 24 de ja­neiro de 1670, que os astrólogos foram caricaturados no teatro inglês e reduzidos a um papel ridículo. Na sua comédia Love for Love (Amor por Amor), escrita em 1695, um dos personagens principais é o sim­plório Mr. Foresight (em português, Sr. Adivinho), protótipo do astrólogo amador sem grande cultura e que apela para as estrelas para justificar os mais banais acontecimentos do cotidiano. Supersticioso, rabugento e ao mesmo tempo crédulo, além de pretenso conhecedor de astrologia, Foresight igualmente discursa sobre quiromancia, fisiognomia, presságios, sonhos, etc. Congreve sem dúvida colocou no personagem todos os clichês que descrevem o indivíduo crédulo e ingênuo, ávi­do leitor de almanaques e consumidor de predições e profecias de todos os tipos. A fala de Foresight é to­da permeada pelos jargões dos fanáticos pelas ciências ocultas, o que é sem dúvida muito engraçado.

Quando Congreve escreveu Love for Love ele vinha de um fracasso (The Double-Dealer, encenada em 1693, teve péssima recepção de público e de crítica) e estava irritado pelo que chamou de obtusidade do público inglês. Esta comédia foi um sucesso e devolveu-lhe temporariamente o favor popular. Porém, ao contrário de A vida é sonho de La Barca, não foi sua obra-prima, mas a peça The Way of the World, escrita em 1700.

Satirizar a astrologia foi uma das formas que os “racionalistas” utilizaram para desacreditá-la, recorrendo a argumentos superficiais e rotulando os astrólogos como charlatães. A fórmula foi aperfeiçoada por Voltaire que, através de objeções ligeiras e anedotas divertidas, tentou ganhar a causa provocando risos às custas dos astrólogos.

Apesar do mérito dessas peças como produções artísticas de alto nível, nenhuma delas apresenta argumentos que possam colocar em xeque a astrologia; apenas refletem o momento histórico e o grau de descrédito a que essa antiga arte chegara.

Fontes:
  • André Barbault, El Conocimiento de la astrologia, Dédalo, Buenos Aires, 1979

8 comentários em “A astrologia no teatro do século XVII

  • 28 de outubro de 2008 em 9:20 pm
    Permalink

    Apreciei muito este seu sítio que eu não conhecia. Já o linquei nos meus «Laços astrológicos».

    António

  • 7 de maio de 2011 em 12:02 am
    Permalink

    Em Faculdades Brasileiras, não temos o privilégio de estudar a Literatura, a Filosofia, a Antropologia, a sociologia ligando-as a certas linhas importantíssimas, uma delas é o Simbolismo. Como ficamos tão pobres em conhecimento. Se tivéssemos retomado o conhecimento antigo, o clássico e o medieval, estaríamos melhor. E ainda dizem que a Idade Média é a Idade das Trevas! Pois foi nesse período que as pessoas sabiam ler através dos símbolos das Catedrais, das Esculturas. Quão limitados ficamos hoje em dia, com toda a tecnologia a nosso dispor! É uma lástima!
    Abraços,
    Ivan

  • 7 de maio de 2011 em 12:07 am
    Permalink

    No século dezessete ainda tentavam manter a chama acesa da sabedoria! Mas a perseguição iniciou-se tão fortemente contra os astrólogos e tarólogos que o silêncio era prioritário por uma questão de sobrevivência! O Racionalismo foi importante, mas destruiu muito a capacidade do ser humano de intuir através de seus símbolos, oráculos. Espero que no século XXl, possamos unir a Ciência Objetiva à Ciência Subjetiva.

  • 7 de maio de 2011 em 12:55 am
    Permalink

    A ditadura militar fez lobotomia em toda uma geração ao expurgar as Ciências Humanas do currículo de nivel médio. A intenção era produzir uma massa de beócios e incultos diplomados, para melhor manipulá-la. O resultado é o que esta aí. Só que quem se beneficiou disso foi o PT e a esquerda, que conseguiram botar no poder um sujeito que se orgulha de ter chegado ao cargo máximo deste país sem ter jamais pisado numa faculdade…

  • 7 de maio de 2011 em 1:03 am
    Permalink

    Num dos capítulos de “A Nova Era, os deuses estão de volta?” falo justamente nisso, na cisão entre razão e fé. Quando a Ciência e a Razão derem-se as mãos, aí sim estaremos na era de Aquário. O simbolismo implícito nas asas dos anjos é que eles conseguiram harmonizar o conhecimento e a espiritualidade. Não é possível voar com uma asa só; não é possível manter a sanidade sendo totalmente racional ou totalmente irracional. Dos autores modernos quem sacou muito bem isso foi Koestler.

  • 7 de maio de 2011 em 8:18 am
    Permalink

    A cultura em nosso país é da década de 70 para trás, não há como valorizar o novo, sem resgatar o velho. Voltemos com as Humanidades, urgente! Não dá para aguentar mais tanta hipocrisia, o superficial, o vazio dessa horda. Nesse país há os ilustres desconhecidos, que estão sendo torturados e massacrados por uma pseudoelite intelectual, que se diz o suprassumo. Só há três possibilidades: ou a pessoa é o boneco, ou é o Ventríloquo ou tenta escapar dessa mediocridade!

  • 7 de maio de 2011 em 8:29 am
    Permalink

    Neste país, conseguem destruir o que há de bom. Os lvros didáticos atuais não chegam nem aos pés de uma edição do Instituto Nacional do Livro, de uma Fename, de uma Editora Itatiaia,de uma Uteha, de uma Edições 70 ou Calouste Gulbenkian. Precisamos reeditar o que restou e o que a horda ignora! Se quisermos chegar ao status de um país preocupado sinceramente com a Educação!

  • 7 de maio de 2011 em 8:40 am
    Permalink

    No meio esotérico, o individuo precisa estudar : Mitologia Comparada, Religiões Comparadas, Idiomas Antigos (Hieróglifos, Sumério, Sânscrito, Persa), Simbolismo, História da Arquitetura, Astronomia, Antiguidades, Raciocínio Lógico, Estudo das Personalidades (Eneagrama), Temperamentos, Fisiognomonia, Patologias, Botânica, Fitoterapia. O modismo não leva a nada, apenas o Conhecimento de si mesmo e do mundo que o cerca poderá dar ao buscador a profundidade para a compreensão plena!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.